Viagem reforça reivindicação da soberania de Moscou sobre o arquipélago e evidencia rede de defesa construída ao longo da última década
O presidente russo Vladimir Putin fez, no dia 13 de agosto, sua primeira visita às disputadas Ilhas Curilas, desembarcando em Iturup, uma das quatro ilhas do sul reivindicadas pelo Japão. A viagem ocorrida dois dias antes, da celebração japonesa pelo fim da Segunda Guerra Mundial, teve caráter altamente simbólico e foi usada por Moscou para reafirmar sua soberania sobre o arquipélago, historicamente disputado entre os dois países.
A visita também chamou atenção para o aparato militar instalado nas ilhas ao longo de mais de uma década, que transformou postos avançados antes pouco defendidos em uma rede fortificada de mísseis costeiros, forças terrestres, defesa aérea e infraestrutura de aviação militar.
A importância estratégica do reforço militar russo nas Curilas do sul está diretamente ligada à geografia da região: as ilhas ficam imediatamente ao norte de Hokkaido, no Japão, e controlam os acessos entre o Oceano Pacífico e o Mar de Okhotsk.
Essa posição faz do arquipélago um ponto sensível não apenas para a disputa territorial bilateral, mas também para o equilíbrio militar mais amplo no Pacífico Norte.
A 18ª Divisão de Metralhadoras e Artilharia
A principal unidade terrestre russa, nas Curilas do sul é a 18ª Divisão de Metralhadoras e Artilharia, subordinada ao 68º Corpo de Exército, do Distrito Militar Oriental da Rússia. Segundo avaliações do Ministério da Defesa Japonês (MoD), cerca de 3.500 militares russos estão posicionados entre as ilhas de Iturup e Kunashir, com a missão de defender o território contra um eventual assalto anfíbio.
O quartel-general da divisão, está localizado em Goryachiye Klyuchi, em Iturup, com efetivos adicionais também estacionados em Kunashir. A estrutura da unidade, foge do padrão das divisões russas de armas combinadas convencionais: ela foi organizada especificamente para a defesa de ilhas isoladas, combinando elementos de metralhadoras, artilharia, fuzileiros motorizados e blindados.
Segundo o MoD japonês, o 49º Regimento de Metralhadoras e Artilharia está baseado em Iturup, enquanto o 46º Regimento de Metralhadoras e Artilharia opera em Kunashir, ambos subordinados à 18ª Divisão.
Sistemas costeiros e o míssil hipersônico Zircon
Com a presença da Marinha e da Força Aérea russas no Extremo Oriente do país, e tendo diminuído de forma significativa desde a dissolução da União Soviética, as defesas locais passaram a depender fortemente de sistemas móveis de mísseis baseados em terra.
Os sistemas de defesa costeira Bastion-P e Bal foram inicialmente posicionados nas Curilas do sul em meados dos anos 2010. O Bastion-P é projetado principalmente em torno do míssil antinavio P-800, capaz de atacar embarcações de superfície hostis que operem ao redor do arquipélago.
Já o sistema Bal utiliza mísseis da família Kh-35 e oferece uma camada adicional de defesa costeira em alcances mais curtos. Juntos, os dois sistemas permitem que a Rússia estabeleça zonas sobrepostas de cobertura antinavio em torno de ilhas estratégicas e acessos marítimos, formando o que pode ser descrito como uma barreira entre o Mar de Okhotsk e o Oceano Pacífico.
Em dezembro de 2021, a Rússia ampliou esse dispositivo ao anunciar o posicionamento de sistemas Bastion-P em Matua, ilha vulcânica remota nas Curilas centrais. Segundo o Ministério da Defesa russo, os sistemas têm como objetivo o monitoramento contínuo das águas e estreitos ao redor da ilha. Pessoal e equipamentos foram transportados até Matua por navios de desembarque da Frota do Pacífico.
A expectativa é de que uma nova geração de sistemas de defesa costeira, construída em torno do míssil de cruzeiro hipersônico Zircon — já testado em combate no teatro de operações ucraniano —, seja incorporada ao arsenal posicionado no arquipélago.
Defesa aérea e caças Su-35S
As defesas aéreas locais estão centradas no sistema S-300V4, um dos três sistemas multipapel de longo alcance mais modernos atualmente em serviço na Rússia, ao lado do S-400 e do S-500.
O Ministério da Defesa do Japão relata que três caças de superioridade aérea Su-35S foram destacados para um aeroporto local em agosto de 2018. A instalação permitiu que os caças operassem muito mais próximos do norte do Japão do que seria possível a partir de bases no continente russo.
Mesmo números relativamente pequenos de caças podem complicar as operações aéreas japonesas, ao representar mais uma fonte potencial de interceptação e vigilância. A localização das ilhas também as torna estrategicamente úteis para o monitoramento dos acessos ao norte do Japão e das águas que cercam o arquipélago das Curilas.




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