Ministério da Defesa indiano publica RFP do programa MTA e coloca Embraer e Lockheed Martin em rota de colisão por frota que deve substituir os veteranos An-32 da Força Aérea Indiana
O governo Indiano, formalizou nesta semana, o lançamento de sua concorrência para a aquisição de 60 novas aeronaves de transporte médio militar, um contrato estimado em cerca de ₹1 trilhão (US$ 10,5 bilhões).
O Ministério da Defesa, emitiu a Solicitação de Proposta (RFP) do programa Multi-Role Transport Aircraft (MTA) em 12 de agosto, movendo a disputa da fase de avaliação técnica para a etapa formal de licitação.
A competição opõe o C-390 Millennium, da brasileira Embraer, ao C-130J Super Hercules, da norte-americana Lockheed Martin, e prevê que o vencedor construa uma base industrial completa em solo indiano, com participação de empresas locais na fabricação, montagem final e manutenção da futura frota.
A Força Aérea Indiana (IAF) busca, com o programa MTA, substituir sua envelhecida frota de An-32, de origem soviética, além de abrir espaço para aeronaves adicionais conforme a necessidade operacional.
O requisito técnico especifica uma aeronave na faixa de 18 a 30 toneladas de capacidade de carga, critério que posiciona diretamente o C-390 e o C-130J como os dois principais concorrentes do processo.
No lado industrial, a Tata Advanced Systems fechou parceria com a Lockheed Martin, enquanto a Mahindra Defence se associou à Embraer.
A RFP também foi enviada a outras três empresas indianas: Adani Defence and Aerospace, Hindustan Aeronautics Ltd e Reliance Defence que, segundo fontes do Ministério da Defesa, ainda não revelaram publicamente com qual fabricante estrangeiro pretendem se associar.
Um contrato que vai além da aeronave
Mais do que escolher um modelo específico, o programa MTA busca consolidar uma base industrial doméstica em torno do vencedor. A aquisição está estruturada em um modelo misto: as primeiras unidades chegarão prontas para voo, enquanto o restante da frota será fabricado dentro do território indiano.
O requisito estabelece um mínimo de 40% de conteúdo nacional para as aeronaves produzidas localmente, percentual que deve subir para 60% em etapas subsequentes do programa. Também será exigido que o parceiro indiano, em conjunto com o fabricante estrangeiro selecionado, estabeleça uma linha de montagem final e capacidade de manutenção, reparo e revisão (MRO) dentro do país.
Operações em terreno hostil e apoio humanitário
As futuras aeronaves precisarão operar não apenas entre bases estabelecidas, mas também a partir de regiões de grande altitude e pistas não preparadas — incluindo os chamados Advanced Landing Grounds, presentes em Ladakh e na região Nordeste da Índia.
Essa combinação de carga útil, alcance e capacidade de pouso em campos austeros é considerada essencial pela IAF, que tem ampliado o uso de aeronaves de transporte para deslocar tropas, veículos, munição e equipamentos rapidamente entre bases distantes e áreas avançadas.
A nova frota também deve reforçar a capacidade indiana de resposta a desastres naturais, ações humanitárias e operações especiais.
C-130J: histórico consolidado e ecossistema industrial já ativo
O C-130J chega à disputa como o concorrente mais estabelecido em solo indiano. A IAF já opera 12 unidades do C-130J-30 Super Hercules, adquiridas principalmente para operações especiais e transporte tático.
Segundo a Lockheed Martin, a frota indiana conta com capacidade de reabastecimento ar-ar via receptor e cumpre missões que vão do transporte aéreo ao socorro em desastres e busca e salvamento.
Dentro dos parâmetros da MTA, o C-130J fica na extremidade inferior da faixa de 18 a 30 toneladas exigida, com capacidade de carga de aproximadamente 19 toneladas. A força do C-130J na disputa, no entanto, não se resume à familiaridade operacional da IAF com o modelo.
A Tata Lockheed Martin Aerostructures, com unidade em Hyderabad, já é fonte global de conjuntos de empenagem para o C-130J, e as duas empresas vêm desenvolvendo conjuntamente capacidade de MRO em território indiano — um histórico industrial que dá ao modelo americano uma narrativa pronta de suporte e fabricação local.
Do ponto de vista de projeto, o C-130J foi concebido em torno do transporte aéreo tático, e não da maximização pura de carga. Suas funções consolidadas incluem lançamento aéreo, operações especiais, busca e salvamento, evacuação médica e reabastecimento em voo.
C-390 Millennium: mais capacidade de carga e pistas semipreparadas
O C-390 Millennium, da Embraer, representa uma geração mais recente de aeronaves de transporte militar e é fisicamente maior que o C-130J. Sua capacidade de carga chega a 26 toneladas, valor próximo ao teto superior da faixa exigida pela Índia.
A Embraer indica velocidade máxima de cruzeiro de 470 nós (Mach 0,80), com porão de carga capaz de transportar combinações de tropas, paletes e veículos.
O modelo também foi projetado para operar a partir de pistas semipreparadas, característica relevante para a Índia diante da quantidade de campos de pouso avançados em regiões remotas do país.
A maior capacidade de carga por aeronave pode representar vantagem logística em operações de longa distância, nas quais o número de missões necessárias para transportar determinado volume de carga pesa tanto quanto o alcance máximo do avião.
A parceria entre Mahindra e Embraer, portanto, apresenta uma proposta distinta da aliança Tata-Lockheed Martin: de um lado, um jato de transporte mais novo e de maior porte; do outro, uma aeronave que já conta com frota madura e operacional na Índia.
A400M fica de fora da faixa de peso exigida
A Airbus havia oferecido anteriormente o A400M para atender à necessidade indiana, mas o modelo é significativamente maior que a categoria especificada pelo programa MTA, com capacidade de carga de cerca de 37 toneladas — acima do teto de 30 toneladas estabelecido na RFP. Diante disso, a fabricante europeia tende a ficar fora da disputa atual.
As empresas contempladas pela RFP agora precisam apresentar suas propostas, que passarão por avaliação técnica antes de testes de campo definirem a aeronave selecionada.
Esse processo ganha peso adicional porque as futuras aeronaves precisarão operar em cenários geográficos muito distintos dentro da Índia, de bases convencionais a campos de pouso de grande altitude e pistas semipreparadas.
Uma frota de transporte em transformação
O programa MTA chega em um momento em que a IAF administra simultaneamente diferentes camadas de sua capacidade de transporte aéreo. Os veteranos An-32 seguem em serviço há décadas, enquanto a frota maior de Il-76 sustenta o transporte pesado. O C-17 Globemaster III cobre o nível estratégico, e o C-130J atende a funções táticas mais especializadas.
A nova aeronave do programa MTA deve ocupar justamente o espaço intermediário entre essas categorias, oferecendo à IAF uma plataforma capaz de carregar significativamente mais que o C-130J, mas ainda assim mais flexível que os transportadores estratégicos pesados.
Vale lembrar que a Índia já avança em outra frente de produção doméstica de aeronaves de transporte: a Tata Advanced Systems e a Airbus fabricam localmente o C-295, experiência que deu ao país know-how em montagem de aeronaves militares de transporte em solo próprio. O programa MTA agora amplia esse esforço industrial para uma categoria de aeronaves maior e mais complexa.





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