Em campanha de pré-qualificação que reúne 84 sistemas da Base Industrial de Defesa, o Exército avalia DLMs e munições remotamente pilotadas antes de eventuais aquisições — sete sistemas já foram aprovados
O Exército Brasileiro (EB) realiza, entre 22 de junho e 3 de julho de 2026, na Restinga da Marambaia (RJ), uma campanha de pré-qualificação de sistemas de drones voltados ao emprego militar terrestre. A iniciativa, coordenada pela Diretoria de Fabricação (DF) e apoiada pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx).
O evento reúne empresas da Base Industrial de Defesa (BID) e tem como propósito mapear as capacidades reais dos sistemas disponíveis no mercado nacional antes de eventuais aquisições pela Força Terrestre. Ao todo, 84 sistemas foram submetidos ao processo avaliativo, dos quais 32 chegaram à fase de testes práticos — e sete já haviam sido qualificados até 30 de junho.
Da teoria à pista: o que está sendo testado
Os sistemas em avaliação na Marambaia dividem-se em duas categorias principais. A primeira são os Drones Lançadores de Munição (DLM), plataformas capazes de transportar e liberar cargas explosivas ou cinéticas sobre alvos terrestres.
A segunda é o Sistema de Munições Remotamente Pilotadas (SMRP), que engloba duas subcategorias: o modelo loitering, capaz de permanecer em voo sobre uma área de interesse aguardando o momento de ataque, e o modelo kamikaze, em que o próprio drone se torna a munição, sendo destruído no impacto com o alvo.
Ambas as categorias ganharam notoriedade internacional a partir dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, onde drones de baixo custo passaram a exercer papel decisivo no campo de batalha — o que acelerou a corrida de forças armadas ao redor do mundo para incorporar esse tipo de sistema a seus arsenais.
Três etapas, critérios progressivos
O processo de pré-qualificação está estruturado em três fases. Na primeira, os sistemas são submetidos a voos curtos para verificação de controle, estabilidade e segurança operacional. Na segunda, cada drone precisa demonstrar sua funcionalidade de emprego por meio do engajamento de alvos com munições inertes — sem carga real. Na terceira e mais exigente das etapas, os sistemas realizam demonstrações com munição real, e seu desempenho terminal é avaliado em condições controladas.
No dia 30 de junho, a fase de munição real foi conduzida a uma distância de aproximadamente 1.500 metros da base de concentração das equipes, com a transmissão do teste feita ao vivo por imagens, por razões de segurança.
Durante os testes, foi registrada a interrupção do enlace de comunicação e controle de um dos sistemas próximo ao alvo — ocorrência que, segundo o Exército, integra normalmente o processo técnico de pré-qualificação, servindo para identificar limitações e subsidiar aperfeiçoamentos.
BID no centro da estratégia de modernização
A campanha de pré-qualificação não é apenas um processo de seleção de equipamentos: ela sinaliza uma escolha estratégica do Exército Brasileiro de priorizar soluções nacionais antes de recorrer ao mercado externo. Das 84 propostas submetidas por empresas da BID, 32 foram habilitadas para os testes práticos — um filtro inicial que já revela o nível de exigência técnica adotado.
O General de Brigada Vasconcellos, chefe da Diretoria de Fabricação, esteve presente nas avaliações do dia 30 de junho e ressaltou o significado do processo para a atualização operacional da Força. Segundo ele, o Exército precisa acompanhar as evoluções da arte da guerra e manter a dianteira em ciência e tecnologia — o que passa, necessariamente, por identificar e qualificar as melhores soluções disponíveis no setor produtivo nacional.
A intenção declarada da instituição, ao fim das avaliações, é firmar parcerias com as empresas cujos sistemas forem aprovados, com vistas ao aperfeiçoamento contínuo dos equipamentos, à realização de novos testes e, em seguida, à possível aquisição para incorporação ao inventário da Força Terrestre.
CAEx: estrutura especializada desde 1944
O suporte técnico e físico para a campanha é fornecido pelo CAEx, instalado na Restinga da Marambaia desde 1944 e credenciado para apoiar o EB, a BID e outras Forças Armadas em testes e avaliações de materiais de emprego militar. A escolha do local não é acidental: trata-se de uma área protegida, afastada de zonas habitadas, que permite a condução de testes com munição real sem riscos à população do entorno.
O General de Brigada Zago, chefe do CAEx, destacou exatamente esse ponto ao comentar a atividade. Para ele, a natureza dos produtos avaliados — sistemas em estágios iniciais de maturidade tecnológica — exige uma área que ofereça proteção adequada e que isole os riscos inerentes aos testes.
Contexto: SSNTFT 2026 e o Projeto Força 40
A campanha de pré-qualificação na Marambaia é um desdobramento direto do Simpósio sobre Emprego Militar de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), realizado em Brasília em junho deste ano.
O simpósio reuniu especialistas, empresas e militares para debates sobre doutrina, emprego e capacidades dos sistemas não tripulados no combate moderno — e a avaliação prática dos equipamentos representa a etapa seguinte, de verificação técnica do que foi discutido teoricamente.
Todo o processo está inserido no escopo do Projeto Força 40, programa de transformação do Exército Brasileiro que busca preparar a Força Terrestre para os desafios operacionais, tecnológicos e geopolíticos das próximas décadas.
A incorporação de drones de ataque e de munições remotamente pilotadas de origem nacional é uma das linhas de ação previstas nesse processo de modernização. Os resultados finais da campanha devem ser consolidados ao término dos testes, no dia 3 de julho de 2026.

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