Documentos classificados russos e fontes europeias revelam cooperação militar secreta de alto nível entre Moscou e Pequim, incluindo cursos sobre defesa NBC ligados ao contexto da guerra na Ucrânia
O treinamento militar secreto conduzido pela China, com forças russas no segundo semestre de 2025, foi autorizado pessoalmente pelo ministro da Defesa russo, Andrei Belousov, e envolveu diretamente pelo menos quatro generais dos dois países, de acordo com duas autoridades europeias e documentos classificados russos obtidos pela Reuters.
A revelação, publicada nesta quarta feira 1º de julho, aprofunda uma série de denúncias que apontam para uma cooperação militar entre Moscou e Pequim muito mais ampla do que Pequim admite publicamente — e que inclui cursos em áreas particularmente sensíveis, como guerra radiológica, biológica e química.
Decreto interno e generais no comando
Um documento russo classificado ao qual a Reuters teve acesso, faz referência direta a um decreto interno emitido pelo ministro Belousov em agosto de 2025. O texto determina que uma delegação das Forças Armadas russas se deslocasse à China para participar de atividades de treinamento em instalações do Exército de Libertação do Povo (ELP).
A presença de figuras de alto escalão no processo sinaliza que a cooperação não foi tratada como rotina burocrática, mas como prioridade estratégica de Estado.
O general, Rustam Muradov, vice-comandante-em-chefe das forças terrestres russas, chefiou a delegação enviada à China. O major-general chinês Li Jinsun, diretor da Academia Militar de Defesa Radiológica, Química e Biológica do ELP, participou da cerimônia de abertura de um dos cursos.
Já o general russo, Vitaly Gerasimov, tomou parte em um curso realizado na cidade de Bengbu. Segundo as autoridades europeias ouvidas pela Reuters, o acordo que formalizou os treinamentos foi assinado em 2 de julho de 2025 em Pequim, entre o major-general russo, Rustam Khusainov, e pelo coronel sênior chinês,Sun Dayun.
NBC: o dado mais sensível
Entre os cursos descritos com detalhes nos documentos, destaca-se um programa de três semanas sobre defesa radiológica, química e biológica, realizado em novembro de 2025 em uma instalação militar em Pequim.
A Reuters obteve fotos que mostram um instrutor chinês conduzindo aulas com militares russos — que estudam um modelo de reator nuclear e recebem instrução em reconhecimento químico e proteção de sistemas de ventilação contra contaminação.
Segundo uma das autoridades europeias ouvidas pela agência, a inclusão de treinamento em guerra NBC reforça o caráter estratégico do intercâmbio, já que esse é um dos temas mais sensíveis para qualquer força armada.
Além dos cursos NBC, os documentos registram atividades de capacitação em drones, guerra eletrônica, defesa aérea, combate combinado, manuseio de explosivos, desminagem, operações de infantaria blindada e aviação do exército. Os locais incluíram Pequim, Nanjing, Shijiazhuang, Zhengzhou, Yibin e Bengbu.
Cerca de 200 militares treinados — alguns já estão na Ucrânia
Em maio de 2026, a Reuters havia publicado o primeiro relatório sobre o tema, revelando que aproximadamente 200 militares russos foram treinados em instalações militares chinesas em novembro de 2025 — e que parte deles retornou ao campo de batalha na Ucrânia.
A nova reportagem aprofunda aquele material, detalhando o nível de aprovação institucional e a abrangência dos cursos. Um documento militar russo listou os nomes de todos os participantes dos cursos, incluindo oficiais de alta patente, com posto, data de nascimento, filiação e nível de credencial de segurança.
O acordo também previa que centenas de soldados chineses passariam por treinamento em instalações militares na Rússia — e proibia explicitamente qualquer cobertura da imprensa ou divulgação a terceiros.
Europa em alerta; Bruxelas avalia resposta
A divulgação agravou as preocupações europeias sobre o papel da China no conflito. Em 15 de junho, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que Bruxelas havia confirmado por canais próprios que o treinamento ocorreu e que avaliava as implicações.
Kallas classificou a China como um "facilitador decisivo da guerra da Rússia". Uma terceira autoridade europeia, baseada em Bruxelas, disse à Reuters que o bloco precisa parar de enxergar a China apenas pela lente econômica.
Nos bastidores, a discussão dentro da UE gira em torno de saber se novas medidas são necessárias em resposta aos treinamentos, levando em conta as prioridades comerciais que historicamente complicaram uma postura mais firme em relação a Pequim.
Negativas de Moscou e Pequim
O Ministério das Relações Exteriores da China enviou nota à Reuters reiterando que sua posição sobre a crise na Ucrânia "permanece consistente" e classificando as alegações contidas na reportagem como "totalmente infundadas". Pequim mantém a posição oficial de neutralidade e se apresenta como possível mediadora de paz.
Pelo lado russo, Andrei Kartapolov, presidente da comissão de defesa da Duma, disse à emissora RTVI que a reportagem era "puro absurdo" e que as Forças Armadas russas não teriam nada a aprender com a China — argumento fundamentado na vasta experiência de combate acumulada ao longo de mais de quatro anos de guerra na Ucrânia, em contraste com o fato de o Exército chinês não ter travado um conflito armado em décadas.
Os ministérios da Defesa da Rússia e da China não responderam aos pedidos de comentário da agência.

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