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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Marinha dos EUA testa pela primeira vez em mar aberto o sistema de mergulho atmosférico DSEND, que elimina a descompressão

Três mergulhadores da U.S. Navy pilotaram o protótipo até o fundo do oceano em Liberty Bay, no estado de Washington, numa avaliação de cinco dias que simulou resgates, desminagem e salvamento de veículos não tripulados submersos

A Marinha dos Estados Unidos (US Navy) realizou, entre 8 e 12 de junho, o primeiro teste em águas abertas do sistema de mergulho atmosférico sem descompressão (Deep Sea Expeditionary with No Decompression - DSEND); tecnologia desenvolvida para permitir que mergulhadores operem em profundidades extremas sem a necessidade de descompressão. 

A avaliação foi conduzida pelo Naval Undersea Warfare Center Division (NUWC), em Keyport, no estado de Washington, na baía de Liberty, e contou com três mergulhadores da Marinha que pilotaram o protótipo até o fundo oceânico. 

O programa é patrocinado pelo Office of Naval Research (ONR) em parceria com o Naval Sea Systems Command (NAVSEA) e representa um marco no esforço de modernização da capacidade de mergulho profundo da força naval americana.

Do tanque ao mar: um salto tecnológico

O DSEND não é exatamente uma novidade nos laboratórios da Marinha. O sistema vinha sendo testado desde pelo menos 2023 em tanques controlados — no NSWC Carderock Division, em Maryland, e na Navy Experimental Diving Unit, na Flórida — mas a transição para um ambiente marítimo real, com fatores imprevisíveis como visibilidade variável, correntes e fundo lodoso, representa um nível inteiramente distinto de validação operacional.

O traje é descrito como robusto, porém leve, com juntas rotativas e destacáveis que oferecem maior destreza, flexibilidade e maneabilidade ao mergulhador. A proposta central é eliminar um dos maiores limitadores das operações de mergulho em águas profundas: o risco da descompressão, conhecida popularmente como "mal dos caixões". 

Quando um mergulhador retorna à superfície, precisa fazê-lo lentamente, com paradas em intervalos para evitar que o gás inerte dissolvido no sangue e nos tecidos — sob alta pressão — forme bolhas à medida que a pressão diminui. Esse processo consome horas e limita drasticamente o tempo útil de trabalho no fundo. 

O DSEND resolve esse problema ao manter uma pressão atmosférica constante ao redor do mergulhador durante toda a imersão. Com o sistema, o mergulhador pode trabalhar em profundidades consideráveis por longos períodos e subir rapidamente à superfície, sem passar pelo demorado processo de descompressão. 

Cinco dias de avaliação, missões reais simuladas

Durante a semana de testes em Liberty Bay, o evento simulou com êxito missões navais reais críticas, incluindo salvamento em oceano profundo, resgates subaquáticos, desativação de engenhos explosivos e manutenção de cascos de embarcações. 

O ponto alto da avaliação foi a recuperação de um veículo submarino não tripulado (UUV) deliberadamente afundado para o exercício. Os mergulhadores, trabalhando em conjunto com um veículo operado remotamente (ROV) e engenheiros na superfície, localizaram o UUV, instalaram um dispositivo de içamento usando as garra mecânicas do traje e garantiram a recuperação da plataforma. 

O cenário impôs condições adversas que os testes anteriores em piscinas não reproduziam. A avaliação rigorosa expôs o traje a fatores como visibilidade variável, tração limitada e um fundo oceânico de lama, permitindo que os mergulhadores avaliassem a manobrabilidade do sistema. Os dados coletados durante essas missões alimentarão diretamente os requisitos de projeto e desempenho do traje de primeira geração. 

Tecnologia embarcada: propulsão, destreza e suporte de vida

O protótipo testado incorporou dois componentes novos em relação às versões anteriores. O primeiro foi um pacote de propulsores que ampliou a velocidade e o controle de flutuabilidade do mergulhador, contrabalançando o efeito de sucção das botas pesadas no terreno lodoso do fundo. 

O segundo foi um sistema de suporte de vida redesenhado, com dutos aprimorados e um volume maior de absorvente de dióxido de carbono, testado tanto em velocidades de ventilador constantes quanto em velocidades variáveis acionadas por sensores, a fim de otimizar o ambiente interno da roupa durante toda a imersão.

A equipe também avaliou a destreza das garra mecânicas, a durabilidade das juntas rotativas em ambientes com alta concentração de partículas e a capacidade de realizar movimentos finos. Os mergulhadores adaptaram com sucesso os módulos de mão para o uso de ferramentas subaquáticas, demonstrando a versatilidade física exigida em operações de salvamento. 

"Ficar confortável indefinidamente"

O Suboficial de Segunda Classe, Giovanni Casteñeda, foi um dos mergulhadores a testar o traje, e o Suboficial de Primeira Classe, Onofre Lopez, esteve entre os primeiros a pilotá-lo em águas abertas. Lopez destacou as vantagens operacionais imediatas que o sistema traz para a frota.

"Ele permite que os mergulhadores desçam sem restrições e sem se preocupar com o tempo de fundo e os limites de ar", disse Lopez. "O tempo de fundo tem enorme valor quando você opera com ar de superfície. Há algum processo de adaptação no que diz respeito ao equilíbrio do traje, mas, fora isso, ele nos permite ficar confortáveis por um tempo praticamente indefinido." 

Colaboração entre setores e próximos passos

O sucesso da avaliação em águas abertas resultou de um esforço colaborativo entre setores da defesa, do meio acadêmico e da iniciativa privada. Os dados coletados em Liberty Bay são a base para a transição do programa ao traje de primeira geração — a versão que poderá, eventualmente, ser incorporada à frota operacional da Marinha americana. 

Segundo informações disponíveis de declarações anteriores de gestores do programa, um trabalho que levaria equipes de mergulho com gás misto duas a três semanas para ser concluído poderia ser realizado em um ou dois dias com o DSEND, com uma equipe menor, uma pegada logística mais reduzida e sem a exposição dos mergulhadores à doença descompressiva. 

Se confirmado nas próximas fases de desenvolvimento, o impacto operacional seria considerável — da neutralização de minas e engenhos subaquáticos ao salvamento de aeronaves e embarcações em profundidades que hoje demandam infraestruturas complexas e custosas.

Vale registrar que o artigo foi publicado pelo Departamento de Guerra dos EUA — designação adotada pelo governo americano em substituição ao histórico Departamento de Defesa —, o que reflete a reconfiguração institucional em curso na cúpula militar norte-americana.

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