Unidade pioneira da Aviação Naval argentina, criada em 1962 e condecorada na Guerra das Malvinas, passa à reserva após o último voo operacional do S-2T Turbo Tracker — o único ainda em serviço militar no mundo
A Armada Argentina, realizou cerimonia de encerramento das atividades da Escuadrilla Aeronaval Antisubmarina (EA2S), unidade criada em 31 de maio de 1962, na Base Aeronaval Comandante Espora, em Bahía Blanca, e que operou por mais de seis décadas com aeronaves Grumman S-2 Tracker em suas diferentes versões.
Com a retirada do serviço ativo da esquadrilha — decisão que se consolidou após o voo final do S-2T Turbo Tracker matrícula 2-AS-23, realizado em 2 de dezembro de 2025 —, a Argentina deixa de ser o único país do mundo a operar o Tracker como aeronave militar de combate, encerrando um capítulo singular da história da aviação naval sul-americana.
O fim de uma era que durou mais de seis décadas
A EA2S foi criada em 31 de maio de 1962. Em princípio, a unidade operou na Base Aeronaval Punta Indio, mas depois se transferiu em definitivo na Base Aeronaval Comandante Espora. Ao longo de mais de seis décadas, a esquadrilha operou o Tracker em todas as suas versões, tornando-se referência regional e mundial em guerra antisubmarina de asa fixa.
A Armada Argentina era a única do mundo que, mantinha operativa a aeronave, a esquadrilha e treinava pessoal qualificado, tentando preservar capacidades de combate e adestramento específico ASW. Essa condição singular se manteve mesmo após Taiwan e Canadá encerrarem suas operações militares com o tipo, consolidando a EA2S como guardiã do último Tracker em uniforme.
A cerimônia representou o passo formal, seguinte ao emocionante ato realizado em 2 de dezembro de 2025, quando o 2-AS-23 Turbo Tracker fez seu último voo operativo, pousou na pista e realizou seu característico dobramento de asas.
O ato foi presidido pelo Chefe do Estado-Maior Geral da Armada, Almirante Carlos María Allievi, acompanhado pelo Subchefe, Vice-almirante Marcelo Ricardo Flamini, pelo Comandante de Adestramento e Alistamento da Armada, Contra-almirante Gustavo Fabián Lioi Pombo, e pelo Comandante da Aviação Naval, Contra-almirante Román Enrique Olivero.
A última tripulação e as palavras de despedida
Do 2-AS-23 desceu aquela que se converteu em sua última tripulação: o Capitão de Navío (RE) VGM Juan José Membrana, o Capitão de Fragata Fernando Ariel Spoglia, o Capitão de Corveta Norberto Martín Baumgartner e o Suboficial Principal Leandro Núñez.
A presença de Membrana — veterano da Guerra das Malvinas — carregava um simbolismo difícil de ignorar: o mesmo conflito que marcou a glória máxima da EA2S estava representado no homem que pousou o avião pela última vez.
O Comandante da Escuadrilla, Capitão de Corveta Baumgartner, traduziu o peso do momento em palavras diretas:
"É difícil resumir em poucas palavras tanta história desde o primeiro dobramento das nossas asas em território argentino. Acabamos de ser testemunhas privilegiadas do último voo operacional da aeronave S-2T Turbo Tracker. Por razões que só Deus sabe, é o 2-AS-23, o último daqueles que desde 1962 chegaram às nossas bases aeronavais de Punta Indio e Comandante Espora."
O oficial encerrou seu discurso com um agradecimento ao próprio avião: "A você, querido Grumman Tracker em todas as suas versões, este 2-AS-23 representa orgulhosamente com este pouso o nosso carinho pela sua nobreza. Obrigado por nos cuidar, por perdoar nossos erros e por nos devolver, com a ajuda do nosso Senhor, aos nossos lares."
Malvinas, ARA San Juan e mais de mil horas em combate
A trajetória operacional da EA2S está marcada por episódios que definiram a história naval argentina. A esquadrilha foi condecorada com a Medalha de Honra ao Valor em Combate por sua participação durante a guerra pelas Malvinas, acumulando mais de mil horas de voo em suas missões.
A unidade realizou dois ataques antisubmarinos com torpedos e detectou a frota inimiga em não menos de seis ocasiões. Foi também a última unidade do Comando de Aviação Naval a deixar de operar durante o conflito.
Em 1993, o 2-AS-23 foi o primeiro de sua classe a ser enviado a Israel para modificação segundo o projeto TATA — Turbinización del Avión Tracker Argentino —, que substituiu os motores a pistão pelos turbohélices Garrett TPE331, gerando a variante S-2T Turbo Tracker.
Desde então, a aeronave acumulou décadas adicionais de operações antisubmarinas e de superfície, patrulha marítima sobre a Zona Econômica Exclusiva e missões SAR.
Entre as missões recentes que marcaram a unidade, destaca-se o apoio ao resgate durante o incêndio do quebra-gelo ARA Almirante Irízar e a participação nas buscas pelo submarino ARA San Juan e seus 44 tripulantes.
O vazio estratégico e o papel dos P-3C Orion
A retirada do EA2S, deixa uma lacuna real na capacidade de guerra antisubmarina aérea dedicada da Armada Argentina. Com o afastamento dos S-2T Turbo Tracker e a impossibilidade de recuperar os Super Étendard, os P-3C Orion constituem a última e única plataforma da Aviação Naval com potencial para desenvolver capacidades antisubmarina e antisuperfície.
A incorporação dos P-3C/N Orion provenientes da Noruega avança — o primeiro exemplar chegou em setembro de 2024, destinado a missões de vigilância e patrulha do vasto litoral marítimo nacional. Também avançam as gestões para a incorporação de dois Beechcraft King Air 360ER MPA doados pelos Estados Unidos por meio de mecanismos de cooperação do Departamento de Defesa.
Analistas de defesa têm apontado, contudo, que os P-3C Orion adquiridos pela Noruega não devem ser considerados apenas como plataforma para vigilância e controle da Milha 200, mas também em suas capacidades antisuperfície e antisubmarina — a razão de ser do Orion desde sua concepção no final da década de 1950.
A questão que fica em aberto é se a Argentina conseguirá equipar e treinar pessoal suficiente para que o Orion preencha, de forma efetiva, o papel que a EA2S desempenhou por mais de seis décadas.




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