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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Honduras negocia compra de seis A-29 Super Tucano da Embraer para modernizar aviação de combate e reforçar vigilância aérea

Com frota de ataque leve à beira da obsolescência, governo hondurenho avalia substituição do Cessna A-37B Dragonfly pela aeronave brasileira; imprensa local e ex-chefe militar introduzem cautela sobre cronograma e capacidade orçamentária

O governo Hondurenho, avalia a aquisição de pelo menos seis aeronaves de ataque leve e vigilância A-29 Super Tucano da Embraer em um movimento que, se concretizado, representará a maior renovação da Força Aérea Hondurenha (FAH) em décadas. 

A iniciativa integra um programa mais amplo de modernização das Forças Armadas do país e tem como objetivo principal substituir a envelhecida frota de Cessna A-37B Dragonfly, em serviço desde 1975, além de complementar os três T-27 Tucano que estão sendo reativados. 

Nenhum contrato foi assinado até o momento, e nem a Embraer nem o governo hondurenho confirmaram oficialmente um programa de aquisição.

O passo mais concreto veio quando no dia 28 de maio, a aeronave demonstradora da Embraer, matrícula PT-ZTV, chegou à Base Aérea de Toncontín, em Tegucigalpa, como parte de uma turnê regional da fabricante para apresentar o A-29 a potenciais clientes. 

O evento reuniu o presidente, Nasry Asfura, o secretário de Defesa Enrique, Rodríguez Burchard, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Héctor Benjamín Valerio Ardón, o comandante da FAH brigadeiro, Walter Yanuario Paz López, e a embaixadora do Brasil em Honduras, Andrea Watson. A apresentação técnica ficou a cargo do diretor de Desenvolvimento de Negócios da Embraer, Alfredo Roberto. 

Uma relação histórica que tenta se renovar

A visita tem significado especial para Honduras, que foi o primeiro cliente internacional do EMB-312 Tucano nos anos 1980. A FAH recebeu 12 aeronaves entre 1984 e 1986, tornando-se o operador internacional de lançamento do treinador da Embraer. 

Décadas depois, todas as unidades foram desativadas por falta de peças e recursos. A FAH classificou a chegada do Super Tucano como "o início de uma aliança estratégica" que, em seu desenvolvimento, poderá aumentar as capacidades operacionais da aviação militar hondurenha para o controle e a defesa do espaço aéreo nacional. 

A reativação dos Tucanos, antecedeu a visita do A-29. A aeronave recuperada, matrícula FAH 257, foi submetida a um programa de revitalização de aproximadamente oito meses, conduzido pela empresa norte-americana Partex Aviation Services em colaboração com a firma brasileira Tailwind Parts. 

Esse é o primeiro, dos três Tucanos hondurenhos, que passarão pelo mesmo processo; os trabalhos nas aeronaves FAH 251 e 256 já estão em andamento, com prazo estimado de seis meses cada. No evento de relançamento, o presidente Asfura afirmou: 

"Como podem ver, um Tucano totalmente reconstruído por nossos técnicos aqui no país, para restabelecer, para fortalecer nossas Forças Armadas e especialmente nossa Força Aérea, para o combate ao narcotráfico."

Frota envelhecida e pressão operacional

A FAH busca um substituto para sua frota de Cessna A-37B Dragonfly, dos quais apenas seis permanecem operacionais de um total de 18 recebidos em 1976 dos Estados Unidos, além de quatro aeronaves ENAER/CASA A-36/C-101 já retiradas de serviço. 

O Dragonfly, que entrou em linha na FAH para missões de contra insurgência, foi sendo reconvertido ao longo das décadas para o combate ao narcotráfico e à interceptação de aviões suspeitos que utilizam o espaço aéreo hondurenho como corredor de trânsito. 

A degradação da frota tem raízes mais profundas do que o simples envelhecimento. Uma investigação do periódico El Heraldo, publicada em outubro de 2024, revelou um fator que ainda pesa sobre qualquer programa de modernização: segundo o jornal, um ex-comandante militar ouvido, revelou que os Estados Unidos aplicaram uma espécie de, bloqueio informal sobre a FAH, impedindo a realização de compras de peças e suporte técnico.

A justificativa era que, apesar de os Tucano serem de fabricação brasileira, os demais componentes são norte-americanos — o que travou inclusive a recuperação dessas aeronaves por anos. 

Já o jornal La Tribuna, explicou o problema em termos mais abrangentes. Em uma análise editorial publicada em abril de 2026, por ocasião do 95.º aniversário da FAH, o jornal questionou abertamente se Honduras estaria "defendendo realmente seu espaço aéreo ou cedendo-o em silêncio a redes criminosas", descrevendo o espaço aéreo hondurenho como alvo constante do narcotráfico, com voos clandestinos e rotas ilícitas que desafiam a autoridade do Estado. 

Vozes de cautela dentro de Honduras

Nem todos os analistas locais, receberam a notícia com o mesmo entusiasmo da FAH. Em 8 de junho, o El Heraldo, ouviu o ex-chefe das Forças Armadas, Isaías Barahona, que introduziu um contraponto relevante. 

Barahona afirmou que Honduras já dispõe de capacidades operacionais para a vigilância e defesa do espaço aéreo e alertou para que não se confunda a avaliação de novos equipamentos com ausência de meios.

"A vigilância do espaço aéreo não se faz só com um avião Tucano. Há outros mecanismos em processo e ações de cooperação entre Honduras e outros países", disse o ex-comandante. A declaração não representa oposição à aquisição, mas sinaliza que o debate interno sobre prioridades orçamentárias e estratégicas está longe de encerrado. 

Esse padrão de impasse não é novo. Em 2014, o então secretário de Defesa, Marlon Pascua, já declarava que a compra do Super Tucano ficaria "em segundo plano", com prioridade para a recuperação dos T-27 existentes — a mesma lógica que, doze anos depois, ainda estrutura o debate na FAH.

Capacidades do A-29 e posição da Embraer na região

O A-29 é projetado como uma plataforma "3 em 1", capaz de atuar em ataque leve, reconhecimento armado e treinamento tático, com motor Pratt & Whitney PT6A-68C de 1.600 shp. Com alcance operacional superior a 4.500 km e capacidade de carga útil de até 1.200 kg, pode integrar uma ampla variedade de armamentos, incluindo pods, bombas convencionais e mísseis ar-ar ou ar-solo. 

A aeronave opera em pistas não pavimentadas e ambientes com pouca infraestrutura — características relevantes para o contexto hondurenho, onde missões antinarcóticos frequentemente ocorrem em áreas remotas como La Mosquitia.

A Embraer vem ampliando sistematicamente sua base de clientes na América Latina. Nos últimos anos, o A-29 obteve novos contratos no Uruguai, Paraguai e Panamá, além do lançamento da variante A-29N, desenvolvida para requisitos da OTAN e escolhida por Portugal. 

Caso Honduras avance na aquisição, será o terceiro país da América Central e do Caribe insular a operar o Super Tucano, após a República Dominicana, que já possui a aeronave há mais de 15 anos, e o Panamá, que assinou contrato recentemente para seu Serviço Nacional Aeronaval.

Perspectiva

O conjunto de sinais — a demonstração com presença do presidente e do alto comando, a reativação simultânea dos T-27, a cobertura positiva do jornal La Prensa, e o enquadramento institucional da FAH — aponta para uma intenção política real de avançar na aquisição. 

Porém, a história recente de Honduras com programas de modernização aérea, marcada por restrições orçamentárias crônicas, impasses burocráticos e condicionantes externos, sugere que a distância entre o interesse declarado e um contrato assinado pode ser considerável. Por ora, o Super Tucano pousou em Tegucigalpa — mas ainda não encontrou seu hangar definitivo.

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