Sem substituto definido para os AV-8B Harrier II, Marinha espanhola terá que escolher entre bancar a continuidade da capacidade embarcada ou aceitar uma lacuna de uma geração inteira na aviação de asa fixa a bordo do porta-aviões Juan Carlos I
A Marinha da Espanha (Armada Española) enfrenta uma decisão estratégica sobre o futuro da sua aviação naval de asa fixa, hoje sustentada pelos caças AV-8B Harrier II do 9º Esquadrão da Flotilla de Aeronaves da Armada Española (FLOAN).
Com o governo espanhol tendo descartado a aquisição do F-35B Lightning II, da Lockheed Martin, o país não possui hoje um substituto definido para os Harrier, o que abre a possibilidade de uma interrupção prolongada na capacidade de operar caças a partir do mar.
A análise foi publicada em 10 de agosto, pelo site especializado Naval News, com texto assinado por Jorge Estévez-Bujez e originalmente publicado no veículo espanhol Defensa y Seguridad.
Um dilema entre custo de continuidade e perda de capacidade
Segundo o autor, a discussão não deve ser tratada como um embate simples entre entusiastas e céticos da aviação naval, mas como um problema mais prático: se os Harrier forem retirados de serviço antes que exista um substituto embarcado, a Marinha não perderá apenas aeronaves, mas também pilotos, mecânicos, procedimentos, controladores de tráfego aéreo, cultura de convés e continuidade doutrinária construídos ao longo de décadas de operação.
Recuperar essa estrutura depois de uma interrupção, argumenta o texto, seria consideravelmente mais difícil do que preservá-la enquanto ainda existe.
Nesse cenário, o F-35B aparece como a única aeronave disponível atualmente capaz de operar a partir de conveses do tipo STOVL (decolagem curta e pouso vertical), como o do Juan Carlos I, sem exigir uma transição imediata para um sistema CATOBAR (decolagem assistida por catapulta e pouso com cabo de retenção).
O artigo cita análise do especialista Roberto Escámez, do Defensa y Seguridad, para quem o F-35B é "uma obra de arte da engenharia", ainda que sua configuração STOVL implique concessões relevantes: o espaço interno ocupado pelo sistema de ventilador de sustentação (lift fan) reduz a capacidade de combustível e de carga da aeronave em comparação com as versões F-35A e F-35C.
Alternativa CATOBAR é vista como solução de longo prazo, não como resposta imediata
O texto também aborda a possibilidade de a Espanha investir em um porta-aviões próprio com sistema CATOBAR, opção que ampliaria o leque de aeronaves disponíveis — incluindo o Rafale Marine, da França, e eventualmente a variante F-35C, operada pelos Estados Unidos — sem as limitações impostas pela configuração de decolagem vertical do F-35B.
No entanto, segundo a análise, um porta-aviões desse porte, com deslocamento estimado entre 40 mil e 50 mil toneladas e sistema de catapultas eletromagnéticas (EMALS), só entraria em serviço entre 2040 e 2045, prazo considerado incompatível com a necessidade imediata de substituição dos Harrier.
O artigo cita ainda o conceito "Plus Ultra", desenvolvido em estudos do Defensa y Seguridad, que propõe uma opção STOVL ampliada, mais ambiciosa do que a simples troca de aeronave, incluindo uma proposta de convés com duas ilhas apresentada por Escámez. O autor faz questão de frisar que se trata de um exercício conceitual, sem status de programa oficial.
Programa naval FCAS é apontado como fragilizado
Outro ponto abordado pela análise é a situação do Future Combat Air System (FCAS), programa europeu de caça de sexta geração desenvolvido em parceria entre França, Alemanha e Espanha.
Segundo o texto, o projeto já enfrenta dificuldades para manter coesão em sua versão terrestre, o que torna ainda mais distante a perspectiva de uma variante embarcada (NGF) disponível para a Marinha espanhola dentro de um horizonte temporal viável.
Dependência tecnológica dos Estados Unidos é discutida como fator relevante, mas não decisivo
A reportagem pondera que a dependência da Espanha em relação aos Estados Unidos, caso opte pelo F-35B, não pode ser tratada como um detalhe menor, já que o sistema de armas envolve uma cadeia logística, de dados de missão, software e manutenção controlada por Washington dentro de um arcabouço multinacional.
Ainda assim, o autor argumenta que rejeitar o F-35B por motivos de soberania, sem uma alternativa real para manter a aviação embarcada de asa fixa, equivaleria, na prática, a aceitar a perda dessa capacidade.
NOTA DA REDAÇÃO:
O caso espanhol guarda uma semelhança importante com o Brasil. A Marinha brasileira também mantém uma capacidade de aviação de combate de asa fixa baseada em uma frota muito antiga de AF-1B/C Skyhawk. A própria MB ainda contrata serviços para manter os motores J52 dessas aeronaves, mostrando que a capacidade continua sendo sustentada.
Mas, se os A-4 forem finalmente retirados sem substituto, o Brasil também poderá perder sua aviação naval de caça. A diferença é que a Espanha ainda possui o Juan Carlos I preparado para operar aeronaves STOVL; o Brasil, sem um porta-aviões operacional, já enfrenta um desafio ainda maior para preservar essa capacidade embarcada.



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