Falta de sucessor direto e com uma demanda crescente por transporte aéreo estratégico colocam o cargueiro da Boeing de volta ao debate em Washington
Mais de dez anos após, a última unidade do C-17 Globemaster III, ter sido entregue a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), congressistas dos EUA querem saber se a Boeing teria condições de voltar a fabricar o cargueiro estratégico.
O Comitê de Serviços Armados da Câmara dos Representantes determinou que a Força Aérea prepare uma avaliação formal sobre a viabilidade de retomar a produção do C-17, e entregue os resultados até 1º de março de 2027. A exigência consta do relatório que acompanha o projeto de lei de autorização de defesa deste ano.
A solicitação ocorre em um momento em que a USAF ainda depende fortemente de uma frota de 222 unidades do C-17 para operações militares, missões humanitárias e logística global. A aeronave continua sendo a espinha dorsal da capacidade de transporte aéreo estratégico dos EUA, enquanto operadores aliados na Austrália, Canadá, Índia, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido também mantêm o modelo em uso.
Diferente de debates anteriores centrados em conceitos futuros de aeronaves de transporte, o estudo do Congresso está voltado a uma plataforma que já existe, mas que não é produzida desde 2015, quando a Boeing encerrou a linha de montagem de Long Beach após concluir as últimas entregas.
O que o estudo deve avaliar
Os parlamentares querem que a USAF, determine quanto custaria restaurar a infraestrutura de produção, reconstruir a cadeia de suprimentos, recuperar ferramentas especializadas e remontar a força de trabalho necessária para fabricar novas aeronaves. O estudo também deve examinar quão rapidamente novos C-17 poderiam ser entregues e se parcerias industriais internacionais poderiam reduzir os custos do programa.
A questão ganhou relevância porque atualmente não existe um equivalente ocidental direto em produção. A Airbus fabrica o A400M, que ocupa uma categoria intermediária entre o C-130 Hercules e o C-17, enquanto o KC-390 Millennium, da Embraer, compete principalmente no segmento de transporte tático. Fora do mercado ocidental, apenas o Y-20 chinês e o Il-76 russo permanecem em produção em porte semelhante.
Retomada da produção pode exigir ao menos US$ 2,1 bilhões
Embora o Congresso não tenha citado um plano de aquisição específico, a Boeing reconheceu ter recebido consultas de operadores já existentes sobre a possibilidade de retomar o programa. Durante o Paris Air Show de 2025, executivos da empresa confirmaram ter realizado conversas preliminares com pelo menos um país não identificado sobre eventual produção futura.
Qualquer esforço de retomada provavelmente envolveria um custo de vários bilhões de dólares. Uma análise da RAND Corporation, conduzida em 2011, estimou que relançar a produção do C-17A em sua configuração básica poderia custar entre US$ 2,1 bilhões e US$ 2,7 bilhões em valores de 2011, dependendo de quanto ferramental a Boeing tivesse mantido, com variantes mais avançadas exigindo investimentos substancialmente maiores.
Cabe registrar que, em 2019 a Boeing, vendeu as instalações de Long Beach onde a aeronave era originalmente montada, o que pode elevar ainda mais os custos e o tempo necessário para uma eventual retomada, segundo análises do setor.
O Japão pode emergir como um dos potenciais clientes caso uma nova linha de produção seja viabilizada. O ex-primeiro-ministro Shigeru Ishiba expressou interesse na aquisição do Globemaster III no ano passado, alimentando especulações de que a demanda internacional pode ser necessária para justificar a reabertura da linha.
Alternativas em discussão
O estudo do Congresso também pede que a Força Aérea considere alternativas para expandir a capacidade de transporte aéreo estratégico, incluindo aeronaves de carga derivadas de aviões comerciais e uma Frota Aérea de Reserva Civil ampliada. Essas opções podem, ao final, se mostrar menos custosas do que recriar uma base industrial que está inativa há mais de uma década.


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