Relatório do Congressional Budget Office detalha custos do programa Golden Fleet, que prevê 15 navios de 35 mil toneladas armados com mísseis hipersônicos, railgun e lasers de alta energia
O Congressional Budget Office (CBO), órgão de análise orçamentária do Congresso dos Estados Unidos, publicou nesta quarta-feira (5), um relatório oficial estimando que o programa de construção de 15 encouraçados nucleares da classe Trump custará US$ 275 bilhões entre os anos fiscais de 2028 e 2056.
Segundo o documento, o 1º da classe terá um custo de autorização de US$ 23,4 bilhões, enquanto os 14 navios seguintes devem custar em média US$ 18 bilhões cada, em substituição ao programa de destroieres DDG(X) previsto anteriormente pela Marinha dos EUA
Aumento de 120% no orçamento para grandes combatentes de superfície
De acordo com o CBO, a adoção do casco nuclear de 35 mil toneladas eleva o financiamento médio anual destinado à aquisição de grandes combatentes de superfície de US$ 6,9 bilhões, sob o plano do ano fiscal de 2025, para US$ 15,2 bilhões sob o plano do ano fiscal de 2027 — um crescimento de 120%.
Se considerada toda a categoria de combatentes de superfície, incluindo fragatas, o orçamento anual de aquisição sobe de US$ 11,3 bilhões para US$ 19,2 bilhões, um aumento de 69%.
O primeiro encouraçado, batizado USS Defiant, seria autorizado no ano fiscal de 2028, seguido por mais dois navios em 2030 e 2031, e depois um a cada dois anos até 2056, compondo um cronograma de aquisição de 28 anos para uma classe cujo projeto ainda está em estágio inicial de maturação.
Um navio maior que qualquer combatente de superfície desde a Segunda Guerra
Com deslocamento total de 35 mil toneladas, a classe Trump seria 3,61 vezes mais pesada que um destroier Arleigh Burke Flight III e 2,22 vezes mais pesada que um destroier Zumwalt.
O comprimento projetado, entre 256 e 268 metros, aproxima o navio das dimensões de um encouraçado da classe Iowa e o torna ligeiramente mais longo que os japoneses Yamato e Musashi, os maiores encouraçados já construídos — embora o deslocamento do navio americano seja menos da metade do dos japoneses, já que não contará com cinturão blindado, cidadela couraçada ou canhões de 460 mm equivalentes.
A boca do casco deve variar entre 32 e 35 metros (105 a 115 pés), contra 18 metros de um DDG-51 Flight III, 25 metros de um Zumwalt e 33 metros de um Iowa. O calado ficaria entre 7,3 e 9,1 metros. A velocidade sustentada deve superar os 30 nós, permitindo operação integrada a grupos de ataque de porta-aviões sem as limitações de autonomia impostas a escoltas de propulsão convencional em alta velocidade.
A guarnição estimada varia entre 650 e 850 militares, ante 359 em um DDG-51 Flight III, 197 em um Zumwalt e 1.562 em um Iowa modernizado.
em comparação a um projeto de propulsão convencional, mas elimina o consumo de combustível da equação operacional, reduz a dependência de navios-tanque de reabastecimento e permite deslocamentos prolongados em alta velocidade, limitados principalmente pela resistência da tripulação.
Arsenal concentra 128 células VLS e mísseis hipersônicos
O armamento planejado tem como núcleo 128 células do Sistema de Lançamento Vertical Mk 41 e quatro lançadores de grande porte para o míssil hipersônico Conventional Prompt Strike (CPS), cada um com capacidade para três mísseis, totalizando 12 unidades.
A bateria Mk 41 supera as 122 células de um cruzador da classe Ticonderoga, as 96 de um Arleigh Burke Flight III e as 80 de um Zumwalt.
As 128 células padrão poderiam operar com uma combinação de interceptadores SM-2, SM-3 e SM-6, mísseis de ataque terrestre Tomahawk, armas antinavio, foguetes antissubmarino e mísseis de cruzeiro nucleares SLCM-N, embora a configuração final dependa das prioridades de missão.
Caso os lançadores CPS sejam retirados do projeto, o espaço liberado permitiria acomodar 32 células Mk 41 adicionais, elevando a bateria para 160 unidades. Um método de empacotamento mais denso, capaz de aumentar a capacidade dos lançadores em 25% no mesmo espaço físico, poderia elevar ainda mais esse número — para 160 células mantendo os CPS, ou até 200 células sem os tubos hipersônicos.
Apenas os quatro submarinos SSGN da classe Ohio, cada um com capacidade para até 154 Tomahawks, chegam perto dessa concentração de poder de fogo convencional, mas essas embarcações devem ser desativadas nos próximos quatro anos.
Radar AN/SPY-6 ampliado, railgun e lasers de alta energia
O sistema de combate do encouraçado seria estruturado em torno de uma versão ampliada do radar integrado de defesa aérea e antimísseis AN/SPY-6, projetado para conduzir simultaneamente defesa aérea de esquadra, defesa contra mísseis balísticos, vigilância de longo alcance e designação de alvos.
Entre os armamentos previstos estão um canhão eletromagnético (railgun), dois sistemas de laser de alta energia, dois canhões navais de 5 polegadas, dois lançadores do míssil RIM-116 Rolling Airframe Missile, quatro armas remotas de 30 mm, além de sistemas de guerra eletrônica, chamarizes e ofuscadores óticos.
A capacidade de geração elétrica do navio foi dimensionada para sustentar armas a laser na faixa de 300 a 600 kW, com potencial de expansão para aproximadamente 1 MW — o que indica que o projeto reserva espaço, peso, energia e refrigeração para sistemas que ainda não estarão prontos quando a construção do navio-líder começar.
Custo do navio-líder é 30% acima da média da classe
Dos US$ 275 bilhões totais do programa, pouco mais de US$ 5 bilhões correspondem a despesas únicas de projeto e engenharia não recorrente, o que eleva o preço do navio-líder a um patamar 30% acima da média dos navios seguintes.
Uma versão de propulsão convencional do mesmo casco de 35 mil toneladas custaria US$ 243 bilhões, com US$ 21,3 bilhões pelo primeiro navio e US$ 15,9 bilhões por cada unidade subsequente — uma redução de US$ 32 bilhões em relação à versão nuclear.
Para efeito de comparação, um único encouraçado de US$ 18 bilhões custa o equivalente a cinco destroieres Arleigh Burke Flight III, cada um avaliado acima de US$ 3 bilhões — o que, em tese, permitiria operar em várias áreas simultaneamente.
Os futuros porta-aviões da classe Ford, são os únicos navios da Marinha com preço de aquisição comparável, em torno de US$ 22 bilhões cada, o que coloca os navios da classe Trump US$ 1,4 bilhão, acima de um futuro porta-aviões e a média dos navios seguintes US$ 4 bilhões abaixo dele.
A estimativa do CBO inclui um ajuste de 16% para o crescimento dos custos de construção naval acima da inflação geral da economia, além de outro adicional de 12% referente ao aumento das horas de mão de obra, instabilidade da força de trabalho e restrições na cadeia de fornecedores.
Segundo estimativa de especialistas, o custo total do ciclo de vida da classe Trump poderia alcançar entre US$ 500 bilhões e US$ 700 bilhões no período entre 2090 e 2110, somando aquisição, custos de tripulação, manutenção, suporte aos reatores, modernização, infraestrutura e sustentação logística.
Newport News enfrenta gargalo com três programas simultâneos
O plano de construção depende de um modelo distribuído, com montagem final no estaleiro Newport News Shipbuilding e módulos produzidos pela Bath Iron Works, pela Ingalls Shipbuilding e por outras instalações.
Newport News é o único estaleiro americano certificado para construir novos navios de superfície de propulsão nuclear, enquanto Bath e Ingalls têm experiência e infraestrutura para fabricar grandes seções de casco, mas não possuem certificação para construção nuclear.
A montagem final deve ocorrer no Dique 12, a mesma instalação usada para montar os porta-aviões da classe Ford, criando disputa direta por tempo de dique seco, soldadores qualificados para trabalho nuclear, eletricistas, encanadores industriais, arquitetos navais, capacidade de içamento pesado e pessoal de controle de qualidade.
Newport News já constrói simultaneamente porta-aviões da classe Ford, submarinos de ataque da classe Virginia e submarinos lança-mísseis balísticos da classe Columbia, e as três linhas de produção enfrentam pressão de cronograma.
A Marinha americana projeta um período de construção de oito anos para o primeiro encouraçado, mas destróieres Arleigh Burke já exigem, em média, 11 anos entre a autorização e a entrega, contra cinco anos entre 2000 e 2009. Submarinos de ataque, destróieres e grandes navios anfíbios hoje demandam de nove a 11 anos de construção, ante cinco a seis anos na primeira década dos anos 2000.
Aumento de peso poderia elevar custo do navio-líder em mais de 16%
O plano de 2027 prevê, ainda assim, a autorização da classe Trump nos anos fiscais de 2028, 2030 e 2031, e depois a cada dois anos até 2056, mantendo a aquisição de dois destróieres Arleigh Burke Flight III na maioria dos anos.
Até 2035, a produção anual de grandes combatentes de superfície deve saltar de 16 mil toneladas leves para 35 mil toneladas leves, e a produção total ao longo de três décadas aumentaria em 60%.
Os 15 encouraçados somados representam 420 mil toneladas leves de trabalho, contra 345 mil toneladas dos 28 DDG(X) que substituiriam — o que significa que a carga industrial cresce mesmo com a redução no número de futuros cascos, de 28 para 15.
O risco mais imediato do programa é a tentativa de autorizar o navio-líder no ano fiscal de 2028 antes que o projeto atinja o nível de maturidade normalmente exigido para uma construção estável.
Um aumento de deslocamento de 35 mil para 41 mil toneladas, já considerado nas premissas de planejamento da Marinha, elevaria o custo do navio-líder em 16%, adicionando US$ 3,74 bilhões e levando o preço de US$ 23,4 bilhões para mais de US$ 27,1 bilhões, antes de outras alterações de projeto.
Elevar a proporção entre peso leve e carga total de 80% para 85% acrescentaria outros 6% ao custo — para efeito de comparação, as cinco classes históricas de combatentes de superfície nucleares dos EUA tiveram média de 87% nessa proporção, incluindo 89% no Long Beach, 91% no Bainbridge, 91% no Truxtun, 83% no California e 86% no Virginia.
Proteção antichoque mais extensa, compartimentação, redundância, blindagem, controle de avarias e margens de segurança nuclear tenderiam a pressionar ainda mais o peso estrutural e o custo final.
Debate estratégico: concentração de poder de fogo versus dispersão da frota
Do ponto de vista operacional, o encouraçado da classe Trump reuniria em um único casco funções de comando de esquadra, defesa aérea, defesa contra mísseis balísticos, guerra antinavio, ataque terrestre, ataque hipersônico, ataque nuclear tático e funções de "navio-arsenal".
Essa concentração reduz duplicidade de tripulação e maquinário, mas também cria um alvo de alto valor e vincula diversas áreas de missão à disponibilidade de uma única embarcação.
A questão central para o planejamento de forças, segundo o relatório, não é se um encouraçado da classe Trump carrega mais armamento que qualquer outro navio em serviço na Marinha americana, mas se 15 navios de combate nucleares altamente concentrados oferecem maior valor em tempo de guerra.


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