Apresentado em maquete em tamanho real na ILA Berlin, o U145 será o segundo helicóptero da fabricante a ser convertido em sistema autônomo e aponta para um mercado europeu de UAS em franca expansão
A empresa Airbus Helicopters, apresentou no dia 8 de junho, o U145 — versão não tripulada e autônoma do helicóptero bimotor H145. A revelação ocorreu durante o ILA Berlin Airshow, com a exposição estática de um modelo em escala real.
A empresa anunciou que um voo inaugural com piloto de segurança a bordo está previsto para o final de 2026, com entrada em serviço esperada para o início de 2030.
A iniciativa reflete tanto o avanço tecnológico da fabricante no segmento de sistemas aéreos não tripulados quanto a crescente pressão estratégica europeia por soberania em capacidades de defesa.
Da célula tripulada ao sistema autônomo
O H145 é o segundo helicóptero que, a Airbus converte em versão não tripulada, seguindo o caminho do VSR700, derivado do Cabri G2. Segundo Matthieu Louvot, CEO da Airbus Helicopters, o U145 combina a célula, a potência e a capacidade de carga útil já comprovadas do H145 com a autonomia de um sistema aéreo não tripulado.
"Para desenvolver o U145 e suas capacidades como UAS multimissão, vamos estabelecer parcerias com líderes em missões autônomas para ampliar ainda mais o ecossistema de UAS na Europa", declarou Louvot no comunicado divulgado pela empresa.
Ao contrário de muitos programas de aeronaves não tripuladas emergentes, o U145 não é um projeto do zero. A Airbus reconfigura a célula do H145 para eliminar o cockpit físico e incorporar um conjunto especializado de sensores e inteligência artificial voltados à autonomia completa.
As adaptações para transporte de carga são significativas: o projeto elimina o cockpit em favor de um conjunto de sensores especializados e inteligência artificial para autonomia total, e reconfigura a estrutura para o transporte de carga com porta dianteira integrada, mesa de carregamento dobrável e piso dedicado ao compartimento de carga.
Multimissão por concepção
Com peso máximo de decolagem de 3.800 kg, o U145 é desenvolvido como solução agnóstica de missão para aplicações civis e militares, com foco primário no transporte de carga em grande volume.
Seu design modular prevê expansão para missões de gerenciamento de desastres, combate a incêndios, reconhecimento armado, vigilância e função de aeronave-mãe para efeitos lançados pelo ar — neste último papel, a Airbus atua em parceria com a MBDA — além do emprego em operações de teaming entre sistemas tripulados e não tripulados.
A Airbus anunciou que a capacidade de carga útil do U145 chegará a aproximadamente 1.180 kg (cerca de 2.600 libras). A plataforma ancora-se numa família já vastamente disseminada: há mais de 1.800 helicópteros da família H145 em serviço em missões militares e civis, com mais de 8,5 milhões de horas de voo acumuladas.
O H145 é movido por dois motores Safran Arriel 2E, com controle digital de autoridade total (FADEC) e tem a menor pegada acústica e as menores emissões de CO₂ entre os concorrentes de sua categoria, segundo a fabricante.
Contexto geopolítico e a aposta europeia
A decisão da Airbus foi motivada por mudanças drásticas no cenário geopolítico e pelo esforço europeu de desenvolver capacidades soberanas e reduzir a dependência de Washington.
O desenvolvimento do U145 em paralelo ao MQ-72C alinha-se com a ambição europeia de fortalecer suas capacidades soberanas. A erosão de dependências históricas elevou a autonomia estratégica de conceito teórico a necessidade operacional urgente, e a Airbus posiciona o U145 justamente nessa lacuna.
Nos Estados Unidos, a Airbus segue uma trilha paralela: a Airbus U.S. Space & Defense, em conjunto com Shield AI, L3Harris e Parry Lab, oferece ao Corpo de Fuzileiros Navais americano o MQ-72C — variante totalmente autônoma do UH-72B Lakota, desenvolvida com foco nas necessidades específicas dessa força.
Mercado em disputa
O U145 coloca a Airbus num segmento em que rivais americanos já estão estabelecidos. A Sikorsky converteu um UH-60L Black Hawk em drone de carga autônomo — o U-Hawk — e entregou um UH-60MX com pilotagem opcional equipado com o sistema de autonomia MATRIX ao Exército dos Estados Unidos.
O avanço em direção a helicópteros não tripulados reflete um reequilíbrio mais amplo, pelo qual os exércitos transferem missões de reabastecimento e papéis de alto risco para drones, mesmo que comandantes continuem afirmando que helicópteros tripulados permanecem centrais em muitas missões.
A Airbus se apoia na experiência acumulada com o VSR700 — sistema de aeronave não tripulada de asa rotativa naval — para construir um H145 autônomo capaz de atuar em logística, combate a incêndios, reconhecimento aéreo e como aeronave-mãe para efeitos lançados pelo ar.
A escolha do H145 para essa conversão não é casual: além do desempenho da plataforma, a manutenção de comunalidade com o H145M tripulado facilita a integração em frotas já estabelecidas e simplifica a cadeia logística para operadores militares existentes.



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