Translate

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Piloto de MiG-29 detalha estratégia ucraniana contra Shaheds russos equipados com motor a jato

Integrante do canal "Sonyashnyk" afirma que gargalo da Ucrânia está no financiamento e na burocracia, não na eficácia da defesa aérea contra os drones russos

Um piloto de caça ucraniano, que administra o canal "Sonyashnyk" e teve identidade preservada, concedeu entrevista ao site Waypoint, na qual detalhou os desafios enfrentados pela Ucrânia no combate aos drones Shahed equipados com motor a jato. 

Segundo o piloto, a dificuldade em interceptar esse tipo de alvo não decorre de falhas no sistema de defesa aérea ucraniano, mas de restrições orçamentárias e de entraves processuais, tanto internos quanto por parte dos países aliados, em meio à guerra em curso desde a invasão russa.

Ao ser questionado sobre os pontos mais vulneráveis do sistema de defesa aérea ucraniano diante dos Shaheds a jato, o piloto rebateu a percepção de que a defesa do país estaria falhando. Segundo ele, nenhum sistema de defesa aérea no mundo suportaria o volume de ataques russos realizados diariamente contra o território ucraniano.

"A quantidade de recursos que o inimigo usa diariamente é colossal. Os civis se concentram no número de alvos que passaram por algum escalão de nossa defesa, mas esquecem que o abate de alvos inimigos começa lá atrás, sobre os pântanos", declarou o piloto.

Rússia adapta táticas ao longo da guerra

De acordo com o relato, a Rússia ajustou sua estratégia depois de constatar que não conseguiria sobrecarregar as defesas ucranianas de forma indiscriminada. Atualmente, segundo o piloto, Moscou prepara ataques de maior escala, com volume elevado de recursos e apoio de países que ele classificou como "tiranos" aliados — sem detalhar nomes. 

Ele apontou que, a Rússia identificou brechas que a Ucrânia ainda não tem capacidade de fechar, entre elas a exploração das fronteiras nacionais e o lançamento de ataques em massa durante períodos de piora nas condições meteorológicas.

Para o piloto, o principal obstáculo não é operacional, e sim burocrático. "Na minha opinião, nosso calcanhar de Aquiles é o financiamento, tanto dos parceiros quanto local. Muitas iniciativas e ideias importantes precisam passar por uma centena de conselhos processuais antes que alguém as ouça", afirmou. 

Ele também criticou o ritmo de resposta da comunidade internacional: "Quanto aos aliados, o mundo ainda está se movendo devagar demais rumo à Terceira Guerra Mundial. É daí que vem a escassez de munição e de outros recursos."

Por que ainda vale a pena usar caças tripulados

Questionado sobre a lógica de empregar caças tripulados contra os Shaheds a jato, considerando o custo elevado da operação frente ao valor relativamente baixo dos drones, o piloto defendeu que a missão está dentro do papel histórico de uma aeronave de caça: garantir a dominância aérea e atuar de forma integrada ao sistema de defesa antiaérea.

"Do ponto de vista de um caçador, faz sentido, porque essa é literalmente nossa especialidade: dominância aérea e atuação dentro do sistema de defesa aérea", disse. Ele contextualizou que os antigos drones Geran-1 e Geran-2 representaram um incômodo persistente por um período, mas classificou o Shahed a jato como um alvo comparativamente mais fácil de abater, dadas suas características de voo.

"Financeiramente é doloroso, mas esse é o nosso propósito. Em uma única missão, até um MiG antigo pode abater uma dúzia ou mais", disse o piloto, reforçando que, diante da escassez de outras opções de interceptação, a eficácia acaba dependendo diretamente de habilidade e experiência dos aviadores. 

Ele observou ainda que parte dos alvos inimigos voa em altitudes fora do alcance de interceptadores mais baratos, ou em velocidade que impede a chegada a tempo desses sistemas.

Prioridades para uma resposta sistemática

Ao ser questionado sobre as reais prioridades para enfrentar os Shaheds a jato de forma sistemática — e não apenas caso a caso —, o piloto ponderou que destruir diretamente os sítios de lançamento russos não é uma solução realista, já que a Rússia tem capacidade de reconstruir ou realocar essas estruturas, inclusive utilizando plataformas móveis.

Claro que precisamos conduzir operações em território inimigo, caçar sítios de lançamento e logística, fábricas e oficinas", afirmou. "Mas também acho que, se todas as nossas forças forem direcionadas somente para isso, o inimigo simplesmente vai se mover mais rápido para operar debaixo da terra.

Segundo ele, a abordagem mais lógica passa por um esforço paralelo: consolidar um sistema de defesa aérea em camadas e unificado — ainda que a unificação ocorra apenas por setor ou "linha" de frente — mantendo, ao mesmo tempo, pressão constante sobre as capacidades operacionais russas.

O piloto reforçou que, com quantidade suficiente de meios de interceptação e maior autonomia concedida a comandantes em campo, o cenário tende a melhorar. 

Ele citou como exemplo uma mudança observada pelos ucranianos cerca de seis meses antes da entrevista, quando, com recursos de interceptação disponíveis em quantidade adequada, apenas dois drones — de centenas lançados contra Kiev — conseguiram atravessar as defesas da capital.

Fonte original: Defence Blog, por Dylan Malyasov / Tradução e Adaptação textual: DefesaTvNews

Nenhum comentário: