Documento cita relatos de pilotos da França sobre dificuldades do radar do caça em enfrentar aeronaves furtivas, em meio a incertezas sobre o futuro do poder aéreo francês
Uma avaliação francesa, sobre o futuro do combate aéreo expôs, de forma incomumente franca, as limitações do caça Rafale diante de aeronaves de quinta geração.
O documento, intitulado "The Future of Air Superiority: Mastering the Sky in High-Intensity Warfare", reúne relatos de pilotos da Armée de l'air et de l'espace (Força Aérea Francesa) colhidos durante exercícios conjuntos com caças furtivos e aponta que os sensores atuais do Rafale seriam insuficientes para vencer esse tipo de confronto.
A publicação chega em um momento de incertezas sobre os rumos do poder aéreo da França, com o caça francês perdendo terreno frente a concorrentes americanos e chineses.
Segundo o estudo, embora a furtividade sozinha não garanta superioridade aérea, ela representa uma vantagem decisiva nos cenários mais exigentes de combate.
A assimetria tecnológica entre o Rafale e os caças de quinta geração teria ficado cada vez mais evidente em exercícios conjuntos, levando pilotos franceses a declarar que "a missão de combate contra caças furtivos no Rafale é impossível de vencer com os sensores em seu estado atual" — avaliação que contrasta com o histórico do próprio caça, que esteve duas décadas à frente de outros modelos europeus na adoção de radares de array em fase e uma década à frente na integração de radares AESA (array em fase eletronicamente ativo).
Radar menor limita alcance de detecção
Uma das principais fragilidades apontadas no documento está relacionada ao porte da aeronave. Por ser um caça relativamente leve, o Rafale só comporta radares de dimensões reduzidas se comparado a modelos rivais.
O F-15EX americano, por exemplo, integra um radar mais sofisticado e com quase o dobro do tamanho do equipamento instalado no Rafale, o que amplia sua capacidade de detecção mesmo contra alvos furtivos.
A diferença é ainda mais acentuada em relação ao J-16 chinês, cujo radar é mais de três vezes maior. Para o estudo, os caças europeus estariam, assim, não apenas mais de uma geração atrás em termos de projeto e sofisticação de sensores, como também limitados estruturalmente por seu porte reduzido.
Um programa que já nasceu atrasado
A Armée de l'air começou a definir os requisitos operacionais do Rafale em 1983, mas atrasos no desenvolvimento fizeram com que a aeronave só entrasse efetivamente em serviço 18 anos depois, em 2001.
Quando o Rafale realizou seu primeiro voo, tanto Estados Unidos quanto União Soviética já haviam avançado para o desenvolvimento de tecnologia de quinta geração.
Os protótipos do YF-22 e YF-23, voaram apenas quatro anos após o protótipo do Rafale, enquanto o soviético MiG 1.42 tinha primeiro voo previsto para dois a três anos depois — projeto interrompido pela dissolução da URSS, que atrasou em décadas o desenvolvimento de caças russos.
Discrepância deve aumentar com novos caças
A entrada em serviço do J-20A chinês, e a chegada prevista do F-35 Block IV, para o início da década de 2030, devem ampliar ainda mais essa diferença de desempenho, já que o potencial de modernização do Rafale é considerado limitado.
A Rússia, apesar de estar atrás dos Estados Unidos e da China no desenvolvimento de caças, tem investido no aprimoramento do Su-57 — que, mesmo menos sofisticado que o J-20 ou o F-35, ainda apresenta potencial de combate e modernização superior a qualquer caça europeu, segundo o levantamento. As dificuldades técnicas também têm repercutido no mercado internacional: o Rafale já perdeu todas as licitações em que competiu diretamente contra o F-35.
Primeiro teste em combate real
O caça francês teve seu primeiro teste de combate de alta intensidade em maio de 2025, quando entre um e quatro exemplares operados pela Força Aérea Indiana foram neutralizados em confrontos com caças J-10C, de origem chinesa e fornecidos ao Paquistão — aeronaves classificadas como de geração "4+".
A tendência, segundo o estudo, é que a defasagem se aprofunde: a China prevê colocar caças de sexta geração em serviço no início da década de 2030, quase dez anos antes dos Estados Unidos, enquanto nenhum outro país deve alcançar capacidade equivalente antes do fim da década de 2040.
Ainda assim, as Forças Armadas Francesas devem manter o Rafale como seu caça mais capaz até pelo menos o fim da década de 2030 — e possivelmente por bem mais tempo, já que não há expectativa de que programas europeus produzam, em prazo previsível, uma aeronave equiparável ao F-35 Bloco 4 ou ao J-20A, muito menos um caça de sexta geração.



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