Instituto sueco projeta que Pequim pode igualar EUA e Rússia em lançadores de ICBMs até o fim da década, em meio a sinais de mudança na postura de prontidão nuclear chinesa
O estoque de armas nucleares da China, chegou a cerca de 620 ogivas em janeiro de 2026, um avanço em relação às aproximadamente 600 registradas um ano antes, segundo o relatório anual sobre Forças Nucleares Mundiais divulgado nesta semana pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI).
O levantamento, assinado pelos pesquisadores Hans M. Kristensen e Matt Korda, aponta que a expansão do arsenal chinês segue em ritmo constante e sem sinais de desaceleração, ao mesmo tempo em que autoridades americanas identificam mudanças na forma como Pequim mantém suas ogivas prontas para uso.
Ainda que em crescimento, o estoque chinês permanece bem inferior aos dos Estados Unidos e da Rússia, que juntos concentram cerca de 86% de todas as ogivas nucleares do planeta.
Ainda assim, a China já opera mais lançadores de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) baseados em terra do que qualquer um dos dois países, e o SIPRI projeta que Pequim pode igualar o número de lançadores das duas potências até o final desta década.
Sinais de mudança na postura de prontidão
Historicamente, a China manteve a maior parte de seu arsenal separada dos lançadores — prática de tempos de paz voltada a reduzir o risco de uso acidental ou não autorizado. Segundo o relatório, esse cenário pode estar em transformação.
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos, identificou indícios de que a China vem acoplando ogivas a mísseis em alguns batalhões móveis durante exercícios, rompendo com a postura de desacoplamento mantida por décadas.
O Pentágono, avaliou ainda em relatório de 2025, que a China carregou mais de 100 mísseis em três novos campos de silos, embora não haja confirmação pública de que essas unidades estejam efetivamente armadas com ogivas ativas.
Fontes dos EUA, relataram também ao SIPRI, sob condição de anonimato, que um submarino balístico chinês em patrulha de dissuasão pode estar transportando mísseis com ogivas nucleares — informação que, segundo o próprio instituto, carece de confirmação oficial até o momento.
Com base nesse conjunto de avaliações, o SIPRI estima que a China pode ter destacado um número reduzido de ogivas — possivelmente até 34 — junto a forças operacionais em janeiro de 2026. A maior parte do arsenal, no entanto, segue armazenada em instalações centrais e regionais.
Novos sistemas exibidos no desfile de 2025
Parte da avaliação do SIPRI se apoia em sistemas até então inéditos apresentados pela China no desfile do Dia da Vitória, em setembro de 2025, em Pequim.
Entre os equipamentos mostrados estavam um veículo de carregamento de silo para o míssil intercontinental DF-31B e um novo lançador do ICBM DF-61, que, segundo o instituto, guarda forte semelhança com o já conhecido DF-41.
O desfile também trouxe ao público o míssil balístico lançado por submarino JL-3 — já integrado aos submarinos da classe 094A atualizados — e a primeira aparição pública do míssil balístico lançado a partir do ar JL-1.
Estratégia de alerta antecipado
O relatório do Pentágono sobre o poder militar chinês, citado pelo SIPRI, afirma que os satélites infravermelhos de alerta antecipado da China seriam capazes de detectar o lançamento de um ICBM em até 90 segundos, com o alerta chegando a um centro de comando em três a quatro minutos.
Essa capacidade sustentaria o que o Departamento de Defesa dos EUA descreve como estratégia de "contra-ataque de alerta antecipado" — postura de lançamento já adotada há tempos por Rússia e Estados Unidos, que permitiria a Pequim disparar uma retaliação antes mesmo de um ataque inimigo atingir seu alvo, desde que o alerta seja confirmado por um segundo método de detecção independente.
Apesar dessa evolução em direção a tempos de reação mais curtos, a China mantém publicamente sua política de não uso em primeiro lugar de armas nucleares, reafirmada em livro branco sobre controle de armas divulgado em novembro de 2025. A posição é sustentada por Pequim desde o teste de seu primeiro dispositivo nuclear, em 1964.
Submarinos, bombardeiros e MIRVs
O SIPRI também menciona o desenvolvimento do submarino de próxima geração Tipo 096, que deve substituir os atuais submarinos da classe Jin, embora o programa esteja, segundo o instituto, atrasado em relação ao cronograma original.
Paralelamente, a China desenvolve um novo bombardeiro estratégico destinado a operar o míssil JL-1, e ampliou em 2025 o número de lançadores do míssil de alcance intermediário de capacidade dupla DF-26, ao mesmo tempo em que colocou em serviço uma variante antinavio convencional do mesmo sistema.
Sobre a tecnologia de múltiplas ogivas independentes (MIRV), o relatório lembra que a China possui capacidade técnica para equipar mísseis com múltiplos veículos de reentrada desde o início dos anos 1980, mas só aplicou o recurso a partir de 2014, no DF-5B, estendendo-o ao DF-41 em 2020.
O SIPRI observa que Pequim parece não ter adotado MIRVs de forma tão ampla quanto sua tecnologia permitiria, inclusive nos mísseis carregados em seus novos campos de silos.
Segundo as tabelas do instituto, o arsenal chinês está distribuído em aproximadamente 20 bombardeiros H-6N com capacidade nuclear, forças terrestres com 775 lançadores portando um total estimado de 509 ogivas, e 72 mísseis lançados por submarino com 72 ogivas, além de cerca de 19 ogivas adicionais em reserva para sistemas que se aproximam do status operacional.
O SIPRI ressalva que suas estimativas sobre os níveis de implantação chineses carregam incerteza considerável, dada a limitada transparência de Pequim sobre suas forças nucleares — informação que segue sem confirmação oficial por parte do governo chinês.


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