O Forte de Copacabana foi o único ponto de resistência de um levante fracassado — mas a marcha suicida de seus últimos defensores pela Avenida Atlântica gerou mártires, alimentou o tenentismo e plantou a semente que derrubaria a República Velha oito anos depois.
Passado exatos, 104 anos daquele confronto, em uma manhã de 5 de julho de 1922, no Rio de Janeiro, então capital federal do Brasil, um punhado de jovens oficiais do Exército saiu pela porta do Forte de Copacabana carregando fuzis, revólveres e pedaços de bandeira — não de vitória, mas de resistência.
Eram 18 ao todo: 17 militares e um civil que se juntou à marcha espontaneamente. Eles sabiam que não tinham chance. Mesmo assim, caminharam em direção às forças legalistas do governo de Epitácio Pessoa, que somavam cerca de 3.000 soldados.
O episódio ficaria conhecido como a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana — o primeiro levante armado do movimento tenentista e um dos marcos fundadores da história política do Brasil republicano.
PARTE I — O ANTES: A REPÚBLICA DAS OLIGARQUIAS E O ESTOPIM
Para entender o que levou aqueles homens a marchar pela orla carioca em direção à morte, é preciso recuar alguns anos — e compreender o Brasil que existia antes de 1922.
A República Velha (1889–1930) era dominada por um sistema eleitoral manipulado que garantia a vitória dos candidatos da situação, concentrando o poder nas mãos das oligarquias agrárias de São Paulo e Minas Gerais — a chamada política do café com leite.
Os militares de baixa patente — tenentes, capitães, sargentos — viam com crescente indignação um país administrado por coronéis do interior e fazendeiros ricos, onde o voto era comprado, falsificado ou simplesmente ignorado.
Compartilhavam de um forte espírito de patriotismo e corporativismo: queriam o fim das oligarquias e dos coronéis, defendiam o voto secreto, o ensino público e gratuito, e pregavam a moralização da política brasileira.
O cenário começou a se agravar com a disputa eleitoral de 1921 para a presidência da República. Artur Bernardes, presidente de Minas Gerais e candidato da situação, disputou com Nilo Peçanha a sucessão presidencial de Epitácio Pessoa.
A situação se complicou quando a imprensa, divulgou cartas supostamente escritas por Bernardes, acusando o Exército e ofendendo o marechal Hermes da Fonseca, então presidente do Clube Militar. Bernardes negou a autoria das cartas, mas o estrago já estava feito. Os militares, principalmente os do Clube Militar, ficaram profundamente descontentes com a publicação.
As eleições ocorreram em 1º de março de 1922 e Artur Bernardes foi eleito. A oposição contestou os resultados e, ao longo dos meses seguintes, uma conspiração militar foi se articulando pelo país, objetivando destituir Epitácio Pessoa e impedir a posse de Bernardes. O movimento atraiu grande entusiasmo de tenentes, mas poucos oficiais mais graduados aderiram.
O estopim definitivo veio dias antes do levante. Uma desavença com Epitácio sobre a sucessão estadual de Pernambuco resultou na prisão do marechal Hermes da Fonseca e no fechamento do Clube Militar, em 2 de julho de 1922. Para os conspiradores, era hora de agir.
PARTE II — O DURANTE: DA MADRUGADA À MARCHA FINAL
Os planos iniciais eram ambiciosos — e ingênuos. A revolta deveria contar com a adesão de outros estados brasileiros e de diversas áreas militares do Rio de Janeiro, incluindo a Vila Militar. Mas o governo federal já sabia da organização e tratou de trocar os principais comandantes dos quartéis nos dias anteriores ao levante.
Na madrugada de 5 de julho, o levante eclodiu em múltiplos pontos — e foi sufocado rapidamente em quase todos eles. A insurreição iniciou na Vila Militar, mas os rebeldes foram facilmente dominados, pois a maioria dos militares manteve-se fiel à ordem constituída. Ao mesmo tempo, ocorreu o levante na Escola Militar do Realengo e no Forte de Copacabana.
Apenas o Forte resistiu. Somente o Forte de Copacabana permaneceu em revolta, atirando contra alvos militares e travando um duelo de artilharia com outras fortificações da baía de Guanabara, o que matou vários civis.
Comandado pelo capitão Euclides Hermes da Fonseca — filho do marechal preso —, durante toda a manhã do dia 5, o forte sofreu bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz. Os 301 revolucionários mantiveram-se firmes até que Euclides Hermes e o tenente Siqueira Campos sugeriram que desistissem da luta aqueles que quisessem: apenas 29 decidiram continuar.
O capitão Euclides Hermes então saiu para negociar com o Ministro da Guerra no Palácio do Catete — e foi imediatamente preso. Os 28 restantes continuaram resistindo. Repartiram a bandeira do Forte em 28 pedaços e marcharam pela Avenida Atlântica em direção ao Leme.
Durante a caminhada, mais dez abandonaram o grupo sob fogo cerrado. Restaram 18 — número que daria nome ao episódio para sempre. Um civil chamado Otávio Correia havia aderido espontaneamente à marcha nas ruas.
Os 18 que se mantiveram em marcha foram finalmente derrotados em frente à Rua Barroso — atual Rua Siqueira Campos —, na altura do Posto 3 de Copacabana. Apenas Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram. Ambos ficaram gravemente feridos e foram capturados. Os outros 16 — 15 militares e o civil Otávio Correia — morreram no confronto.
A imagem dos 18 caminhando pela Avenida Atlântica em direção ao inimigo, com pedaços de bandeira, tornou-se um dos registros mais poderosos da história militar brasileira.
PARTE III — O PÓS: DERROTA TÁTICA, VITÓRIA SIMBÓLICA
A repressão foi imediata e dura. A reação do governo de Epitácio Pessoa foi severa: decretou o estado de sítio — que duraria quatro anos — e a censura à imprensa. Muitos militares foram condenados à prisão. Em novembro de 1922, Artur Bernardes assumiu a presidência e passou praticamente todo o seu mandato sob estado de sítio, tentando conter o fenômeno que havia ajudado a criar: o tenentismo.
A recusa de anistia aos revoltosos de 1922 foi um dos principais motivos das revoltas seguintes. Os dois sobreviventes — Siqueira Campos e Eduardo Gomes — tornaram-se figuras centrais dos movimentos que se seguiram.
Após a revolta, iniciaram-se outros movimentos com a mesma ideologia: a Comuna de Manaus (1924), a Revolução Paulista (1924) e a Coluna Prestes (1925–1927), todas com a mesma finalidade: destituir a oligarquia cafeeira.
O desfecho suicida da revolta em Copacabana tornou-se mítico, gerando mártires e uma imagem de heroísmo que alimentou o idealismo dos movimentos seguintes. O mito gerado foi mais importante do que o peso real da revolta.
Sociologicamente, ela pode ser interpretada em termos de honra, romantismo e virilidade. Os tenentes eram jovens, idealistas, frustrados por não terem lutado na Primeira Guerra e atraídos à ideia de sacrifício pela pátria.
O tenentismo, nascido naquele Forte, participaria decisivamente da Revolução de 1930, que pôs fim à Primeira República e abriu caminho para a Era Vargas.
O heroísmo daqueles jovens oficiais, dispostos a honrar o hino nacional em sua frase mais impactante — "verás que um filho teu não foge à luta" —, está eternizado no imaginário popular e nos inúmeros estudos historiográficos sobre o Movimento Tenentista.
A data de hoje, 104 anos depois, não é apenas um número: é a medida da distância entre aquela manhã de pólvora e orla, e o Brasil que ela ajudou a construir.




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