Projeto da década de 80, nasceu de um pedido iraquiano, venceu tecnicamente o alemão Wiesel em concorrência internacional, mas foi interrompido pela falência da fabricante em 1995
O EE-T4 Ogum, foi um veículo blindado leve desenvolvido no Brasil, projetado na segunda metade da década de 1980 pela Engesa-Engenheiros Especializados S/A. A origem do programa remonta aos contatos comerciais iniciais da Engesa com o Iraque.
Nesta época, quem governava o Iraque era Saddam Hussein. Junto aos seus generais, ele questionou os representantes da empresa sobre a capacidade da mesma, de fabricar um veículo com características semelhantes ao alemão Wiesel.
De volta ao Brasil, o pedido foi levado ao departamento de projetos da companhia, dando início a um dos capítulos menos conhecidos da indústria bélica nacional. Ao todo, quatro protótipos foram construídos ao longo do desenvolvimento, mas o programa nunca chegou à produção em série, encerrado pela crise financeira que levou a Engesa à concordata e, em 1995, à falência.
Origem: a sombra do Wiesel alemão
O Wiesel, veículo que serviu de referência inicial ao projeto brasileiro, havia sido desenvolvido pela Porsche e construído pela MaK, na Alemanha Ocidental, como um blindado leve sobre lagartas sem equivalentes na época.
Quando a Engesa iniciou os trabalhos no Ogum, o veículo alemão ainda estava em desenvolvimento, e os primeiros exemplares só foram entregues ao Exército alemão no final de 1989 — ou seja, o programa brasileiro caminhou paralelamente ao concorrente germânico, e não como simples cópia tardia.
Os estudos formais para um novo blindado leve sobre lagartas tiveram início em fevereiro de 1985. Designado EE-T4 e batizado de "Ogum" (Deus da Guerra e do Ferro, nas religiões de matriz africana), o primeiro protótipo teve a construção iniciada em novembro daquele ano e ficou pronto em maio de 1986.
Esse exemplar inicial foi utilizado em ensaios mecânicos, enquanto um segundo protótipo, concluído logo em seguida, foi enviado ao Iraque para testes de campo. Os resultados obtidos em solo iraquiano levaram a Engesa a modificar pontos do projeto original.
Conceito e características técnicas
A concepção do Ogum previa a utilização de um mesmo chassi como base para diferentes tipos de missões e configurações, formando uma família de blindados — lógica semelhante à já aplicada pela empresa aos blindados sobre rodas Urutu e Cascavel.
A intenção era que o EE-T4 constituísse uma família de veículos em várias versões sobre o mesmo chassi, permitindo economia de escala ao cliente, que poderia adquirir maior número de unidades padronizando peças e manutenção. A versão básica de produção seria destinada a reconhecimento, equipada com armamento leve.
Por se tratar de um veículo extremamente compacto e aerotransportável, o Ogum foi projetado para ser pequeno e leve, com dimensões externas compatíveis com o Wiesel alemão — sendo a versão brasileira um pouco mais comprida e um pouco mais larga, com alturas praticamente equivalentes, diferindo principalmente no tipo de torreta adotada.
Segundo especificações registradas em material técnico da época, o veículo apresentava peso de 4,4 toneladas, comprimento de 3,750 metros, largura de 2,145 metros e altura de 1,355 metros — não há confirmação oficial adicional sobre variações dessas medidas entre os diferentes protótipos.
A estrutura do Ogum era formada por um monobloco composto por chapas de aço bimetálicas semelhantes às utilizadas nos blindados sobre rodas 6x6 Urutu e Cascavel, de alta resistência, o que conferia ao veículo resistência estrutural com ângulos de incidência favoráveis e baixa silhueta, garantindo proteção balística efetiva — segundo o fabricante — contra munição de calibre 7,62mm AP.
A Engesa chegou a estudar uma blindagem mais robusta para o Ogum, aproveitando tecnologia do programa Osório. Cogitou-se instalar no EE-T4 a blindagem desenvolvida para o EE-T1 Osório, formada por um composto de aço, cerâmica, alumínio e fibra de carbono, que somado aos ângulos do desenho do Ogum garantiria capacidade de resistência contra projéteis de até 14,5mm.
A opção, no entanto, foi descartada em razão do porte reduzido do veículo e da necessidade de manter baixo peso para viabilizar o transporte e o lançamento a partir de aeronaves de transporte ou helicópteros pesados.
No trem de rolamento, a suspensão era do tipo barras de torção, com três amortecedores de cada lado. O conjunto possuía quatro rodas emborrachadas, sendo uma tratora na dianteira e um conjunto de rodas tensoras das lagartas na traseira.
As lagartas eram do modelo alemão Diehl, com sapatas removíveis, guiadas pelo centro por meio de duplo pino emborrachado. Quanto à motorização, a opção inicial recaiu sobre um motor da empresa alemã MTU, com o conjunto instalado na dianteira do veículo, em configuração diesel — sem confirmação disponível sobre o modelo exato e a potência final adotada em cada protótipo.
Armamento e evolução dos protótipos
Ao longo do desenvolvimento, o Ogum recebeu diferentes configurações de armamento nos protótipos construídos. Testes realizados nas dependências da fábrica da Engesa em 1987, com o segundo protótipo, já utilizavam uma torre equipada com duas metralhadoras de 7,62mm — a mesma configuração que posteriormente equiparia o quarto protótipo.
Esse quarto exemplar, mais elaborado que os três anteriores e equipado com torreta Engesa com duas metralhadoras 7,62mm, foi apresentado na Primeira Exposição Internacional de Produtos Militares, ocorrida em Bagdá em 1989.
O veículo permaneceu no Iraque para testes adicionais. Em 1991, em decorrência da Guerra do Golfo, o protótipo foi deixado em um quartel do Exército iraquiano em Tikrit, e o pessoal técnico da Engesa retornou ao Brasil sem que se tivesse notícia posterior desse exemplar — episódio que até hoje deixa uma lacuna na história do programa, sem confirmação sobre o destino final do veículo.
A concorrência de Abu Dhabi e o fim do programa
Um dos episódios mais relevantes da trajetória do Ogum foi sua participação em uma concorrência internacional nos Emirados Árabes Unidos. Em 1988, o veículo brasileiro participou de uma concorrência em Abu Dhabi e conseguiu vencer tecnicamente o Wiesel alemão nas provas ali realizadas — a mesma disputa em que o EE-T1 Osório venceu o italiano Ariete no campo técnico, mas acabou derrotado no âmbito político.
O resultado ilustra um padrão recorrente na história dos programas blindados da Engesa: superioridade técnica reconhecida internacionalmente, sem que isso se traduzisse necessariamente em contratos de exportação.
A crise financeira da companhia, que se agravou no início dos anos 1990, selou o destino do projeto. Com o agravamento da crise financeira da Engesa, que logo em seguida pediu concordata e teve sua falência decretada em 1995, o projeto do Ogum não foi levado adiante.
Dos quatro protótipos construídos, apenas um existe atualmente — o segundo protótipo —, que se encontra em poder do Exército Brasileiro, lotado no 2º Regimento de Carros de Combate (2º RCC), em Pirassununga, São Paulo. Esse exemplar chegou a ser exibido publicamente: esteve em exposição no Centro de Instrução de Blindados (CIBld), no Rio de Janeiro, em 2001.
Legado
Apesar de nunca ter entrado em produção em série, o EE-T4 Ogum é lembrado como um projeto tecnicamente avançado para o padrão de equipamentos do Exército Brasileiro da época. Fontes especializadas destacam que, embora o conceito lembrasse o Wiesel alemão — hoje empregado inclusive pelas forças americanas —, os dois projetos eram, na prática, inteiramente diferentes em solução de engenharia.
O Ogum permanece hoje como peça de museu vivo da capacidade técnica da indústria bélica nacional dos anos 1980, num momento em que a Engesa também desenvolvia o EE-T1 Osório, disputando mercados internacionais em pé de igualdade com potências tradicionais do setor.










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