Acordo histórico formaliza aquisição dos jatos mais modernos da Saab; entregas previstas para 2029–2030, enquanto 16 Gripen C/D serão doados a partir de 2027
A Ucrânia e a Suécia formalizaram, na terça-feira, 30 de junho, o contrato de aquisição de 16 caças JAS-39 Gripen E, fabricados pela Saab, em um acordo avaliado em aproximadamente US$ 2,54 bilhões.
O contrato foi assinado entre a Saab e a Administração Sueca de Materiais de Defesa (FMV), com a presença do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, e do ministro da Defesa sueco, Pål Jonson, em Kiev.
As entregas dos novos jatos estão previstas para o período de 2029 a 2030, enquanto uma segunda frota de 16 Gripen C/D, de geração anterior, será doada à Ucrânia a partir do início de 2027 — sem custo.
Um acordo construído ao longo de meses
O negócio começou a ser costurado em outubro de 2025, durante visita do presidente Zelenskyy ao polo industrial da Saab em Linköping, quando a época os dois países assinaram uma carta de intenções prevendo a possível aquisição de 100 a 150 unidades do Gripen E ao longo dos anos seguintes.
Em maio de 2026, uma nova etapa foi selada durante coletiva conjunta na Base Aérea de Uppsala, com o primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, anunciando a intenção de adquirir até 20 Gripen E/F em uma primeira fase. O contrato firmado agora consolida uma parcela inicial de 16 aeronaves, com o restante do programa ainda sujeito a negociações.
"Estou profundamente orgulhoso de que a Suécia e a Saab possam agora viabilizar o fornecimento do Gripen E à Ucrânia, trazendo um caça de classe mundial que vai transformar a capacidade da Força Aérea Ucraniana", declarou Micael Johansson, presidente e CEO da Saab, no comunicado oficial divulgado pela empresa.
O que está incluído no contrato
Além das 16 aeronaves propriamente ditas, o pacote contratado contempla peças sobressalentes, itens associados e equipamentos de suporte técnico. Em publicação no Telegram, Zelenskyy confirmou que o acordo inclui "assistência técnica e suporte" às aeronaves adquiridas. O valor do contrato será registrado pela Saab no balanço do terceiro trimestre de 2026.
O ministro da Defesa sueco reforçou o caráter estratégico da operação: "Este é o primeiro passo da ambição declarada da Ucrânia de adquirir até 150 Gripen E/F ao longo do tempo", escreveu em publicação na rede X.
Há, contudo, uma divergência de cronograma que merece atenção: enquanto a Saab estabelece entregas para 2029–2030, Zelenskyy chegou a mencionar o início das entregas em 2027 — data que, segundo as fontes consultadas, corresponderia aos Gripen C/D da doação, não aos novos Gripen E do contrato.
Gripen C/D: a ponte operacional para 2027
Em paralelo à compra, a Suécia vai transferir gratuitamente até 16 Gripen C/D do inventário ativo de sua Força Aérea — movimento que a Ucrânia receberá no início de 2027. A lógica é simples: permitir que pilotos e técnicos ucranianos se familiarizem com a família Gripen antes da chegada dos Gripen E, e ao mesmo tempo suprir uma necessidade operacional imediata de aeronaves combatentes.
Segundo informações disponíveis, o treinamento de pilotos e especialistas técnicos ucranianos já está em andamento na Suécia e será ampliado neste outono boreal. A Base Aérea de Uppsala, onde o anúncio de maio foi realizado, abriga a Escola de Treinamento de Combate da Força Aérea Sueca.
O pacote de doação poderá incluir munições avançadas como os mísseis IRIS-T, AMRAAM e Meteor — embora a confirmação definitiva do armamento ainda não tenha sido formalizada.
Por que o Gripen para a Ucrânia?
A escolha não é aleatória. Relatório do instituto britânico RUSI (Royal United Services Institute), publicado ainda em novembro de 2022, já classificava o Gripen como "de longe o candidato mais adequado" entre os caças ocidentais para operar nas condições impostas pelo conflito.
A avaliação destacava a capacidade do jato de operar a partir de bases dispersas, pistas improvisadas e até rodovias — uma exigência real para uma força aérea que precisa sobreviver a ataques sobre infraestrutura aeroportuária convencional.
O Gripen E é a versão mais avançada em produção do caça monomotor da Saab. Projetado para missões de defesa aérea, ataque e reconhecimento, o jato combina sensores modernos, sistemas de guerra eletrônica e uma arquitetura baseada em software que permite atualizações contínuas ao longo da vida útil da aeronave.
O tempo de reabastecimento e rearmamento é reduzido, e a aeronave pode ser operada por equipes pequenas — características que se alinham diretamente à doutrina de operações dispersas que a Ucrânia já adota com sua frota atual.
O ministro de Transformação Digital ucraniano, Mykhailo Fedorov, destacou outro ponto: "Os Gripen podem carregar mísseis Meteor, o que pode torná-los um dos principais fatores da vantagem tecnológica da Ucrânia — principalmente na detecção antecipada de ameaças, no combate mais eficaz a aeronaves inimigas e no engajamento de alvos aéreos a longa distância."
Ucrânia constrói uma frota multifonte
Com a incorporação dos Gripen, a Força Aérea Ucraniana avança em direção a um inventário de combate ocidental de múltiplas origens. A frota atual já inclui F-16A/B doados por Dinamarca, Noruega e Países Baixos — com entregas belgas previstas — e os Mirage 2000-5 fornecidos pela França. Existe ainda uma carta de intenções cobrindo a possível compra futura de até 100 Rafale F4 da Dassault, embora esse programa permaneça sem contrato firmado.
A complexidade operacional de uma frota tão heterogênea é reconhecida por analistas: diferentes aeronaves exigem cadeias de treinamento, manutenção, logística e integração de armamentos distintas. O Gripen, no entanto, traz uma vantagem prática nesse contexto — sua compatibilidade com munições de origem tanto europeia quanto americana o posiciona como um elo de integração dentro do mosaico de capacidades que Kiev está construindo.
O ângulo industrial: Saab cresce, e o Brasil observa
Para a Saab, o contrato ucraniano representa um salto expressivo. A empresa já sinalizou que trabalha para atingir uma taxa de produção de 20 a 30 Gripen por ano — e o patamar de 20 unidades anuais seria alcançável em cerca de um ano. A demanda global crescente inclui ainda negociações com o Canadá e sinalizações do Brasil para ampliar sua própria frota.
Nesse cenário, o papel da Embraer ganha relevância. A empresa brasileira é a principal parceira industrial da Saab no programa Gripen e realiza a montagem final do jato em solo nacional para a Força Aérea Brasileira.
Com encomendas se acumulando, a divisão de defesa da Embraer já sinalizou publicamente disponibilidade para apoiar a Saab no cumprimento de seus contratos — o que, potencialmente, coloca as linhas de produção brasileiras no circuito de fornecimento de um dos maiores pedidos de aeronaves de combate da história recente da Europa.

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