Chefe do centro de inteligência artificial do Ministério da Defesa ucraniano afirma que a próxima fase do conflito será decidida por qual lado processa mais rápido as informações do campo de batalha
A Ucrânia, está construindo a infraestrutura para uma nova forma de fazer guerra. Segundo, Danylo Tsvok, diretor do Centro de Inteligência Artificial do Ministério da Defesa ucraniano, confirmou à agência de notícias Reuters, dia 12 de junho, que os sistemas de IA já estão transformando ativamente o campo de batalha.
Desta forma, o próximo estágio será a unificação de drones, armas, sensores e centros de comando num único organismo digital capaz de processar dados da linha de frente e propor decisões em tempo real. O aviso é direto: o lado que acumular mais dados e interpretá-los com maior precisão sairá vitorioso.
No quinto ano da invasão russa, a Ucrânia já emprega inteligência artificial em funções que vão do controle de drones ao planejamento de operações de combate e à análise de ataques com mísseis russos.
O que Tsvok descreve, porém, vai além do uso pontual de ferramentas digitais: é a ambição de transformar a guerra num sistema integrado e autônomo de tomada de decisões, onde o humano ainda está no circuito — mas por quanto tempo, é a pergunta que o próprio oficial deixa aberta.
Do drone isolado à rede única de batalha
A criação do Centro de IA do Ministério da Defesa ucraniano, ocorreu em março de 2026, como parte do projeto do ministro, Mykhailo Fedorov, de colocar a inteligência artificial e a tomada de decisão baseada em dados no coração da defesa do país.
O departamento recebe apoio financeiro direto do Ministério da Defesa do Reino Unido — uma relação que Tsvok descreveu como "tanto militarmente quanto politicamente significativa".
O objetivo declarado é criar um sistema operacional único capaz de recomendar decisões de combate desde as unidades individuais na linha de frente até o comando estratégico. Isso exigiria a integração de dados provenientes de uma frente de batalha de 1.200 km — uma tarefa de processamento que está muito além da capacidade humana sem auxílio computacional.
Segundo Tsvok, a meta é reunir armamentos e sistemas de dados num "único organismo vivo que possa operar de forma coordenada."
A corrida tecnológica está atraindo empresas estrangeiras de IA que enxergam no conflito uma oportunidade única: dados de combate reais para treinar seus modelos e um ambiente onde é possível testar sistemas em condições que nenhum simulador consegue reproduzir.
A empresa Palantir, já fornece sistemas à Ucrânia. Kiev criou o Brave1 Dataroom, um projeto para compartilhar dados do campo de batalha, com países aliados para treinamento de softwares. "Este é o lugar onde você pode entender se o seu sistema funciona", disse Tsvok.
A aceleração do kill chain e a pressão sobre o humano
Os drones (ainda majoritariamente operados por pilotos humanos), já transformaram de forma irreversível a dinâmica do conflito. Ucrânia e Rússia lançam milhares de veículos aéreos não tripulados por dia em ataques mútuos.
A capacidade das aeronaves de vigiar continuamente o campo de batalha e atingir alvos com precisão acelerou o chamado kill chain — o ciclo de planejamento e execução de um ataque. A integração de IA nesse processo aceleraria ainda mais cada etapa desse ciclo.
Tsvok deixou claro que o objetivo não é criar "robôs assassinos" totalmente autônomos, mas um sistema mais coordenado que acelere a tomada de decisões e se integre de forma mais próxima com os parceiros ocidentais. "Não se trata de alcançar 100% de autonomia, mas de ser eficiente no campo de batalha", afirmou.
A Ucrânia opera atualmente sob o princípio de manter um ser humano no circuito das decisões de combate. Mas Tsvok não descartou que os sistemas de IA possam, no futuro, superar a velocidade humana de resposta — e que a presença humana no processo passe a ser o gargalo, e não a garantia. "Então a questão surge: como nos mantemos no ritmo das decisões que os sistemas autônomos propõem?", questionou.
A corrida armamentista tecnológica: Moscou também corre
A Rússia não está passiva nesse processo. Um comandante sênior de defesa aérea ucraniano, afirmou à Reuters em abril, que estava preocupado com o uso crescente de IA por Moscou no planejamento de ataques com drones e mísseis contra cidades, o que poderia reduzir significativamente o tempo de planejamento de cada ataque.
O fator que torna a IA, especialmente crítica é a guerra eletrônica: à medida que o jamming russo se intensifica, o direcionamento autônomo torna-se a forma pela qual os drones completam missões quando as comunicações falham. Em outras palavras, a autonomia não é apenas uma vantagem ofensiva — é um mecanismo de resiliência diante da supressão eletrônica adversária.
Tsvok prevê que, se o conflito continuar, a próxima fase será uma "guerra de sistemas operacionais" entre Ucrânia e Rússia nos próximos três a cinco anos. A lógica é simples e brutal: o lado com melhor software, mais dados e maior capacidade de análise em tempo real passará a propor soluções mais rápidas do que qualquer estado-maior humano conseguiria formular. "O sistema que possui mais dados e os entende melhor, propondo soluções — esse sistema ganhará vantagem sobre o outro", disse.
Recrutamento por algoritmo e reforma estrutural
Além do campo de batalha, o ministério está desenvolvendo um sistema de recrutamento e gestão de recursos humanos orientado por inteligência artificial, como parte da reforma de Fedorov para modernizar a estrutura do vasto departamento governamental.
A Ucrânia conta hoje com cerca de um milhão de militares ativos — uma força que gera volumes de dados administrativos, logísticos e operacionais que justificam, do ponto de vista do ministério, a automação dos processos de gestão de pessoal.
O centro fundado em março, faz parte de um esforço mais amplo para tornar a tomada de decisão orientada por dados um componente central da estratégia de defesa da Ucrânia. O setor doméstico de defesa do país já reúne mais de 2.000 fabricantes e empresas de tecnologia militar — uma base industrial que, sob a pressão da guerra, se transformou num dos mais acelerados ecossistemas de inovação em defesa do mundo.
A questão que Tsvok deixa no ar — e que os estrategistas militares de todo o mundo acompanham com atenção — não é se a IA vai mudar a guerra. Já está mudando. A pergunta é com que velocidade os humanos conseguirão acompanhar os sistemas que criaram para decidir por eles.



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