Com disponibilidade em zero por cento, a Marinha Real enfrenta sua pior crise de prontidão submarina desde o período da Guerra Fria, expondo décadas de cortes, má gestão e colapso da base industrial nuclear
Pela primeira vez em
décadas, todos os cinco submarinos de ataque nuclear, da classe Astute, da Real
Marinha Britânica (Royal Navy) estão simultaneamente fora de operação, em
estaleiros para manutenção ou reparo.
A taxa de disponibilidade
operacional chegou a zero por cento (0%), uma marca histórica que expõe a
profundidade da crise que, corrói há anos o programa de submarinos nucleares do
Reino Unido, e que ocorre justamente em um momento de crescente atividade naval
russa no Atlântico Norte e no Ártico.
O ex-primeiro Lorde do
Almirantado, almirante Alan West, classificou a situação como deixar o Reino
Unido sem dentes em um cenário de confronto estratégico com Moscou. O país
mantém envolvimento direto na guerra russo-ucraniana, incluindo o desdobramento
de forças terrestres, e já declarou comprometimento com o esforço de contenção
liderado pelos Estados Unidos no Leste Asiático, voltado a China e Coreia do
Norte.
Colapso industrial e
gargalos de manutenção
A taxa zero de
disponibilidade é resultado direto do acúmulo de anos de pressão sobre a
infraestrutura de manutenção e a base industrial britânica. O setor enfrenta
períodos de reforma excessivamente longos, capacidade limitada nos estaleiros e
escassez crônica de pessoal qualificado.
Embora os Astute sejam,
considerados por vários analistas como uma das poucas áreas onde o Reino Unido
ainda fabrica produtos tecnologicamente de ponta no setor de defesa, a
estrutura de suporte industrial não acompanhou as exigências de uma frota
nuclear moderna.
O contra-almirante,
Philip Mathias, ex-diretor de política nuclear do Ministério da Defesa, alertou
em dezembro passado que o país havia perdido a capacidade de gerir seu próprio
programa de submarinos nucleares.
Em suas palavras, anos de
má gestão deterioraram seriamente as taxas de disponibilidade e uma ampla gama
de outros indicadores de desempenho.
"O Reino Unido não é
mais capaz de administrar um programa de submarinos nucleares. O desempenho em
todos os aspectos do programa continua piorando em todas as dimensões. Esta é
uma situação sem precedentes na era dos submarinos nucleares. É uma falha
catastrófica no planejamento de sucessão e liderança", declarou.
Mathias também apontou
cortes orçamentários e o que descreveu como um enorme fracasso na gestão de
pessoal-chave como fatores agravantes.
Suas observações foram
reforçadas por Simon Case, responsável pelo plano de construção de submarinos
britânicos, que informou ao Comitê de Defesa do Parlamento em novembro de 2025
que, "décadas de negligência" haviam debilitado gravemente a indústria.
"De alguma forma, nos tornamos a nação nuclear mais envergonhada do
mundo", concluiu.
Frota reduzida amplia o
impacto de cada atraso
A classe Astute, é
composta por apenas cinco submarinos em operação, número muito inferior às
dezenas de submarinos que a Royal Navy, operava no final da Guerra Fria. Esse
encolhimento da frota significa que qualquer atraso em manutenção ou reparo
inesperado tem impacto desproporcional sobre a prontidão operacional, deixando
margem mínima para que múltiplas embarcações entrem simultaneamente em reforma.
O HMS Agamemnon, sexto
navio da classe, foi incorporado à frota em setembro passado — mas sua
trajetória resume bem os problemas estruturais do programa. O submarino levou
mais de 13 anos para ser construído, o maior prazo de construção já registrado
para um submarino destinado à Marinha Real.
O custo de cada unidade
da classe Astute gira em torno de US$ 2 bilhões, e os atrasos acumulados
superam em vários anos o tempo de construção de submarinos maiores e mais
avançados produzidos por outras nações.
Declínio amplo das Forças
Armadas britânicas
O colapso da prontidão
submarina se insere em um quadro mais amplo de deterioração das capacidades
militares britânicas ao longo das últimas duas décadas. Forças terrestres, a
frota de destroieres e o efetivo de caças sofreram reduções significativas, aumentando
a dependência estratégica dos submarinos como principal instrumento de projeção
de poder do país.
A crise chega em um
momento particularmente delicado. O Reino Unido está diretamente envolvido no
conflito na Ucrânia, mantém comprometimentos militares em relação ao Irã e
declarou disposição de contribuir com o esforço de dissuasão norte-americano no
Pacífico.
A indisponibilidade total da frota de ataque submarina fragiliza a postura estratégica britânica precisamente quando o país enfrenta demandas simultâneas em múltiplos teatros.



Nenhum comentário:
Postar um comentário