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domingo, 7 de junho de 2026

Inspirado na Ucrânia, Exército Brasileiro testa drones armados e avança na construção de doutrina própria para guerra não tripulada

Com drones armados com fuzis, lançadores de granadas, sensores nucleares e sistemas capazes de operar a quase 300 km de distância, o SSNTFT 2026 revelou que o Brasil está construindo sua própria doutrina de combate não tripulado — inspirada nas lições da Ucrânia, mas com pés fincados na indústria nacional

Durante três dias, de 25 a 27 de maio, o Quartel-General do Exército (QGEx) e o Estande de Tiro General Darcy Lázaro, em Brasília, foram palco de algo que poucos brasileiros sabem que está acontecendo: o país está correndo para não ficar para trás na maior revolução militar em décadas. 

O 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre (SSNTFT 2026), conduzido pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), reuniu autoridades do Alto Comando do Exército, especialistas militares e onze empresas da Base Industrial de Defesa (BID) para debater, demonstrar e definir os rumos do Brasil no campo dos drones e sistemas autônomos de combate.

O objetivo declarado pelo Exército foi claro: nivelar o conhecimento estratégico sobre sistemas não tripulados e subsidiar o Alto Comando na tomada de decisões sobre aquisição, pesquisa e desenvolvimento, organização e emprego dessas tecnologias. Na prática, o que aconteceu no estande de tiro foi bem mais concreto do que qualquer relatório institucional consegue traduzir. 

O que foi mostrado — e o que isso significa

As apresentações incluíram drones armados com fuzis e lançadores de granadas e fumígenos; sistemas não tripulados com sensores de detecção de ameaças nucleares e radiológicas; drones de inteligência e vigilância integrados a outros de ataque; e sistemas não tripulados que podem ser operados a quase 300 km de distância. 

O leque tecnológico exibido é expressivo para qualquer padrão — e especialmente para um país que, até pouco tempo atrás, dependia quase que inteiramente de plataformas importadas para esse tipo de missão. 

O destaque de maior impacto veio da Taurus Armas. A empresa exibiu um drone de ataque de grande porte capaz de operar armamento leve — fuzis e lança-granadas —, incluindo o lançamento de projéteis de morteiro de 120 mm com 15 kg de peso, colocando o sistema diretamente no mesmo patamar de carga útil das primeiras gerações dos chamados "Baba Yaga" ucranianos. 

A comparação não é gratuita: o conflito na Ucrânia transformou drones agrícolas em máquinas de guerra em questão de meses, e o Exército Brasileiro parece ter estudado esse fenômeno com atenção. 

A Condor Tecnologias Não Letais levou ao evento o CONDOR DROP — drone tático voltado para monitoramento e apoio a missões — e o STINGER, lançador múltiplo integrado a plataformas remotas. 

A participação da empresa reforçou o papel da Base Industrial de Defesa na modernização das Forças Armadas, com empresas nacionais contribuindo para o fortalecimento da engenharia brasileira e da autonomia tecnológica em áreas sensíveis para a soberania nacional. 

A surpresa veio do Arsenal de Guerra do Rio

Um dos elementos mais estratégicos do simpósio passou relativamente despercebido pela cobertura geral. A Diretoria de Fabricação (DF) e o Arsenal de Guerra do Rio (AGR) demonstraram um projeto próprio de drones bombardeiros e kamikazes, incluindo um conceito de container para fabricação de drones com manufatura aditiva — impressoras 3D. 

Trata-se, em essência, de uma fábrica de drones desdobrável em campanha, capacidade que as forças ucranianas desenvolveram empiricamente na linha de frente e que o Exército Brasileiro (EB) está buscando incorporar de forma planejada, com produção descentralizada e resiliente. 

A convergência entre o que a Ucrânia descobriu às duras penas no campo de batalha e o que o Brasil está tentando construir de forma estruturada é um dos aspectos mais reveladores do SSNTFT 2026. As demonstrações confirmam que ambos os lados do conflito ucraniano chegaram, por caminhos distintos, à mesma conclusão operacional — e o Brasil já opera nesse espectro, com objetivos e escala distintos, mas com convergência técnica inegável.

O contexto estratégico: Força 40 e a transformação até 2039

O simpósio não existe no vácuo. Ele é parte de um esforço mais amplo e de prazo longo. A iniciativa é reflexo do Projeto de Transformação do Exército (2024-2039), proposta que visa otimizar a organização da Força, incorporar novas capacidades e aprimorar a doutrina e a formação dos militares. 

O desenvolvimento de mais capacidades tecnológicas também integra o Força 40, processo que visualiza um Exército cada vez mais preparado para as transformações geopolíticas, tecnológicas e climáticas no horizonte do ano 2040. 

Esse esforço tem como objetivo tornar a instituição mais ágil, adaptável, integrada e tecnologicamente avançada para atuar em operações terrestres, aéreas, marítimas, espaciais e eletromagnético-cibernético-cognitivas. A linguagem é técnica, mas o recado é direto: o Exército sabe que a guerra do futuro não se parece com a que treinou no século passado.

Há ainda um processo paralelo em andamento que o SSNTFT ajuda a contextualizar. Desde dezembro de 2025, a DF percorreu um processo de Request for Information com 37 empresas habilitadas — sendo 33 nacionais —, realizou um workshop com a BID e, em março de 2026, lançou o edital de pré-qualificação de Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada de ataque. 

O Brasil está, portanto, não apenas olhando para drones — está construindo o processo de aquisição formal para tê-los operacionais. 

O próximo passo: Rio de Janeiro

De acordo com, o Chefe do DCT, general de exército, Hertz Pires do Nascimento, as demonstrações desta semana foram apenas uma prévia de uma demonstração ainda maior que, ocorrerá no Rio de Janeiro nos próximos meses. 

A escala do que está por vir dará uma dimensão mais precisa do quanto o Brasil avançou — e do quanto ainda precisa avançar para estar alinhado com os padrões de forças que hoje operam drones com autonomia e integração em tempo real em zonas de conflito reais. 

Agora cabe ao Alto Comando e ao DCT definir quais dessas tecnologias serão incorporadas à Força. É nessa decisão — e na velocidade com que ela for tomada — que se definirá se o Brasil será um observador ou um protagonista na nova era do combate terrestre. 

Com informações, fotos e vídeos: Exército Brasileiro, via Instagram

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