Sistema SAR brasileiro cobre 22 milhões de km² e mobiliza esquadrões especializados, helicópteros e aeronaves de patrulha para localizar, socorrer e resgatar vidas em qualquer ponto do território nacional
A Força Aérea Brasileira (FAB) celebrou nesta sexta-feira, 26 de junho, o Dia da Aviação de Busca e Salvamento, data que marca 59 anos do resgate dos sobreviventes do C-47 Douglas FAB 2068, desaparecido na Amazônia em 1967.
A efeméride homenageia os militares do Sistema de Busca e Salvamento Aeronáutico (SISSAR), coordenado pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), que mantêm prontidão permanente para atuar nas vastas dimensões continentais e marítimas sob responsabilidade brasileira.
A data e sua origem: uma frase que atravessou décadas
Em 17 de junho de 1967, o C-47 FAB 2068 desapareceu na Amazônia com 25 pessoas a bordo. Após incansáveis buscas que envolveram 32 aeronaves e mais de 1.100 horas de voo, os destroços foram localizados pelo Albatroz FAB 6539 no dia 26 de junho e, no dia seguinte, os cinco sobreviventes foram resgatados.
Foi então que o sobrevivente Tenente Velly, pronunciou a frase que se tornou emblemática: "Eu sabia que vocês viriam!". Desde então, a data consagrou-se no calendário da FAB como símbolo da missão SAR — do inglês Search and Rescue — e da convicção de que os militares chegarão, independentemente das condições ou da distância.
A prestação do serviço de Busca e Salvamento Aeronáutico e Marítimo atende às normatizações da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) e da Organização Marítima Internacional (OMI), agências das Nações Unidas que regulamentam a aviação e o transporte marítimo globais.
O Brasil, como signatário das convenções dessas instituições, tem a obrigação de manter o serviço SAR no padrão exigido nos 22 milhões de quilômetros quadrados sob sua responsabilidade.
SISSAR: a arquitetura que conecta o alerta ao resgate
O backbone operacional da missão SAR no Brasil é o SISSAR. Quando uma situação de emergência é identificada, os Centros de Coordenação de Salvamento Aeronáutico (SALVAERO) — que funcionam ininterruptamente — avaliam a ocorrência, definem as áreas de busca e coordenam o acionamento dos meios disponíveis.
A rede integra órgãos de controle do espaço aéreo, tripulações, esquadrões especializados da FAB e instituições parceiras.
Para o Major Aviador Victor Hugo Sfredo Saraiva, Chefe da Divisão de Busca e Salvamento do DECEA, a lógica do sistema reside justamente nessa capacidade de encurtar caminhos em situações onde cada minuto conta.
"A principal importância do SISSAR é integrar, de forma organizada e eficiente, todos os elos que podem contribuir para uma missão de Busca e Salvamento. Em uma emergência, o tempo é um fator decisivo, e o Sistema reduz os caminhos entre quem recebe o alerta, quem coordena a missão e quem possui os meios necessários para atuar. Essa estrutura envolve centros de coordenação, unidades aéreas, terrestres e marítimas, equipes de solo, órgãos estaduais e municipais, instituições públicas e privadas, além de sistemas satelitais avançados, como o COSPAS-SARSAT", afirmou.
O Oficial ressaltou que a eficiência na ocorrência real é produto do trabalho silencioso dos períodos de normalidade. "Quando uma emergência acontece, as equipes já conhecem seus papéis, os canais de comunicação e os protocolos a serem empregados, o que torna a resposta mais rápida e eficiente", completou.
Treinamento contínuo como fundamento da resposta operacional
A capacidade de resposta do SAR é sustentada por exercícios operacionais regulares, concebidos para validar procedimentos, fortalecer a interoperabilidade e identificar oportunidades de melhoria em cenários próximos da realidade.
Para o Brigadeiro do Ar James Souza Short, Chefe do Subdepartamento de Operações do DECEA, os exercícios são o elo entre planejamento e execução.
"Nas missões SAR, não existe espaço para improvisação. Quando uma emergência acontece, as equipes precisam estar prontas para agir com rapidez, precisão e coordenação. Todo treinamento realizado hoje representa mais eficiência na missão e aumenta as chances de sucesso quando uma vida depende da nossa atuação", declarou o Oficial-General.
Os vetores da missão: do SC-105 Amazonas aos helicópteros de resgate
A FAB emprega uma frota especializada para cobrir as distintas fases das missões SAR. Na fase de buscas, o SC-105 Amazonas — operado exclusivamente pelo 2º Esquadrão do 10º Grupo de Aviação (2º/10º GAV), o Esquadrão Pelicano — atua com sensores embarcados, radar de abertura sintética e sistemas eletro-ópticos e infravermelhos que ampliam significativamente a capacidade de localizar aeronaves, embarcações ou pessoas em áreas remotas.
Para as fases de resgate e evacuação, entram em cena os helicópteros H-60L Black Hawk e H-36 Caracal, operados pelo 1º/8º GAV (Esquadrão Falcão), 3º/8º GAV (Esquadrão Puma), 5º/8º GAV e 7º/8º GAV.
O H-36, equipado com guincho com capacidade para içar até 272 kg, faróis de busca bilaterais e gancho externo para três toneladas e meia de carga, é referência para operações em ambientes de acesso difícil, inclusive com emprego noturno por óculos de visão noturna (NVG).
Além dos esquadrões de asa rotativa, outras unidades integram o sistema quando necessário: o 1º/7º GAV (Esquadrão Orungan), o 2º/7º GAV (Esquadrão Phoenix), o 3º/7º GAV (Esquadrão Netuno), o 1º/1º GT (Esquadrão Gordo) e o Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento (EAS), o PARA-SAR — unidade com preparo específico para salvamento aeroterrestre, saltos em alto-mar, resgate em ambientes hostis e atendimento pré-hospitalar, capaz de atuar na paz ou na guerra.
O Sargento Especialista Mecânico de Aeronaves Vinícios de Souza Melo, do Pelicano, explicou a dinâmica dos alertas SAR. No período Alfa, de maior probabilidade de acionamento, a tripulação deve estar apta a decolar em até 30 minutos; no período Bravo, o prazo sobe para 50 minutos.
Uma missão do SC-105 Amazonas pode mobilizar cerca de 23 militares, enquanto as aeronaves de asa rotativa operam com equipes de oito integrantes, entre pilotos, operadores e homens-SAR.
"Eu via anjos de resgate": o testemunho que define a missão
A dimensão humana da Aviação SAR raramente emerge em documentos oficiais, mas aparece com força nos relatos de quem a viveu. Após o resgate de dois tripulantes de uma aeronave que caiu na Serra do Mangaval, em Cáceres, em dezembro de 2018, um dos sobreviventes descreveu o momento em que os militares desceram do helicóptero: "Eu não via homens ali, eu via anjos de resgate".
Para o Sargento Vinícios, uma missão realizada em Cuiabá naquele mesmo ano permanece como a mais marcante de sua carreira. Após cinco dias de buscas e cerca de nove horas de voo diárias, na última hora de operação, um detalhe sonoro que somente ele percebeu — ao sobrevoar uma região de morros — levou a tripulação a retornar ao local.
Os sobreviventes de um acidente aéreo foram encontrados com vida. "Encontrá-los com vida foi uma emoção indescritível e um dos maiores presentes que recebi na minha trajetória na Busca e Salvamento", recordou.
O gorro laranja: símbolo de prontidão e pertencimento
Entre os integrantes da Aviação SAR, um elemento identitário une gerações e esquadrões: o gorro laranja. Sua cor remete diretamente aos equipamentos de alta visibilidade utilizados nas operações de sobrevivência e resgate.
Com o tempo, o item transcendeu a função técnica e passou a representar o comprometimento com o treinamento permanente, a confiança entre equipes e a responsabilidade de atuar em momentos nos quais cada minuto pode separar a vida da morte.
Para quem o veste, o gorro carrega a história, as tradições e os valores da comunidade SAR brasileira — e a certeza implícita de que, quando o chamado vier, estarão prontos.
"Localizar! Socorrer! Resgatar! Para que outros possam viver!"






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