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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fim de uma era: AV-8B Harrier II realiza último voo operacional nos Fuzileiros Navais dos EUA

Cerimônia na Carolina do Norte marcou o fim da trajetória operacional do lendário caça de decolagem curta e pouso vertical que revolucionou a aviação expedicionária dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (US Marine Corps) realizou no dia 3 de junho, a cerimônia oficial de despedida da aeronave AV-8B Harrier II, encerrando assim mais de 40 anos de operações de uma das aeronaves mais emblemáticas da aviação militar mundial. 

O evento ocorreu na Base Aérea de Cherry Point (MCAS Cherry Point), na Carolina do Norte, sede do Esquadrão de Ataque VMA-223 "Bulldogs", última unidade operacional equipada com o modelo. Batizada de Sundown Ceremony, a cerimônia homenageou não apenas a aeronave, mas também as gerações de pilotos, mecânicos e militares que serviram ao longo da história do Harrier. 

O evento contou com um voo de despedida realizado por cinco aeronaves, incluindo quatro AV-8B monopostos e um TAV-8B biposto de treinamento. Após a apresentação, os jatos foram recebidos com o tradicional arco d'água, uma das mais conhecidas homenagens da aviação militar.

Embora a operação de combate do Harrier tenha sido oficialmente encerrada, algumas aeronaves ainda deverão ser vistas em voo nos próximos meses durante os deslocamentos para museus e centros de preservação. O VMA-223 permanecerá ativo até setembro, quando será oficialmente desativado.

O caça que redefiniu a aviação  

O Harrier ocupa um lugar singular na história da aviação militar por ter sido o primeiro caça operacional do mundo capaz de realizar decolagens curtas e pousos verticais ou semi-verticais (V/STOL – Vertical and Short Take-Off and Landing).

Originalmente desenvolvido no Reino Unido como Hawker Siddeley Harrier, o modelo entrou em serviço na Royal Air Force em 1969. Pouco tempo depois, o conceito despertou o interesse dos Fuzileiros Navais norte-americanos, que buscavam uma aeronave capaz de operar a partir de bases improvisadas, navios anfíbios e pistas de campanha.

Em 1971, o US Marine Corps incorporou o AV-8A Harrier, tornando-se o maior operador estrangeiro da aeronave. A experiência operacional levou ao desenvolvimento de uma versão profundamente modernizada, o AV-8B Harrier II, fruto de uma parceria entre a norte-americana McDonnell Douglas e a britânica British Aerospace.

A nova variante realizou seu primeiro voo em 1981 e entrou em serviço operacional em 1985, trazendo uma asa redesenhada, maior capacidade de combustível, melhor desempenho aerodinâmico e significativa ampliação da carga bélica transportada.

Presença constante nos principais conflitos das últimas décadas

Ao longo de sua carreira operacional, o Harrier tornou-se uma peça fundamental da doutrina expedicionária dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.

A aeronave participou da Operação Desert Shield e da Guerra do Golfo em 1991, apoiando forças terrestres da coalizão liderada pelos Estados Unidos. Posteriormente, foi empregada nos Bálcãs, no Afeganistão, no Iraque e em diversas missões no Oriente Médio e no Caribe.

Sua principal característica era a capacidade de operar próximo às forças terrestres, reduzindo o tempo de resposta em missões de apoio aéreo aproximado (CAS – Close Air Support). O Harrier podia decolar de navios de assalto anfíbio, bases avançadas e pistas curtas, proporcionando flexibilidade que poucos caças convencionais conseguiam oferecer.

Durante sua evolução, o modelo recebeu diversas atualizações tecnológicas. As versões Night Attack incorporaram sensores avançados para operações noturnas, enquanto os AV-8B Harrier II Plus passaram a utilizar o radar AN/APG-65, o mesmo empregado nos caças F/A-18 Hornet, ampliando suas capacidades de combate ar-ar e ataque de precisão.

F-35B assume o legado do "Jump Jet"

A aposentadoria do Harrier faz parte do plano de modernização da aviação do US Marine Corps, que há anos conduz a transição para o caça de quinta geração F-35B Lightning II.

Assim como seu antecessor, o F-35B mantém a capacidade de decolagem curta e pouso vertical (STOVL – Short Take-Off and Vertical Landing), permitindo operações a partir de navios anfíbios e bases expedicionárias. No entanto, incorpora tecnologias de furtividade, fusão de sensores, guerra em rede e consciência situacional significativamente superiores.

Diversos esquadrões anteriormente equipados com o Harrier já concluíram a conversão para o F-35B. O VMA-223 deverá seguir o mesmo caminho após sua reorganização.

Um legado que permanece na doutrina militar moderna

Mesmo deixando o serviço ativo, a influência do Harrier continua presente nas atuais concepções de emprego da aviação expedicionária.

A capacidade de dispersar aeronaves em múltiplos pontos, operar longe de grandes bases aéreas e manter apoio aéreo próximo às tropas terrestres tornou-se um dos pilares das modernas estratégias de combate distribuído adotadas pelos Estados Unidos.

Atualmente, apenas a Marinha Italiana e a Marinha Espanhola continuam operando o Harrier. Ambas planejam sua retirada gradual até o final da década, sendo substituído pelo F-35B. A Itália, inclusive, já iniciou a incorporação operacional da nova aeronave.

Para muitos veteranos do Corpo de Fuzileiros Navais, entretanto, o encerramento das operações do Harrier representa mais do que a aposentadoria de uma aeronave. Marca o fim de uma era construída por pilotos e equipes de manutenção que dominaram um dos sistemas de armas mais desafiadores e peculiares da história da aviação militar.

Após mais de quatro décadas de serviço, o lendário "Jump Jet" deixa os céus dos Fuzileiros Navais norte-americanos, mas permanece como um dos capítulos mais importantes da aviação de combate contemporânea.



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