Projeto de reestruturação da Joint Base Elmendorf-Richardson prevê a construção de 26 novos edifícios e a expansão do espaço aéreo de treinamento, como parte da reorientação estratégica americana frente à crescente presença militar chinesa e russa no Ártico e no Pacífico
A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), iniciou a implementação de um dos maiores projetos de construção militar já planejados no Alasca.
Com um montante US$ 6,9 bilhões, ja liberado e um pedido inicial de US$ 2 bilhões, o programa batizado de "JBER Fightertown Recapitalization" foi apresentado ao Comitê de Serviços Armados do Senado pelo senador republicano Dan Sullivan, que o descreveu como "uma reestruturação a fim de fornecer, uma nova instalação a caças de última geração, capaz de apoiar múltiplas plataformas agora e no futuro próximo."
A iniciativa prevê a demolição de estruturas da era dos anos 1950 e sua substituição por hangares modernos, centros de operações, instalações de manutenção e infraestrutura de treinamento compatíveis com aeronaves de quinta geração.
As estimativas apontam para a construção de cerca de 26 novos edifícios na base, com o senador Sullivan afirmando que o objetivo é fazer da JBER "provavelmente a base da Força Aérea mais estratégica do planeta Terra."
O maior polo de caças de 5ª geração do mundo
A escolha do Alasca não é arbitrária. O estado já concentra mais de 100 caças de 5ª geração entre F-22 Raptors na JBER e F-35s em Eielson Air Force Base — a maior concentração dessas aeronaves no Alasca, do que em qualquer lugar do mundo.
Somada à posição geográfica privilegiada da região — entre a América do Norte, o Ártico e o Indo-Pacífico —, essa densidade de poder aéreo faz do Alasca um ponto de apoio essencial tanto para defesa do território dos EUA, quanto para a projeção de força em direção à Ásia.
A JBER, sedia o quartel-general da 11ª Força Aérea e da sua 3ª Ala, que opera uma combinação de caças furtivos F-22 Raptor, aviões de alerta aéreo antecipado E-3 Sentry, cargueiros C-17 Globemaster III e aeronaves utilitárias C-12. A base também abriga a 176ª Ala da Guarda Aérea Nacional do Alasca, com C-17 adicionais, aeronaves de busca e salvamento HC-130 Combat King e helicópteros HH-60.
Paralelamente à reestruturação da base, a Força Aérea busca ampliar o espaço aéreo de treinamento disponível. Segundo o coronel Randy Jacobson, diretor de operações da 11ª Força Aérea, o JPARC é considerado "o principal espaço aéreo de treinamento dos Estados Unidos", mas sua configuração atual apresenta deficiências para aeronaves modernas projetadas para combate de longo alcance, como o F-22 e o F-35.
Com uma área de mais de 67.000 NM² e 77.000 NM² de espaço aéreo, o JPARC é o maior campo de treinamento de combate ar, terra e eletrônico instrumentado do mundo. A proposta de expansão inclui novas áreas especiais de atividade sobre o Golfo do Alasca e o oeste do estado, cujo estudo de impacto ambiental deve ser concluído até 2028.
Pressão crescente no Ártico
O impulso por modernizar e expandir a presença americana no Alasca responde diretamente ao aumento das incursões de Rússia e China na região. Desde 2019, foram registradas mais de 100 incursões de aeronaves russas, quatro passagens de embarcações chinesas e mais de uma dúzia de operações conjuntas sino-russas próximas às costas e ao espaço aéreo do Alasca.
O episódio mais significativo ocorreu em julho de 2024. Quatro bombardeiros — dois Tu-95 russos e dois H-6 chineses — voaram a menos de 200 NM da costa do Alasca sem ingressar no espaço aéreo soberano americano, levando o NORAD a acionar F-16, F-35 e CF-18 canadenses para interceptar as aeronaves.
A chegada dos H-6K chineses à Zona de Identificação de Defesa Aérea do Alasca (ADIZ) foi particularmente significativa por representar a primeira vez na história que aeronaves militares chinesas operaram naquela área.
Ainda segundo análises de inteligência, o voo de novembro de 2024 revelou novo nível de ameaça: bombardeiros H-6N, com alcance de 3.700 NM e capacidade de lançar mísseis de cruzeiro KD-21 com alcance estimado de até 1.300 NM, aproximaram-se de Guam em um voo que analistas avaliam como possível simulação de ataque nuclear.
A corrida pela 6ª geração
O programa de modernização do Alasca se insere num contexto mais amplo de competição tecnológica entre Washington e Pequim. A China já testou em voo dois protótipos de caças de sexta geração, provisoriamente designados pelos analistas ocidentais como J-36 (Chengdu) e J-50 (Shenyang), ambos revelados em dezembro de 2024.
O J-36 é o mais imponente dos dois. O caça apresenta configuração trimotor inédita e raio de combate estimado superior a 4.000 km, com capacidade para operar de forma independente sobre o Pacífico ocidental e médio.
Do lado americano, a resposta vem na forma do F-47, desenvolvido pela Boeing no âmbito do programa Next Generation Air Dominance (NGAD).
Segundo Rob Wittman, presidente do subcomitê de forças táticas aéreas e terrestres do Comitê de Serviços Armados da Câmara, o F-47 e o F/A-XX da Marinha não estarão disponíveis antes de meados da década de 2030. As autoridades da Força Aérea estabeleceram como meta o primeiro voo do F-47 em 2028 e a entrada em serviço operacional na década de 2030.
Enquanto isso, o F-47 é visto como o possível centro da "Fightertown" no Alasca, funcionando como multiplicador de força em uma arquitetura de sistemas que integraria aeronaves tripuladas e não tripuladas.
Há ainda a questão do F-35. O programa enfrenta atrasos persistentes na atualização para o padrão Block 4, que concentra as principais melhorias de software e hardware da aeronave para cenários de alto risco. Segundo análises disponíveis, essa atualização foi postergada sucessivamente, com previsão de conclusão agora projetada para o início dos anos 2030.
Contexto estratégico
A Força Aérea americana opera no Alasca com a consciência de que o equilíbrio aéreo no Pacífico está em movimento. A China mantém dois programas de caças de sexta geração em testes simultâneos — algo sem precedente em qualquer outra nação —, enquanto seu bombardeiro estratégico furtivo de alcance intercontinental, atualmente em desenvolvimento, deve entrar em serviço no início dos anos 2030.
A Rússia mantém patrulhas regulares de Tu-95 perto do Alasca há décadas. O projeto "Fightertown", portanto, não é apenas uma atualização de infraestrutura: é a materialização de uma reorientação estratégica americana para um período de competição de grande potências em que a superioridade aérea, por décadas um dado garantido para Washington, precisa ser reafirmada.




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