Argentina retoma produção nacional de munição de grande calibre após décadas de capacidade ociosa, em ensaios conduzidos com 16 disparos em Magdalena
A empresa estatal argentina Fabricaciones Militares, concluiu com êxito, entre os dias 17 e 18 de junho, uma campanha de validação da munição calibre 105 mm TP (HESH) destinada aos veículos de combate Tanque Argentino Mediano (TAM) e o TAM 2C do Exército Argentino (EA).
Os ensaios foram realizados no campo de tiro do Regimiento de Caballería de Tanques 8 "Cazadores Gral. Necochea", na localidade de Magdalena, na província de Buenos Aires, e integram o processo de recuperação de capacidades industriais estratégicas em munições de grande calibre.
O resultado representa um marco para a política de defesa nacional argentina, ao restabelecer uma cadeia produtiva de munição que havia permanecido inativa por anos.
Ensaios em Magdalena confirmam desempenho técnico
O ensaio incluiu 16 disparos efetuados a partir de TAMs e TAMs 2C na sede do Regimento. Segundo os resultados informados pela empresa estatal, a munição alcançou desempenho ótimo e cumpriu os objetivos técnicos previstos para essa etapa.
A Fabricaciones Militares, instalou um laboratório móvel no campo para realizar acompanhamento de cada um dos disparos. O ensaio é denominado "taraje de carga": busca-se a carga de pólvora adequada para que a munição entre em uma especificação de velocidade e pressão.
Além disso, a comprovação incluiu verificações de processo e ensaios de validação que geraram dados sobre força de extração, centramento e trabalho de câmara — parâmetros essenciais para a segurança operacional e a eficiência balística do conjunto.
Os resultados obtidos permitem avançar agora para a elaboração da tabela balística definitiva, etapa necessária antes da homologação operacional da munição pelo Exército Argentino. O Instituto de Investigaciones Científicas y Técnicas para la Defensa (CITEDEF) fornece suporte técnico para a elaboração dessa tabela.
Se a homologação concluir, que os resultados foram favoráveis, a nova munição poderá se integrar à capacidade operativa dos TAM e TAM 2C dentro dos padrões técnicos definidos pelo EA.
Cadeia produtiva reativada após décadas paradas
O projeto envolve o Ministério da Defesa, a empresa Fabricaciones Militares e suas unidades produtivas de Río Tercero, Fray Luis Beltrán e Villa María. A iniciativa compreende a recuperação de processos industriais e conhecimentos estratégicos que haviam permanecido inativos durante anos.
Em Río Tercero por exemplo, foram realizados os trabalhos com a espoleta e a confecção da embalagem; já em Villa María, a fabricação da pólvora; e em Fray Luis Beltrán, os parafusos para porta-espoletas e a montagem final.
Entre as competências reativadas, destacam-se a produção nacional de pólvora de base simples (BD9 A Tipo M1), o acondicionamento de estojos, o recalibrado e fechamento de bocas, o rosqueamento e os controles dimensionais — além da integração eficaz de todos os componentes do sistema de produção.
Os trabalhadores das distintas plantas, especialistas em coletes, armas e munições, não só acompanharam o acionamento de uma forja que não funcionava há décadas, como também estão comprometidos com a busca de clientes e fazem o possível para levar o selo "FM" aonde for necessário, pois sabem que seu trabalho não impacta apenas no PIB do país, mas também é uma questão de soberania.
Autonomia estratégica como objetivo central
O êxito das provas insere-se em um contexto mais amplo de reestruturação da base industrial de defesa argentina.
A recuperação dessa capacidade produtiva constitui um dos principais objetivos da política de fortalecimento da defesa impulsionada pelo Ministério, ao trabalhar na decisão de reconstruir as competências industriais críticas, preservar conhecimentos técnicos especializados e garantir maiores níveis de autonomia no sustento dos sistemas de armas das Forças Armadas.
Em paralelo, desde o final de maio, o EA planeja a aquisição de munição 105 mm para equipar os veículos de combate TAM e SK-105 Kürassier. O acordo de compra entre o Ministério da Defesa argentino e a Fabricaciones Militares é avaliado em um total de US$ 1,708 bilhão.
Em termos gerais, o Exército projeta a aquisição de cerca de 600 munições 105 mm de instrução para os blindados SK-105 Kürassier e projéteis tipo TPCSDS-T para os tanques TAM.
O contexto geopolítico regional e global também pesa sobre essa decisão. A guerra na Ucrânia evidenciou a importância crítica de cadeias logísticas de munição independentes de fornecedores externos, reforçando o argumento em favor de uma base produtiva nacional.
O êxito das provas fortalece o vínculo entre Fabricaciones Militares, as Forças Armadas e o sistema científico e tecnológico da defesa, com a participação da Diretoria de Investigação e Desenvolvimento e da Diretoria de Arsenais do Exército Argentino.
O TAM e sua modernização contínua
O Tanque Argentino Mediano (TAM) é uma família de veículos blindados desenvolvida pela empresa argentina TAMSE para as Forças Armadas argentinas na década de 1970, tendo entrado em serviço em 1979.
Ao longo das décadas, o veículo passou por sucessivos programas de modernização, tendo chegado à variante TAM 2C com melhorias significativas no sistema de controle de fogo e sensores — pacote tecnológico fornecido pela empresa israelense Elbit Systems.
O TAM 2C-A2 é um protótipo adicional do TAM 2C apresentado em maio de 2023, atualmente em fase de testes pelo Exército Argentino.
Integra sistemas de eletrônica e ótica aprimorados em relação ao 2C, com miras panorâmicas, sistema hunter-killer para o comandante e capacidade de rastrear alvos de forma independente do atirador. Está prevista a modernização de 74 unidades TAM e TAM 2C ao padrão TAM 2C-A2 em um período de sete anos, até 2030.
A validação da munição 105 mm produzida domesticamente representa, portanto, um elo fundamental nessa cadeia: de nada adiantaria modernizar os veículos com os mais avançados sistemas de controle de fogo se o abastecimento de munição continuasse dependente de importações sujeitas a incertezas geopolíticas e restrições de mercado.









Nenhum comentário:
Postar um comentário