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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Classe Trump: Marinha dos EUA quer US$ 2 bi para o USS Defiant, mas Congresso trava avanço do programa BBG(X)

Legisladores questionam tecnologia imatura, impacto nos estaleiros nucleares e adequação doutrinária do primeiro navio de batalha americano desde a Segunda Guerra Mundial

A solicitação da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) de quase US$ 2 bilhões para o ano fiscal de 2027 destinados ao desenvolvimento e à aquisição antecipada do couraçado USS Defiant (BBG-1), navio-líder da futura classe Trump, está gerando resistência bipartidária crescente no Congresso americano. 

Em audiências e votações realizadas ao longo de junho de 2026, parlamentares de ambos os partidos questionaram a maturidade tecnológica dos sistemas embarcados, o impacto do programa na já sobrecarregada base industrial nuclear naval e a pertinência estratégica de um grande navio de superfície concentrado diante da doutrina de operações distribuídas que a própria Marinha vem adotando nos últimos anos.

Um programa nascido de anúncio presidencial

O conceito do encouraçado classe Trump foi apresentado pelo presidente, Donald Trump, em 22 de dezembro de 2025, durante evento em seu resort em Mar-a-Lago, na Flórida. O próprio Trump descreveu os futuros navios como os "mais rápidos, os maiores e cem vezes mais poderosos do que qualquer encouraçado já construído". A ambição declarada é de uma frota de 20 a 25 unidades, denominada "Golden Fleet". 

O problema, segundo críticos no Congresso, começou já naquela noite: o representante Joe Courtney, democrata de Connecticut, manifestou incômodo com o fato de o presidente ter anunciado os planos sem nenhuma prova de projeto ou análise prévia, apresentando apenas uma imagem gerada por inteligência artificial durante o evento de lançamento do conceito. 

O orçamento solicitado para o FY2027 inclui US$ 1 bilhão em aquisição antecipada, US$ 837 milhões em pesquisa e desenvolvimento e US$ 134 milhões para trabalhos de projeto — sinalizando que não se trata de um programa de nicho, mas de um investimento de grande porte com ambição de remodelar a frota de superfície americana.

O navio: dimensões inéditas, tecnologia ainda em desenvolvimento

O USS Defiant é projetado para deslocar aproximadamente 35.000 toneladas e tem custo estimado entre US$ 17,6 bilhões e US$ 18,9 bilhões. A aquisição da primeira embarcação está prevista para o ano de 2028, com entrega projetada para o ano de 2036. A estimativa de custo total das três primeiras unidades gira em torno de US$ 43,5 bilhões. 

O projeto prevê uma embarcação de aproximadamente 840 a 880 pés de comprimento — substancialmente maior do que os destroieres DDG-51 Arleigh Burke atualmente em serviço. Em termos de armamento, o BBG(X) deverá contar com 128 células VLS, 12 mísseis hipersônicos CPS e, possivelmente no futuro, um railgun de 32 megajoules e um sistema laser de 600 quilowatts. 

O reator previsto é o A1B, o mesmo utilizado nos porta-aviões da classe Gerald R. Ford — escolha que, como se verá, está no centro das preocupações do Congresso.

O Congresso reage: emendas, relatórios e tentativas de corte

As reações legislativas vieram em cascata ao longo de junho. A House Armed Services Committee aprovou uma emenda do representante Joe Courtney exigindo que tanto o Secretário da Marinha quanto o almirante responsável pelo Programa de Propulsão Nuclear Naval apresentem ao Congresso, até março de 2027, um relatório detalhando os planos de aquisição do BBG(X) e como a Marinha pretende evitar impactos negativos sobre os porta-aviões da classe Ford.

A preocupação com a capacidade industrial é direta: apenas dois estaleiros nos EUA têm capacidade para construir navios de propulsão nuclear, e o HII Newport News Shipbuilding — onde o couraçado seria montado — já acumula atrasos em todos os porta-aviões da classe Ford. 

Há ainda a questão do fornecimento de reatores: existe apenas um fornecedor de reatores nucleares para a Marinha americana, a BWX Technologies, sediada na Virgínia, e os prazos de produção desses sistemas variam entre seis e oito anos — período que, segundo o Congresso, entra em conflito com o cronograma acelerado do BBG(X).

O democrata Adam Smith, de Washington, foi mais longe. Smith propôs uma emenda que zeraria integralmente o US$ 1 bilhão de aquisição antecipada do BBG(X) e redirecionaria os recursos para navios autônomos não tripulados. 

A emenda foi derrotada, mas o debate que provocou revelou a profundidade das divergências. Smith argumentou que o caminho correto é investir em sistemas autônomos menores e mais descartáveis, cujas capacidades evoluem a cada iteração e custam uma fração do que um couraçado desse porte representaria.

A posição foi reforçada pelo representante Seth Moulton, democrata de Massachusetts. Moulton chamou o couraçado de "o pato sentado mais caro da história mundial" e classificou o programa como um "desperdício monumental".

A defesa do programa

Os apoiadores do BBG(X) no Congresso sustentam que a crítica ignora décadas de demanda não atendida por um grande combatente de superfície. O presidente da House Armed Services Committee, o republicano Mike Rogers, do Alabama, refutou as emendas de corte argumentando que os requisitos do couraçado já haviam sido estabelecidos a partir dos estudos para o programa de destroier de próxima geração conduzidos durante o governo Biden.

"Faz décadas que existe um requisito para um grande combatente de superfície", disse Rogers. "Atualmente, não temos um navio com espaço ou energia suficientes para suportar os sistemas de combate de que precisamos para conflitos futuros, como hipersônicos e lasers de energia." 

Do lado da Marinha, o Chefe de Operações Navais, almirante Daryl Caudle, reconheceu a necessidade de cautela no ritmo de desenvolvimento. Caudle afirmou que um dos erros cometidos no passado foi "começar a construir antes de o projeto estar maduro o suficiente" e indicou que a intenção é chegar a pelo menos 80% do projeto concluído antes de realizar a primeira solda. 

O fantasma do Zumwalt e a China no horizonte

A história recente da Marinha americana é pródiga em programas ambiciosos que não se sustentaram. O destróier Zumwalt foi originalmente planejado para uma série de 32 unidades. Foram construídas três. O paralelo inquieta analistas e parlamentares. 

Uma análise preliminar do Congressional Budget Office apontou que o custo do navio-líder pode chegar a mais de US$ 20 bilhões, dependendo do deslocamento final, e que os custos das unidades subsequentes só devem cair para uma faixa entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões após a plena consolidação da linha de produção — o que, por sua vez, depende de uma melhora nas condições da força de trabalho nos estaleiros americanos.

O argumento central da administração Trump para justificar o investimento é a corrida naval com a China. A Marinha Popular de Libertação já é a maior marinha do mundo em número de cascos e segue expandindo sua frota com novos destroieres, submarinos, navios anfíbios e porta-aviões. Para a administração, o BBG(X) representa a resposta americana a esse desafio de longo prazo. 

Mas enquanto o debate segue no Congresso, o USS Defiant ainda não passou de renders e planilhas orçamentárias. A construção, se aprovada sem cortes adicionais, está prevista para começar em 2028 — e o navio só estaria pronto na metade da próxima década.

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