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domingo, 14 de junho de 2026

Bloqueio logístico: como drones ucranianos sufocam a logística militar russa

Campanha com drones Hornet equipados com inteligência artificial e conectividade Starlink causa desabastecimento de combustível, complica rodízio de tropas e força Rússia a interditar rotas para a Crimeia

Uma nova fase da guerra entre Rússia e Ucrânia, está sendo marcada por uma campanha de ataques de médio alcance que vem comprometendo seriamente a logística militar russa nas regiões ocupadas do leste e do sul ucraniano. 


Segundo reportagem do New York Times, publicada no dia 10 de junho, a Ucrânia passou a concentrar esforços em estradas e ferrovias situadas a mais de 160 km da linha de frente, em uma operação batizada pelo governo de Kiev de "logistics lockdown" (bloqueio logístico). 


O esforço utiliza drones, produzidos em larga escala pela própria indústria ucraniana, equipados com motores e baterias aprimorados, sistemas de comunicação via Starlink e capacidades de inteligência artificial para identificação de alvos.

Avanço territorial e queda na atividade militar russa

De acordo com o grupo de pesquisa ucraniano DeepState, maio foi o primeiro mês desde 2023 em que a Rússia registrou perda líquida de território. O general, Oleksandr Syrsky, principal comandante militar da Ucrânia, afirmou que as forças ucranianas recuperaram em maio uma área de quase 100 km², maior do que a perdida no período. 


Analistas apontam que a combinação de ataques na chamada "zona de morte", ao longo da linha de frente, com strikes na faixa intermediária de reabastecimento e ataques de longo alcance dentro do território russo, tem dificultado a geração de impulso pelas forças de Moscou, cujas ofensivas de primavera e verão não obtiveram resultados expressivos até o momento.

Drone Hornet é peça central da nova campanha

O sistema central da campanha é o Hornet. Drone de reconhecimento equipado com sistema de identificação de alvos baseado em inteligência artificial, treinado com milhares de horas de imagens de alvos militares coletadas ao longo do conflito. 


De acordo com informações disponíveis, os drones Hornet são produzidos pela empresa Swift Beat LLC, fundada pelo ex-CEO do Google, Eric Schmidt, com cooperação oficialmente anunciada pela Ucrânia em julho de 2025. Na ocasião, foram divulgados planos de produção de centenas de milhares de drones de diversos tipos até o final de 2025, com aumento projetado para 2026. 


O sistema opera com conectividade via satélites Starlink, a distâncias superiores a 160 km da linha de contato, configuração apontada como mais resistente à interferência eletrônica russa do que sistemas de rádio anteriores.


Por terem carga explosiva relativamente pequena, os drones Hornet não conseguem penetrar depósitos de munição russos fortemente fortificados ou subterrâneos. No entanto, ao contrário de mísseis e bombas, os drones são controlados por um piloto, o que permite às unidades ucranianas atingir caminhões de transporte não blindados e trens. 


Alvos fortificados continuam sendo atacados por outras armas, como bombas guiadas planadora. Segundo informações divulgadas, a Ucrânia anunciou recentemente o primeiro teste bem-sucedido de uma bomba guiada planadora de produção local, capaz de atingir alvos a "dezenas de quilômetros" de distância, incluindo posições fortificadas.

Rota para a Crimeia é o principal alvo da ofensiva

Os resultados mais visíveis da campanha estão concentrados na chamada "ponte terrestre" russa para a Crimeia ocupada, região onde a geografia favorece as forças ucranianas. Moscou depende de um trecho de aproximadamente 300 km de rodovias expostas para abastecer suas tropas na península. 


Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), com sede em Washington, imagens geolocalizadas publicadas no início de maio mostraram forças ucranianas atacando caminhões-tanque e outros veículos de transporte militar ao longo da rodovia T-0509 e nas proximidades de Mariupol, a distâncias superiores a 100 km da linha de frente. 


Imagens adicionais de maio mostraram ataques a pelo menos 35 veículos russos próximos às rodovias M-14 e M-18, na Crimeia ocupada e em Zaporíjia. Em resposta, o governador russo nomeado para a região de Kherson, Vladimir Saldo, assinou em 22 de maio, um decreto suspendendo o tráfego civil em um trecho da rodovia M-14 que liga a região ao posto de fronteira de Dzhankoi, no norte da Crimeia. 


A medida foi associada por analistas ocidentais e ucranianos, aos ataques contínuos a comboios russos na via, que é uma das principais rotas de ligação entre Rostov-on-Don e a península. A única outra conexão entre a Rússia e a Crimeia é a Ponte de Kerch, que já sofreu ataques ucranianos anteriores.

Investimento e ampliação da produção de drones

O ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, anunciou em maio planos de investir mais de US$ 113 milhões no desenvolvimento de armamentos voltados à campanha de bloqueio logístico, com recursos distribuídos diretamente a unidades militares de melhor desempenho por meio do sistema, para aquisição de equipamentos. 


Em nível mais amplo, países europeus destinaram US$ 1,63 bilhão à produção de drones ucranianos neste ano, valor que já supera o total investido em 2025, segundo o Instituto Kiel. Um executivo de empresa ucraniana fabricante do drone de propulsão a jato Bars, informou que, em 2024, a companhia recebeu um contrato para produzir 112 drones de ataque de longo alcance naquele ano. 


O contrato mais recente, segundo o mesmo executivo, é para 25 mil drones com capacidade de ataque de médio e longo alcance. Segundo informações disponíveis, empresas ucranianas concordaram em compartilhar avanços tecnológicos e táticos por meio de mecanismo criado pelo Ministério da Defesa do país.

Avaliações de especialistas sobre o momento da guerra

Para Mick Ryan, general reformado australiano e pesquisador do Lowy Institute, em Sydney, essa é a novidade que está realmente prejudicando as forças russas. 


Jack Watling, pesquisador sênior do Royal United Services Institute (RUSI), de Londres, avaliou em artigo publicado na revista Foreign Affairs que a guerra atingiu um ponto de virada, argumentando que, com a piora do desempenho russo no campo de batalha, a Ucrânia teria uma oportunidade para pressionar Moscou em direção a um cessar-fogo. 


Segundo o ISW, as forças ucranianas operam sistemas capazes de afetar as tropas russas em toda a sua profundidade operacional, criando uma janela de oportunidade limitada para a realização de ofensivas mecanizadas, que se tornaram extremamente difíceis devido à ameaça constante de drones.

Desafios permanecem apesar dos avanços

Apesar do cenário considerado favorável para Kiev, desafios significativos persistem. A Rússia continua atacando cidades do leste ucraniano que sustentam a defesa do Donbass, região mais cobiçada pelo Kremlin. 


Após uma campanha intensa de ataques à infraestrutura energética ucraniana no último inverno, há preocupação com uma possível catástrofe humanitária caso o conflito se prolongue por outro inverno rigoroso. 


O presidente, Volodymyr Zelensky, alertou recentemente que o estoque de interceptores de defesa antiaérea Patriot da Ucrânia, atingiu níveis críticos, e que Moscou estaria aproveitando essa vulnerabilidade para intensificar ataques contra Kiev e outras cidades. Segundo militares ucranianos, a manutenção do ritmo atual da campanha depende diretamente da continuidade da escalada na produção de armamentos.

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