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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Há 44 anos, a Força Aérea Argentina transformava um C-130 Hércules em bombardeiro para atacar a logística britânica nas Malvinas

Adaptação improvisada do cargueiro buscou atingir navios de apoio da Royal Navy a grandes distâncias durante a Guerra das Malvinas

Em meio às limitações operacionais impostas pela Guerra das Malvinas, em 1982, a Força Aérea Argentina (FAA) desenvolveu uma das iniciativas mais inusitadas do conflito: a conversão de um avião de transporte Lockheed C-130 Hércules em uma plataforma de bombardeio de longo alcance. A adaptação tinha como objetivo atacar navios logísticos britânicos responsáveis pelo abastecimento da força-tarefa enviada pelo Reino Unido ao Atlântico Sul.

A necessidade surgiu da dificuldade em atingir embarcações de apoio que operavam longe da área de combate, mas desempenhavam papel fundamental na sustentação das operações britânicas. Para os planejadores argentinos, interromper essa cadeia logística poderia reduzir a capacidade de permanência da frota inimiga na região das ilhas.

O trabalho foi realizado sobre o C-130 Hércules matrícula TC-68. Após estudos técnicos, engenheiros e militares argentinos instalaram sob as asas da aeronave dois sistemas MER (Multiple Ejector Rack), originalmente utilizados pelos caças A-4 Skyhawk. A adaptação permitia transportar e lançar bombas convencionais de forma seletiva.

Além dos suportes para armamentos, foi incorporada uma mira adaptada de uma aeronave IA-58 Pucará, enquanto um sistema de disparo foi instalado nos comandos do piloto. Tanques adicionais de combustível também foram posicionados no compartimento de carga para ampliar significativamente a autonomia do avião, permitindo missões a grandes distâncias no Atlântico Sul.

Os trabalhos começaram em 20 de maio de 1982, na Fábrica Militar de Aviões, em Córdoba, e foram concluídos apenas uma semana depois.

A primeira missão operacional ocorreu em 28 de maio. Sob o comando do vice-comodoro Alberto Vianna, a tripulação decolou da Base Aérea de El Palomar com o indicativo “Tigre”. Após quase 12 horas de voo em busca de alvos no Atlântico Sul, o grupo retornou sem localizar embarcações inimigas.

No dia seguinte, a aeronave voltou a ser empregada em uma missão semelhante. Após mais de cinco horas de navegação, o radar detectou um contato que posteriormente foi identificado como o navio-tanque britânico British Wye. Durante o ataque, o Hércules lançou oito bombas de 250 kg.

Segundo os registros da operação, uma das bombas atingiu o navio, mas não detonou devido às condições de lançamento, realizadas em baixa altitude e velocidade reduzida. Outras três explodiram próximas à embarcação, enquanto quatro caíram sem causar danos. Apesar dos resultados limitados, a ação demonstrou aos britânicos que seus navios de apoio poderiam ser atacados mesmo longe da zona principal de combate.

Dois dias depois, em 31 de maio, o TC-68 voltou a patrulhar o Atlântico Sul. Durante a missão, a tripulação identificou uma embarcação que acreditou ser uma fragata britânica Tipo 22. Posteriormente verificou-se tratar do navio logístico Fort Grange. Considerando a possibilidade de enfrentar uma unidade de combate, os argentinos optaram por interromper a aproximação e deixar a área.

Novas missões foram realizadas entre os dias 1º e 4 de junho. Uma delas se destacou por registrar quase 15 horas de voo, tornando-se a missão de maior duração executada pela Argentina durante o conflito.

O ataque ao superpetroleiro Hercules

A última operação do chamado “Hércules bombardeiro” ocorreu em 8 de junho de 1982 e envolveu uma ação coordenada entre o C-130, aeronaves Boeing 707 de reconhecimento e bombardeiros BAC Canberra da II Brigada Aérea.

O alvo era o petroleiro liberiano Hercules, pertencente à United Carriers Inc. e arrendado pela Amerada Hess Shipping Corp. Informações de inteligência argentinas indicavam que a embarcação poderia estar prestando apoio logístico às forças britânicas.

No dia anterior à operação, dois Boeing 707 argentinos localizaram o navio e transmitiram suas coordenadas às aeronaves de ataque. Na manhã de 8 de junho, o TC-68 voltou a decolar de El Palomar, enquanto quatro bombardeiros Canberra partiram da Base Aérea Militar de Mar del Plata.

Ao chegar à área designada, o Hércules aguardou a chegada dos Canberra e forneceu a posição atualizada do alvo. Durante a operação, uma possível ameaça aérea britânica detectada por uma aeronave de apoio levou ao cancelamento do ataque. Mesmo assim, uma das tripulações dos Canberra prosseguiu com a corrida de bombardeio.

Segundo os relatos argentinos, uma bomba atingiu o navio e ricocheteou antes de cair ao mar, enquanto outra penetrou em um dos tanques da embarcação.

Pouco depois, o próprio TC-68 realizou seu ataque. Uma das bombas lançadas atingiu o mastro de popa do petroleiro e ficou presa em uma rede instalada na estrutura da embarcação, sem explodir.

A missão foi encerrada no final da tarde com o retorno das aeronaves às suas bases, marcando a última operação do C-130 argentino em configuração de bombardeiro.

O destino do petroleiro

Após o ataque, o petroleiro Hercules, que navegava a cerca de mil milhas náuticas de Mar del Plata, alterou sua rota e seguiu para o Rio de Janeiro.

Os proprietários da embarcação contestaram a ação argentina, alegando que o navio não participava das operações militares. Posteriormente, autoridades argentinas ofereceram assistência para remover o artefato não detonado, proposta recusada pelo comandante do navio.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, a embarcação foi submetida a inspeção por autoridades militares brasileiras. Devido ao risco representado pela bomba alojada a bordo, o petroleiro foi orientado a deixar o porto.

Posteriormente, a empresa proprietária decidiu afundar o navio em águas internacionais. Em 20 de julho de 1982, escoltado por um navio da Marinha do Brasil, o Hercules foi levado para o oceano aberto, onde acabou sendo afundado a aproximadamente 290 milhas a leste de Florianópolis.

A história do TC-68 permanece como um dos episódios mais singulares da Guerra das Malvinas. Concebido em poucos dias e empregado em missões de extrema distância, o cargueiro adaptado demonstrou a busca argentina por alternativas para atingir a estrutura logística britânica em um conflito marcado por limitações materiais e grande improvisação operacional.

Com informações do Ministério da Defesa da Argentina

* As fotos foram editadas com ajuda de IA

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