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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

OTAN está preparada para a próxima guerra? Lições da Ucrânia acendem alerta entre aliados

Autoridades ucranianas e ocidentais apontam descompasso entre a velocidade de adaptação no campo de batalha e o ritmo de aquisição de sistemas da aliança, enquanto a defesa aérea segue como ponto crítico

Soldados ucranianos da Brigada de Polícia Especial Hyzhak (Predador) preparam-se para lançar um drone de ataque Blyskavka (Relâmpago) contra tropas russas a partir de uma posição próxima à linha de frente, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia, perto da linha de frente na região de Donetsk, Ucrânia, 10 de setembro de 2026. REUTERS/Anatolii Stepanov 

A guerra travada pela Rússia contra a Ucrânia, que já matou centenas de milhares de pessoas, tornou-se também um laboratório involuntário de novas tecnologias militares e reacendeu um debate incômodo dentro da OTAN: a aliança estaria realmente preparada para o próximo grande conflito que possa vir a enfrentar? 

Segundo apuração da agência Reuters, cinco autoridades de defesa ucranianas e ocidentais afirmam que a velocidade das mudanças no front está superando a capacidade de resposta de Washington e dos parceiros europeus, com armamentos e táticas da aliança correndo risco de obsolescência frente a um adversário que se reinventa em questão de semanas.

Descompasso entre adaptação e aquisição

Enquanto a Ucrânia — país que não integra a aliança — ajusta equipamentos e doutrinas em ciclos curtos, a OTAN mantém processos de compra e desenvolvimento que se estendem por anos, e em alguns casos por décadas. 

O cenário se soma à pressão política movida pelo presidente americano Donald Trump sobre os aliados europeus, que resultou em aumentos expressivos nos orçamentos de defesa do continente. 

Paralelamente, o Pentágono revisa atualmente sua presença militar na Europa, após Trump acusar países da região de se beneficiarem da proteção americana sem uma contrapartida proporcional, inclusive na disputa em torno da guerra contra o Irã.

Um dos pontos mais sensíveis do debate é o papel dos blindados pesados. Denys Shtilerman, coproprietário e engenheiro-chefe da Fire Point, uma das principais fabricantes ucranianas de mísseis e drones, declarou à Reuters que tanques hoje seriam "inúteis" diante de um drone de cerca de US$ 5.000 capaz de destruí-los. 

A avaliação, no entanto, não é unânime: analistas militares ouvidos pela reportagem original apontam que os veículos blindados ainda devem manter papel relevante em cenários de combate futuros, mesmo com a proliferação de sistemas não tripulados de baixo custo.

Drones baratos redefinem o campo de batalha

A disseminação de drones acessíveis alterou também a lógica de concentração de tropas. Formações em grupo e comboios extensos, passaram a representar alvos de fácil identificação e engajamento. 

Oleksandr Pivnenko, comandante da Guarda Nacional da Ucrânia, resumiu a percepção sobre as forças internacionais com as quais suas unidades treinaram no último ano: a capacidade de assalto, a posições fixas é elevada, mas a exposição a um drone não detectado sobre a tropa, pode ser fatal para um esquadrão inteiro.

O contraste, ficou evidente em junho, quando a Reuters acompanhou um exercício da OTAN próximo a Paldiski, na Estônia — país báltico que reforça atualmente uma fronteira de cerca de 340 quilômetros com a Rússia. 

Tropas americanas e europeias, simularam o atendimento de dezenas de baixas em hospitais de campanha, mas o exercício partiu da premissa de superioridade aérea garantida sobre as instalações médicas — pressuposto que, segundo especialistas, não se sustenta mais na era dos drones furtivos e de longo alcance.

Ucrânia passa a ensinar, mas burocracia da OTAN trava absorção de lições

Autoridades ucranianas, descrevem uma inversão gradual no fluxo de conhecimento: em vez de apenas receber treinamento e apoio da aliança, Kiev tem assumido papel cada vez maior na transmissão de lições extraídas do confronto direto com as forças russas. 

Ainda assim, essas mesmas fontes relatam resistência estrutural da burocracia militar da OTAN em incorporar tais ensinamentos. 

Um oficial ucraniano, que participou de treinamento de operações psicológicas na Romênia, relatou à Reuters que parte do material didático que à aliança segue, é baseado em estudos de caso da Segunda Guerra Mundial. 

Procurada, a OTAN, não respondeu às críticas sobre seus métodos de treinamento e sua estrutura burocrática.

Defesa aérea: a vulnerabilidade mais difícil de resolver

Segundo autoridades da aliança, o ponto mais delicado exposto pelo conflito é a defesa aérea e antimísseis. Os bombardeios russos, contínuos contra centros urbanos ucranianos, escancararam a dependência europeia de sistemas americanos sofisticados, no caso do Patriot, empregado pela primeira vez em combate na Guerra do Golfo de 1991. 

A Ucrânia enfrenta escassez crítica de interceptores Patriot, munições essenciais para neutralizar ameaças em aproximação.

Diante do temor, de que essa dependência se converta em vulnerabilidade estratégica, países europeus avançam no desenvolvimento de alternativas fora do eixo americano. 

Kiev aguarda, a entrega do sistema franco-italiano SAMP/T-NG, projetado para interceptação de mísseis balísticos — a França se comprometeu a acelerar o envio, com chegada estimada, segundo diplomatas europeus ouvidos anteriormente pela Reuters, para a próxima primavera europeia.

Em nota, o Ministério da Defesa da Ucrânia, classificou o uso ucraniano de drones e de guerra radioeletrônica como "inigualável globalmente" e reconheceu os esforços europeus de apoio no enfrentamento aos ataques russos com mísseis e drones, destacando a troca mútua de conhecimento entre as forças ucranianas e da OTAN.

Coalizão Freyja busca alternativa própria ao Patriot

Em julho, Ucrânia e nove países aliados europeus lançaram uma coalizão de defesa aérea com plano de desenvolvimento conjunto de um novo sistema antimísseis balísticos, batizado de Freyja. 

O projeto, reúne um consórcio de cerca de uma dezena de empresas, tendo a Fire Point como principal parceira do setor privado. A meta declarada é produzir um sistema mais barato e de fabricação mais rápida que o Patriot, assegurando controle europeu — e não americano — sobre sua produção.

"Se você gasta US$ 20 bilhões no seu sistema de defesa aérea, precisa ter independência em sua segurança", resumiu Shtilerman, da Fire Point.

Matéria com informações da Reuters, assinada por Daniel Flynn, Max Hunder e Olena Harmash.

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