Entrega final ocorreu em julho, na fábrica da Bell em Amarillo, no Texas; frota deve seguir voando até 2055 enquanto o Corpo de Fuzileiros Navais já projeta a substituta, o programa Next Generation Assault Support (NGAS)
O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) recebeu, na terça-feira, 28 de julho de 2026, o último de seus 359 aeronaves MV-22B Osprey, encerrando formalmente o programa de aquisição do tiltrotor iniciado há quase duas décadas.
A cerimônia de entrega ocorreu na planta da Bell em Amarillo, no Texas, marcando a transição do programa da fase de produção para a de sustentação e modernização da frota, que deve permanecer operacional até 2055.
Enquanto isso, a Marinha e os Fuzileiros já avaliam os requisitos para uma aeronave substituta, batizada de Next Generation Assault Support (NGAS).
Quase 20 anos depois de o MV-22B Osprey alcançar sua capacidade operacional inicial, em junho de 2007, o USMC recebeu formalmente a última unidade do tiltrotor, fechando o programa de registro em 359 aeronaves.
A entrega, realizada no complexo de montagem da Bell em Amarillo, no Texas, foi acompanhada por autoridades do Corpo de Fuzileiros Navais e executivos da parceria industrial Bell Boeing.
Desenvolvido para unir as capacidades de decolagem e pouso vertical de um helicóptero à velocidade e ao alcance de uma aeronave de asa fixa, o MV-22B tornou-se, ao longo de quase duas décadas, a espinha dorsal do transporte aéreo de assalto dos Fuzileiros Navais, substituindo principalmente o veterano CH-46 Sea Knight, apelidado de "Phrog".
Autodeslocável e capaz de voar por conta própria entre continentes, o tiltrotor supera em alcance e velocidade qualquer outra aeronave de asas rotativas disponível ao Corpo, além de poder pousar em navios e em posições austeras de difícil acesso, onde aeronaves de asa fixa não operam.
Mudança na forma de projetar operações
Segundo o tenente-general William Swan, vice-comandante de Aviação do USMC, o MV-22B não apenas se somou à frota existente, mas transformou a maneira como o Marine Air-Ground Task Force (MAGTF) gera poder de combate.
Swan afirmou que a aeronave oferece aos comandantes um espaço de decisão que somente velocidade e alcance permitem, conectando navios, bases e forças distribuídas de maneiras que gerações anteriores só podiam imaginar — e que, atualmente, as operações dos Fuzileiros já são planejadas partindo do pressuposto de que o Osprey estará disponível.
De acordo com o comunicado oficial do Corpo de Fuzileiros Navais, a frota de MV-22B já acumulou mais de 686.500 horas de voo em 114 implantações operacionais, dando suporte a operações de combate, logística em ambientes contestados, evacuações médicas e assistência humanitária a partir de posições avançadas ao redor do globo.
Atualmente, o Osprey é responsável por 75% de todo o apoio de assalto de asas rotativas do Corpo de Fuzileiros Navais.
Histórico de acidentes e escrutínio
O sucesso operacional do Osprey, no entanto, veio acompanhado de um histórico de acidentes que elevou o escrutínio sobre o programa ao longo dos anos.
Segundo levantamento do Congressional Research Service (CRS) referente a julho de 2025, 65 militares e civis morreram em acidentes envolvendo aeronaves da família V-22, sendo 30 mortes anteriores a 2007 — quando a aeronave ainda não havia sido declarada operacional — e 35 mortes registradas depois dessa data.
Desde 2022, quatro acidentes fatais envolvendo V-22 mataram 20 militares e feriram outros 20. A frota chegou a ser suspensa de operações por cerca de três meses em 2024, na sequência da queda fatal de um CV-22 da Força Aérea dos EUA na costa do Japão, ocorrida em 29 de novembro de 2023.
Fontes adicionais também apontam que um dos acidentes mais graves, em junho de 2022, com cinco fuzileiros navais mortos, foi atribuído a uma falha mecânica conhecida como engate rígido de embreagem ("hard clutch engagement"), problema que levou à suspensão temporária de toda a frota Osprey das três forças em 2023.
Segundo o USMC, nenhum novo caso desse tipo de falha foi registrado desde fevereiro de 2023, mas a aeronave segue operando sob restrições de alcance vinculadas à caixa de engrenagens do rotor (Proprotor Gearbox), componente responsável por transferir potência dos motores para as hélices.
Modernização até 2055
Com a entrega da última unidade, o USMC passa agora da fase de aquisição para a de sustentação e evolução da frota ao longo das próximas três décadas.
Segundo o Corpo, os esforços de modernização estão concentrados na melhoria da fiação das naceles para reduzir horas de manutenção, no desenvolvimento de caixas de engrenagens do rotor mais resistentes, fabricadas com aço refinado por triplo processo de fusão, na padronização das configurações das aeronaves em toda a frota e na reformulação de componentes-chave para aumentar a segurança e a sustentabilidade operacional do Osprey.
"Não podemos presumir que, por o MV-22B ter transformado a aviação dos Fuzileiros Navais uma vez, sua evolução está completa", disse Swan. "É nossa responsabilidade dar continuidade a esse legado e garantir que esta aeronave permaneça pronta, relevante, segura e letal para os combates futuros."
O Plano de Aviação de 2026 do USMC também prevê planos concorrentes de modificação para fornecer melhorias contínuas à plataforma. Segundo o documento, informado pelo estudo Renewed V-22 Aircraft Modernization Plan (ReVAMP), conduzido pelo Center for Naval Analysis (CNA).
O USMC busca garantir a relevância e a confiabilidade da plataforma até o fim da vida útil da frota V-22, ao mesmo tempo em que desenvolve os requisitos para a aeronave Next Generation Assault Support.
Programa NGAS e o cenário do Pacífico
O plano de aviação oferece poucos detalhes sobre o programa NGAS até o momento, mas maior alcance e velocidade — fatores essenciais para cobrir as vastas distâncias do Oceano Pacífico com mais rapidez — devem ser considerações centrais no desenvolvimento da futura aeronave, sobretudo diante da perspectiva de um conflito de alta intensidade contra a China na região.
O Corpo de Fuzileiros Navais tem destacado sua capacidade de conduzir operações de longo alcance e longa duração com o MV-22 no Pacífico, mas esse tipo de missão impõe desafios operacionais significativos, principalmente relacionados ao reabastecimento aéreo — questões que tenderiam a se agravar ainda mais em um conflito real contra um adversário com capacidades robustas de negação de acesso e área (A2/AD).
Entregas à Marinha e à Força Aérea
Além da frota de MV-22B dos Fuzileiros Navais, o programa V-22 também abastece a Marinha dos Estados Unidos, com o CMV-22, e a Força Aérea, com o CV-22.
Segundo o Naval Air Systems Command (NAVAIR), responsável pela gestão central dos principais programas de aviação da Marinha e dos Fuzileiros Navais e que também lidera o Escritório de Programa Conjunto (JPO) do V-22, a entrega do último CMV-22 da Marinha está prevista para o ano fiscal de 2028.
A Marinha receberá um total de 53 unidades do CMV-22, das quais 42 já haviam sido entregues até a publicação da matéria original. A Força Aérea dos Estados Unidos, por sua vez, já recebeu a totalidade de seus 56 CV-22, com a última unidade entregue em julho de 2025.
O JPO do V-22 também dá suporte a operadores estrangeiros do Osprey, dos quais o Japão é atualmente o único. Em algum momento, outros países chegaram a demonstrar interesse na aquisição da aeronave, mas esse interesse arrefeceu, e a janela para novos contratos internacionais tende a se fechar à medida que a produção do V-22 chega ao fim.
Com menos de uma dezena de unidades ainda em produção, cresce também a expectativa sobre o futuro da planta da Bell Boeing em Amarillo, no Texas, responsável pela fabricação das aeronaves da família V-22.
Ainda que tenha recebido a última unidade do MV-22B, o Corpo de Fuzileiros Navais espera que a aeronave continue sendo a espinha dorsal de suas operações de assalto aéreo de combate pelas próximas três décadas, salvo mudanças drásticas e imprevistas em seus planos de aviação.






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