Teste em águas do Pacífico confirma capacidade de disparo do BGM-109 a partir de navio de guerra japonês, marco histórico para a doutrina de defesa do país
O Ministério da Defesa do Japão confirmou, em comunicado divulgado no dia 30 de julho, que o destróier JS Chōkai (DDG-176), da classe Kongo, realizou no dia anterior o primeiro disparo da história da Marinha japonesa (Japan Maritime Self-Defense Force, JMSDF) com o míssil de cruzeiro BGM-109 Tomahawk.
O teste ocorreu em águas do oceano Pacífico, com apoio da Marinha dos Estados Unidos, enquanto o navio permanece baseado em território americano para receber modificações e treinamento de tripulação voltados à nova capacidade.
O disparo confirma que o Japão passa a integrar um grupo restrito de países que já empregaram o Tomahawk a partir de plataformas navais próprias, reforçando a chamada capacidade de "defesa de contra-ataque" (stand-off defense) que Tóquio vem desenvolvendo desde a mudança em sua doutrina de segurança nacional.
O teste e o que ainda não foi revelado
Segundo a Agência de Aquisição, Tecnologia e Logística do Japão (ATLA), o teste teve como objetivo confirmar que o navio e sua tripulação são capazes de executar toda a sequência de lançamento, incluindo os procedimentos exigidos para a operação do sistema.
A agência, no entanto, optou por não divulgar diversos detalhes operacionais, citando a coordenação com a Marinha dos EUA e a necessidade de proteger as capacidades de defesa do país.
Não foram revelados a localização exata do teste dentro do Pacífico, o tipo de alvo utilizado, o alcance de voo alcançado, os procedimentos de guiamento, o número de mísseis disparados, nem se a variante empregada foi o Bloco IV ou o Bloco V do Tomahawk.
Questionados sobre o motivo de o teste ter ocorrido meses depois da confirmação de que o Chōkai havia concluído as modificações necessárias — anunciada pelo próprio Ministério da Defesa em março —, os responsáveis afirmaram que o período intermediário foi utilizado para verificar os equipamentos recém-instalados e treinar a tripulação nos procedimentos de lançamento.
Um navio, oito ainda por vir
O Chōkai entrou em serviço na JMSDF em 1998 e zarpou da base naval de Yokosuka rumo a San Diego, na Califórnia, em setembro de 2025, para receber as adaptações que o tornariam o primeiro navio da Marinha japonesa apto a operar o Tomahawk. A embarcação deve retornar ao Japão por volta de setembro de 2026, após completar a modernização.
O destróier é o primeiro de um grupo de oito navios Aegis da JMSDF que devem passar pela mesma conversão, incluindo unidades das classes Kongo, Atago e Maya, além de duas embarcações da classe ASEV (Aegis System Equipped Vessel), atualmente em construção.
Como todos esses navios já operam o sistema de lançamento vertical Mark 41 (Mk 41 VLS) em sua versão de célula longa (strike-length), compatível com o Tomahawk, a conversão para a nova capacidade é tecnicamente considerada relativamente simples pelos especialistas do setor.
Origem do programa: resposta a um cenário regional mais hostil
A aquisição do Tomahawk pelo Japão foi finalizada em janeiro de 2024, após uma mudança na postura de defesa do país, que passou a defender a incorporação de capacidades de ataque de maior alcance como medida de autodefesa diante de forças hostis que já possuem munições de longo alcance.
Ao todo, o Japão adquiriu 400 unidades do míssil, em suas variantes Bloco IV e Bloco V, como solução provisória enquanto desenvolve o Type 25 SSM (Míssil Guiado Superfície-Navio Tipo 25), sistema nacional de cruzeiro de longo alcance com baixa assinatura de radar e maior agilidade, que deve se tornar o principal míssil superfície-superfície das Forças de Autodefesa no longo prazo.
A Marinha dos Estados Unidos vem treinando efetivos japoneses na operação do sistema de lançamento do Tomahawk desde março de 2024, dentro do esforço mais amplo de modernização da JMSDF ao longo da década de 2020 — movimento que analistas do setor associam ao propósito de reforçar a soberania japonesa sobre suas ilhas periféricas em meio ao avanço militar de uma China cada vez mais assertiva na região.
Japão entra em clube seleto de operadores do Tomahawk
Com o lançamento do dia 29 de julho, o Japão se torna o terceiro país, além dos Estados Unidos, a disparar um Tomahawk a partir de um navio de superfície — depois da Austrália (dezembro de 2024, a bordo do destróier HMAS Brisbane) e dos Países Baixos (início de março de 2026, a bordo da fragata HNLMS De Ruyter).
É também o quarto país, ao todo, a empregar o míssil fora dos Estados Unidos, atrás apenas do Reino Unido, que até hoje disparou o Tomahawk exclusivamente a partir de submarinos.
O Tomahawk está em serviço na Marinha americana há mais de quarenta anos e é um dos tipos de míssil mais conhecidos mesmo fora do meio da indústria de defesa, podendo ser lançado a partir de navios, submarinos ou plataformas terrestres.
Segundo cautela jornalística necessária diante da falta de confirmação oficial detalhada, não há, até o momento, indicação pública sobre o alcance específico atingido no teste do Chōkai nem sobre a variante exata utilizada.



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