Teste realizado no Campo de Provas de Vidsel marca virada na doutrina aérea sueca, historicamente concentrada em capacidades defensivas
A Força Aérea Sueca lançou, pela primeira vez, um míssil de cruzeiro Taurus KEPD 350 a partir de um caça JAS 39 Gripen C, em teste realizado no dia 21 de agosto no Campo de Provas de Vidsel, na região de Norrbotten, no norte do país.
O disparo, confirmado em vídeo divulgado pela própria Força Aérea Sueca e com imagens creditadas à Administração de Material de Defesa da Suécia (FMV), representa um marco na integração da arma à frota de caças Gripen e caminha para consolidar uma capacidade de ataque em profundidade que o país escandinavo nunca havia possuído.
Marco reconhecido pelo comando da Força Aérea
O comandante da Força Aérea Sueca, major-general Jonas Wikman, já havia classificado a chegada do Taurus como uma mudança estrutural para a doutrina aérea do país.
"A capacidade em si é muito importante porque não tínhamos nenhuma capacidade de ataque em profundidade ou de contra-ataque aéreo ofensivo antes", afirmou Wikman em declaração anterior ao teste.
Segundo o oficial, a Suécia historicamente concentrou seus recursos em capacidades defensivas, e a integração do Taurus representa, em suas palavras, "uma grande mudança" para a força aérea do país.
De acordo com informações divulgadas pela FMV, o exemplar utilizado no teste era um míssil de guerra — identificado pela faixa amarela em sua fuselagem —, e não um modelo inerte de instrução, o que reforça o caráter avançado da fase de integração em curso.
Programa começou em 2025 e teve cronograma antecipado
O Taurus KEPD 350 é um míssil de cruzeiro ar-superfície de longo alcance desenvolvido conjuntamente pela Alemanha e pela Suécia, por meio da Taurus Systems GmbH, joint venture entre a alemã MBDA Deutschland e a sueca Saab Bofors Dynamics.
Os primeiros contratos de produção da arma foram firmados em 2002, e o míssil entrou em serviço operacional na Alemanha em 2005, sendo hoje utilizado também por Espanha e Coreia do Sul.
O programa sueco de aquisição e integração do Taurus aos Gripen C/D, no entanto, só foi formalmente anunciado em fevereiro de 2025, com capacidade operacional inicial originalmente prevista para 2028. Em entrevista concedida em dezembro de 2025, Wikman já sinalizava que o cronograma vinha sendo antecipado:
"Reorganizamos as prioridades e o trabalho para garantir que os esforços da indústria, da FMV e da Força Aérea se sobrepusessem o máximo possível, o que resultou no adiantamento do cronograma original, e espero que estejamos operacionais em uma data consideravelmente anterior à inicialmente planejada", disse o comandante à época.
Paralelamente à integração do Taurus, a FMV conduz um programa de modernização de 60 caças Gripen C/D mais antigos, batizado de gestão de obsolescência, que os elevará ao padrão MS20 Block 3, com entregas previstas a partir de 2026, seguido do MS20 Block 4 em 2028.
Arma projetada para alvos endurecidos e enterrados
O Taurus foi concebido para engajar alvos de difícil neutralização por meio de bombas convencionais lançadas por caças, como instalações de comando, bunkers e estruturas reforçadas. Sua ogiva tandem MEPHISTO, de aproximadamente 480 quilos, foi projetada para penetrar o alvo antes de detonar a carga principal, o que a torna particularmente eficaz contra fortificações de concreto e estruturas subterrâneas.
Com alcance superior a 500 quilômetros e velocidade próxima a Mach 0,95, o míssil combina sistema de navegação inercial, GPS, navegação baseada em imagem e acompanhamento de contorno de terreno para manter voo em baixíssima altitude, dificultando a detecção por radares inimigos mesmo em cenários de interferência eletrônica.
Dispersão dos Gripen cria desafio de direcionamento para adversários
A doutrina sueca de emprego dos Gripen prevê a dispersão das aeronaves em bases secundárias e em trechos de rodovias adaptados por todo o território nacional, permitindo que os caças operem sem depender de grandes bases aéreas fixas.
Combinada à nova capacidade de ataque de longo alcance, essa dispersão amplia a dificuldade de um adversário localizar e neutralizar preventivamente os pontos de lançamento, já que os Gripen poderão seguir conduzindo ataques em profundidade a partir de posições dispersas pelo país.


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