Discursões internas sobre substituir o nome do herói de Pearl Harbor no futuro porta-aviões da classe Gerald R. Ford, enquanto a Casa Branca também estuda abandonar o sistema EMALS em favor de catapultas a vapor
A Marinha dos Estados Unidos (US Navy), avalia internamente renomear o quarto porta-aviões da classe Gerald R. Ford, o CVN-81, atualmente designado USS Doris Miller, substituindo-o por USS Donald Trump, segundo reportagem publicada pela CNN em 20 de agosto, com base em três fontes familiarizadas com as discussões internas da força naval.
A possível mudança, que ainda não foi confirmada oficialmente pela Marinha nem pelo Departamento de Defesa, ocorre em paralelo a uma diretiva assinada pelo presidente Donald Trump em 13 de agosto determinando um estudo, com prazo de 60 dias, para substituir o sistema eletromagnético de lançamento de aeronaves (EMALS) e os elevadores avançados de armas do navio por catapultas a vapor e elevadores hidráulicos tradicionais.
As duas discussões — nome e configuração técnica — precisam ser resolvidas antes da cerimônia de assentamento de quilha do CVN-81, prevista para o fim de 2026.
Discussões internas e ausência de decisão oficial
Segundo a CNN, a Marinha já teria deixado de se referir ao navio internamente como USS Doris Miller, usando apenas o número de casco CVN-81 — prática que também aparece na ordem executiva presidencial de 13 de agosto sobre a indústria naval, que cita o navio apenas pelo identificador.
A reportagem foi corroborada por NBC News, USA Today, Newsweek, Military.com e The Hill. Nem a Marinha nem o Departamento de Defesa confirmaram uma decisão final.
Uma fonte disse à CNN que, caso o nome de Miller seja retirado, a Marinha cogitaria batizar outro navio em sua homenagem e recomendá-lo à Medalha de Honra, cuja concessão depende do Congresso e do presidente. Familiares de Miller afirmaram não terem sido informados previamente.
Quem foi Doris Miller
Nascido em Waco, Texas, em 1919, Miller alistou-se na Marinha em 1939 como taifeiro, função então reservada a marinheiros negros.
Durante o ataque a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, socorreu feridos a bordo do USS West Virginia e, sem treinamento, operou uma metralhadora antiaérea até esgotar a munição, sendo oficialmente creditado com dois abates. Em 1942, tornou-se o primeiro afro-americano condecorado com a Cruz da Marinha.
Morreu em 1943, quando o USS Liscome Bay foi afundado por um submarino japonês. Em 2020, durante o primeiro mandato de Trump, o navio foi batizado em sua honra — o primeiro porta-aviões nomeado para uma pessoa negra e para um praça.
Revisão técnica: retorno ao vapor
A diretiva de 13 de agosto prevê substituir o EMALS, da General Atomics, por catapultas a vapor, além de deslocar a ilha do navio cerca de 42,7 metros à frente.
O EMALS oferece maior precisão de lançamento e opera com faixa mais ampla de pesos de aeronaves; reverter ao vapor exigiria instalar toda uma rede de distribuição de alta pressão em uma arquitetura elétrica já em construção.
Em 2023, a Marinha havia contratado a General Atomics em US$ 1,204 bilhão para o sistema completo do CVN-81, com trabalho já avançado até agosto de 2026.
Impacto no cronograma e contexto internacional
Adquirido junto ao CVN-80 por US$ 15,2 bilhões em 2019, o CVN-81 já teve a entrega adiada de 2032 para 2034 por limitações do estaleiro de Newport News — único no país capaz de construir porta-aviões nucleares.
Qualquer alteração de projeto tende a ampliar ainda mais esse atraso, em um momento de pressão sobre a frota, já que os dez porta-aviões da classe Nimitz começam a ultrapassar 50 anos de serviço.
A eventual descontinuação do EMALS ocorreria enquanto a China já opera catapultas eletromagnéticas no porta-aviões Fujian e a França escolheu o mesmo sistema americano para seu futuro PA-NG.
Precedente inédito
Não há regra fixa que exija nomes presidenciais em porta-aviões dos EUA, mas nenhum navio jamais foi batizado com o nome de um presidente em exercício — Reagan e George H.W. Bush, por exemplo, já haviam deixado o cargo havia anos quando receberam essa honraria.
Um USS Donald Trump anunciado durante seu próprio mandato criaria esse precedente inédito, além de reverter uma decisão tomada pela sua primeira administração em 2020.


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