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sexta-feira, 10 de julho de 2026

MBDA apresenta o missil NCM-LCM MK2 e posiciona a Europa para disputar espaço com o Tomahawk

Apresentado na Eurosatory 2026, o novo míssil de cruzeiro europeu com alcance superior a 1.000 km pode ser lançado de terra em menos de 15 minutos e chega em momento estratégico para a OTAN

A MBDA, apresentou na feira Eurosatory 2026, realizada em Paris entre os dias 15 e 19 de junho, o seu mais novo míssil de cruzeiro de longo alcance: o NCM-LCM MK2, sigla para Naval Cruise Missile – Land Cruise Missile

O sistema combina o míssil naval já em serviço na Marinha francesa — o MdCN (Missile de Croisière Naval) — com uma nova capacidade de lançamento a partir de plataformas terrestres móveis, abrindo caminho para que nações europeias adquiram, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, um vetor estratégico terrestre de alcance comparável ao Tomahawk americano.

Da fragata ao caminhão: a evolução do MdCN

O NCM-LCM MK2 não é um projeto do zero. Trata-se de uma adaptação terrestre do NCM, conhecido na Marinha francesa como MdCN, que equipa as fragatas da classe Aquitaine e os submarinos de ataque da classe Suffren. 

A MBDA desenvolveu o armamento como a resposta da França ao Tomahawk, após Paris não conseguir adquirir o míssil americano em 2002. Com uma família tecnológica compartilhada com o SCALP de lançamento aéreo, o MdCN entrou em serviço com a Marinha francesa em 2017 e alcança mais de 1.000 quilômetros. 

O míssil conquistou seu status de combate comprovado em abril de 2018, quando as fragatas Aquitaine, Provence e Languedoc dispararam três unidades contra um local de produção de armas químicas sírias, em ataque coordenado com os Estados Unidos e o Reino Unido. 

A versão MK2 representa um salto qualitativo sobre esse legado. Comparado ao MdCN em serviço, o LCM MK2 introduz quatro melhorias principais: alcance superior a 1.000 km, um novo buscador infravermelho de imageamento para detecção autônoma de alvos, um sistema antijamming de nova geração para operações em ambientes com negação de GNSS, e um perfil de voo e geometria de nariz otimizados para redução da seção transversal radar. 

O novo míssil mantém as dimensões gerais do predecessor — condição essencial para garantir compatibilidade com os lançadores verticais Sylver A70 da Naval Group, presentes tanto em fragatas quanto em submarinos, além de tubos de torpedo de submarinos. 

A seção dianteira receberá aviônica atualizada, com o novo buscador infravermelho para guiagem terminal e sistemas eletro-ópticos para navegação topográfica melhorada, permitindo voo em altitude ainda mais baixa para aumentar a sobrevivência. 

Lançamento em 15 minutos, de qualquer posição

Um dos aspectos mais relevantes do NCM-LCM MK2 é a flexibilidade operacional do seu sistema de lançamento terrestre. Projetado para ser móvel e operacional a partir de posições não preparadas, o LCM pode ser implantado em bateria em menos de 15 minutos, com quatro mísseis prontos para disparo e já carregados a bordo. 

O Ground Launch System (GLS) é um lançador de quatro células montado em caminhão, derivado da arquitetura de lançamento naval vertical. A MBDA e a DGA francesa estão em negociação para um lote inicial. A entrada em serviço está prevista para o início da década de 2030, com o primeiro lançador disponível a partir de 2029. 

Essa capacidade guarda semelhança com o sistema americano Typhon, que adapta o lançador vertical MK 41, presente em navios de guerra da Marinha dos EUA, para uso terrestre com Tomahawks e mísseis SM-6 — exatamente o sistema que a Alemanha tentou, sem sucesso, adquirir dos Estados Unidos.

O vácuo deixado pelo Tomahawk e a pressão do ELSA

O contexto geopolítico é inseparável do lançamento do NCM-LCM MK2. Berlim havia demonstrado interesse em adquirir o Tomahawk como solução de curto prazo para sua lacuna de ataque de longo alcance, mas o negócio não avançou. 

Ao mesmo tempo, vários países europeus pressionam por autonomia estratégica em capacidade de ataque profundo — especialmente desde a invasão russa da Ucrânia em 2022.

O desenvolvimento se encaixa no âmbito da iniciativa ELSA (European Long-Range Strike Approach), lançada em julho de 2024 por Itália, França, Polônia e Alemanha — e à qual Reino Unido e Suécia aderiram em outubro de 2024 —, que tem por objetivo desenvolver um míssil de cruzeiro lançado de terra com alcance de até 2.000 km. 

O NCM-LCM MK2 fica acima do Crossbow, sistema de 800 km apresentado pela MBDA em 2025, e pode alimentar o ELSA enquanto o programa de longo prazo amadurece. Vários governos, incluindo a Alemanha, sinalizaram interesse em opções de prazo mais curto enquanto o ELSA não chega ao campo. 

Até o momento, nenhum cliente foi anunciado publicamente para o LCM MK2, mas a MBDA afirma que vários países da OTAN demonstraram interesse por meio da iniciativa ELSA. A França deve ser a primeira operadora. 

Sobrevivência em ambientes contestados

Diferentemente de armas hipersônicas, que apostam na velocidade extrema, o NCM-LCM sobrevive por ser difícil de detectar. O míssil voa em baixa altitude, seguindo de perto o relevo — colinas, vales e linhas costeiras — para permanecer abaixo da cobertura radar inimiga. 

A seção dianteira remodelada e a aviônica atualizada do MK2 permitem voo ainda mais rasante, ampliando a sobrevivência. O míssil também incorpora características de baixa observabilidade que reduzem sua assinatura radar, tornando a interceptação mais difícil. 

No sistema de guiagem, o NCM-LCM combina navegação inercial, navegação por correlação de terreno, posicionamento por satélite e buscador infravermelho de imageamento. Na fase terminal, o buscador compara a área-alvo com imagens de referência armazenadas, mantendo a precisão mesmo quando os sinais de navegação por satélite são degradados ou indisponíveis. 

O debate estratégico: vale o investimento?

A despeito do entusiasmo em torno do lançamento, analistas do setor levantam questões pertinentes sobre a relação custo-benefício de mísseis de cruzeiro lançados de terra em um conflito de alta intensidade. 

A Rússia, por exemplo, dispõe de mísseis de cruzeiro lançados por seu sistema Iskander, mas tem usado essa capacidade de forma parcimoniosa no conflito na Ucrânia, preferindo o míssil balístico 9M723, mais difícil de interceptar diante das defesas aéreas ucranianas.

Um relatório recente do RUSI (Royal United Services Institute) apontou que mais de 50% dos mísseis de cruzeiro ocidentais de alto desempenho são interceptados na Ucrânia, mesmo quando empregados em pacotes sofisticados que incluem drones de saturação. 

Isso não torna o NCM-LCM MK2 irrelevante — a geração de um vetor de ataque adicional obriga o adversário a distribuir seus recursos de defesa aérea por múltiplas direções —, mas impõe reflexão sobre como governos europeus com orçamentos finitos devem alocar seus investimentos diante de tantas lacunas operacionais a preencher.

A MBDA, por sua vez, já antecipou parte dessa crítica ao apresentar o Deluge, um drone descartável de baixo custo projetado para saturar redes de defesa aérea inimigas e abrir passagem para os mísseis de cruzeiro penetrarem no espaço aéreo contestado — uma resposta operacional direta ao problema da taxa de interceptação.

O primeiro voo de teste do NCM-LCM MK2 está previsto para 2028, com a capacidade de lançamento terrestre disponível a partir de 2029.

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