Estaleiro adota modelo de construção distribuída com seis estaleiros parceiros enquanto o Congresso pressiona pelo desenvolvimento do programa DDG(X) para enfrentar a crescente superioridade naval da China
A empresa naval de construção, Ingalls Shipbuilding da Huntington Ingalls Industries (HII) deu início, no dia 1º de julho, a construção do futuro USS John F. Lehman (DDG 137), o mais recente destroier da classe Arleigh Burke Flight III da Marinha dos Estados Unidos (US Navy).
A construção ocorre em Pascagoula, Mississippi, e marca a sétima embarcação desse padrão aprimorado a entrar em linha de produção na empresa — num contexto em que o governo dos EUA, debate uma urgência no crescimento da capacidade industrial naval americana, diante do ritmo de construção de China e Coreia do Norte.
Radar de nova geração e sistema Aegis Baseline 10
O DDG 137, incorporará o radar de defesa antiaérea e antimíssil AN/SPY-6(V)1 (AMDR), desenvolvido pela Raytheon Missiles & Defense, integrado ao sistema de combate Aegis Baseline 10. Juntos, os dois sistemas representam o maior salto tecnológico já incorporado a um destroier da classe Arleigh Burke desde a criação do programa, na década de 80.
O SPY-6 é o radar mais potente já instalado em um navio de superfície da US Navy, com sensibilidade substancialmente superior ao SPY-1D(V) das variantes anteriores da classe, o que amplia a capacidade de detecção, rastreamento e discriminação de ameaças menores, mais velozes e mais complexas a distâncias maiores.
O impacto prático da mudança foi descrito com clareza por um dos tripulantes do primeiro navio da classe, o USS Jack H. Lucas. O técnico de sonar, Nicholas Cederblom, comparou a transição à diferença entre "um celular antigo e um iPhone": o sistema faz tudo o que o anterior fazia, mas vai muito além — e ninguém mais chegou a esse nível, segundo ele.
O USS Jack H. Lucas foi designado como o navio de campanha inicial de testes e avaliação operacional da Marinha, tendo por objetivo validar as novas tecnologias para toda a frota Flight III.
Modelo distribuído como resposta à escassez de mão de obra
Para construir o DDG 137, a HII adotou uma estratégia que distribui a fabricação de grandes módulos estruturais entre parceiros externos. Seis estaleiros em parceria nos estados do Texas, Louisiana, Mississippi e Flórida estão produzindo as unidades estruturais do navio, enquanto a Ingalls concentra seus recursos na montagem final e integração de sistemas em Pascagoula.
A empresa planeja terceirizar mais de 2,5 milhões de horas de trabalho de construção naval em 2026 como parte dessa estratégia de produção distribuída.
"Nossos construtores na Ingalls trabalharam muito para alcançar o início da fabricação do DDG 137, e ao concentrar nossas equipes e instalações na montagem final e integração, nossos parceiros de construção distribuída estão nos permitindo expandir a frota Flight III", afirmou Chris Brown, gerente do programa DDG 51 na Ingalls Shipbuilding.
Atualmente, a Ingalls tem cinco destroyers Flight III em construção e outros sete em fases iniciais de planejamento e aquisição de materiais. O modelo distribuído foi concebido justamente para aliviar a escassez de mão de obra que historicamente freou o ritmo de produção no principal estaleiro da empresa.
Um projeto de Guerra Fria sob pressão estratégica
A classe Arleigh Burke tem suas raízes na década de 80. O 1º navio da classe, o USS Arleigh Burke (DDG 51), teve sua quilha batida em dezembro de 1988 e foi comissionado em julho de 1991.
Desde então, o projeto passou por três grandes evoluções — Flight I, Flight II e Flight IIA —, sendo o Flight III o mais amplo aprimoramento já realizado, com redesenho profundo nos sistemas elétrico e de resfriamento para suportar as demandas do novo radar.
O problema, no entanto, é que o projeto de base tem décadas, e seus concorrentes chegaram à maturidade com arquiteturas mais modernas. A Marinha Chinesa, opera hoje, dezenas de destroieres das classes Type 052D e Type 055, este último considerado um dos mais avançados do mundo em capacidades de combate superficial, antiaéreo e de longa distância.
A taxa de construção chinesa é estimada entre seis e oito destroiers por ano. A Coreia do Norte, por sua vez, incorporou em junho de 2025 o Choe Hyon, seu primeiro destroier, dotado de capacidades antinavio que, em vários aspectos, superam as dos Arleigh Burke em termos de armamento ofensivo. Pyongyang já anunciou planos para navios de 8.000 e 10.000 toneladas.
Os EUA, por comparação, constroem cerca de 1,6 destroier por ano — ritmo inferior ao norte-coreano e uma fração do chinês. Isso gerou um debate crescente em Washington sobre a viabilidade de terceirizar parte da construção para países aliados com capacidade naval robusta, como Coreia do Sul e Japão.
Congresso aperta o gatilho do DDG(X)
O Comitê de Serviços Armados do Senado direcionou, em junho de 2026, a Marinha a dar continuidade ao desenvolvimento do programa DDG(X), o contratorpedeiro de próxima geração destinado a substituir a classe Arleigh Burke em longo prazo.
A incapacidade de modernizar ainda mais o projeto existente — dado que o espaço físico, a geração de energia e a arquitetura de plataforma da classe têm limites bem mapeados — é apontada como um dos principais fatores por trás da urgência do programa.
O USS John F. Lehman deverá estar entre os últimos navios da classe Arleigh Burke a ter a quilha batida antes que a linha de produção comece a transição para o successor do programa.


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