Tecnologia criada no Instituto Superior Técnico de Lisboa projeta transformação na furtividade de aeronaves militares e drones; Força Aérea Portuguesa participa nos testes finais
Portugal avança em direção a uma das tecnologias mais cobiçadas da defesa contemporânea. O Instituto Superior Técnico (IST) de Lisboa, está desenvolvendo um material à base de grafeno capaz de absorver ondas de radar.
Os resultados da GTechPlasma, estão sendo de grande eficiência. Segundo as estimativas dos próprios pesquisadores, um F-16 revestido com o composto passaria a exibir uma assinatura radar equivalente a de um pássaro — daí o conceito que passou a circular no meio como "F-16 Pássaro".
Paralelamente, um segundo consórcio, liderado pela empresa Controlar em parceria com a Graphenest, desenvolve um filme eletromagnético absorvente batizado de ASTRAL, que já possui marcado testes finais, em cooperação com a Força Aérea Portuguesa (FAP). O cenário coloca Portugal em posição inédita na corrida europeia por tecnologias furtivas de próxima geração.
Grafeno como escudo eletromagnético, não como verniz aerodinâmico
Antes de qualquer análise estratégica, um ponto técnico precisa ser estabelecido com clareza: o que está sendo desenvolvido em Portugal não é um revestimento para reduzir o atrito aerodinâmico da aeronave, como eventualmente têm sugerido descrições simplificadas do projeto.
O objetivo central é a absorção de ondas eletromagnéticas, incluindo sinais de radar, por meio de um material capaz de atenuar a energia emitida pelos sistemas de detecção inimigos em vez de refleti-la de volta à fonte.
Essa distinção é fundamental. Materiais absorvedores de radar — conhecidos tecnicamente como RAM, sigla do inglês Radar Absorbing Material — funcionam reduzindo a chamada Seção Eficaz do Radar (SER, ou RCS em inglês) do alvo.
Quanto menor a SER, mais tarde e de forma menos precisa o inimigo consegue detectar, rastrear e identificar a aeronave. É esse o princípio que sustenta a furtividade do F-35, por exemplo, cujo revestimento é classificado, não pode ser exportado e representa uma das tecnologias mais controladas do mundo ocidental. É exatamente nessa lacuna, que Portugal enxerga sua janela de oportunidade.
A tecnologia de plasma e o controle atômico do grafeno
O GTechPlasma, é uma produto do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do IST, que desenvolveu um sistema de produção de grafeno, baseado em tecnologia de plasma que permite controlar as propriedades do material em nível atômico.
O grafeno, com a espessura de um único átomo, é produzido a partir de precursores como etanol e metano. A chave da inovação está na capacidade de ajustar com precisão o número de camadas, a composição e outras variáveis do material conforme a aplicação desejada.
"Estamos neste momento muito focados no desenvolvimento de revestimentos para absorção de radar e de radiação eletromagnética", declarou Bruno Soares Gonçalves, pesquisador da GTechPlasma, em entrevista à Euronews. Segundo ele, o material foi desenvolvido especificamente para absorver radiação eletromagnética, incluindo ondas de radar — característica essencial para aplicações furtivas.
A empresa afirma ter desenvolvido seis formulações distintas de revestimento para blindagem eletromagnética e aplicações stealth. A patente do dispositivo de produção está registrada nos Estados Unidos, no Japão e na Europa — o que indica tanto o grau de proteção intelectual quanto o interesse geopolítico que a tecnologia já desperta.
Quanto à projeção do "F-16 Pássaro", Gonçalves foi direto: "Nossas estimativas para o que o nosso material pode alcançar é que um F-16 teria a assinatura radar de um pássaro. Isso significa uma enorme redução na assinatura radar, tornando a aeronave invisível e muito mais difícil de detectar."
Mas ainda é necessário observar que, tais estimativas ainda não foram validadas publicamente por ensaios aplicados em uma aeronave real da FAP — trata-se, por ora, de projeção técnica baseada nas propriedades do material em ambiente controlado.
Industrialização e o primeiro cliente de defesa
O GTechPlasma já deu passos concretos em direção ao mercado. Seus dispositivos produzem atualmente 40 miligramas de grafeno de alta qualidade por minuto, e a empresa já tem um parceiro industrial definido para escalar a produção.
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O GTechPlasma tem como objetivo desenvolver revestimentos ou tintas que possam ser aplicados diretamente a drones - Foto: GTechPlasma |
A Plasmaphene, empresa sediada em Vila Viçosa, no Alentejo, foi quem recebeu financiamento do programa europeu Compete 2030 para industrializar a máquina de produção de grafeno de alta qualidade.
Além disso, a GTechPlasma já forneceu 260 gramas do material a um fabricante português de drones — o primeiro contrato concreto de fornecimento para o setor de defesa. O objetivo de médio prazo é deixar de entregar apenas o pó de grafeno bruto e passar a oferecer soluções prontas para aplicação, como revestimentos e tintas que possam ser diretamente utilizadas pelo cliente final.
"O objetivo é fornecer soluções que estejam o mais próximo possível de algo que o cliente possa aplicar, em vez de fornecer apenas um pó que o cliente depois tem de descobrir como integrar", afirmou o representante da empresa.
Projeto ASTRAL: a Força Aérea entra em cena
Enquanto a GTechPlasma avança no lado da produção do material bruto, um segundo projeto consolidou uma frente mais próxima da operacionalização militar. O consórcio responsável pelo projeto ASTRAL é liderado pela Controlar, empresa sediada em Alfena, no Porto, com mais de 30 anos de experiência em sistemas de teste eletrônico, robótica e automação para os setores automobilístico e aeroespacial.
A parceira tecnológica do consórcio no campo do grafeno é a Graphenest, empresa sediada em Sever do Vouga, fundada em 2015 e a única empresa portuguesa com capacidade de produção industrial de grafeno. A Graphenest detém patentes nos Estados Unidos e no Canadá e mantém parcerias com grupos de peso como Mitsubishi e Valeo.
O projeto ASTRAL recebeu financiamento de € 1,86 bilhão pelo programa Portugal 2030 e tem duração prevista de junho de 2026 a maio de 2029. Ao contrário dos revestimentos furtivos tradicionais, que costumam ser pesados, rígidos e sensíveis a variações meteorológicas, o filme desenvolvido pelo ASTRAL é descrito como adaptável a qualquer geometria de aeronave sem comprometer peso ou desempenho estrutural.
A FAP prevê participar nos ensaios finais do projeto, com ênfase na aplicação em veículos aéreos não tripulados de perfil furtivo — segmento que se tornou central nas doutrinas de emprego de força das principais potências militares do mundo.
Vantagem estratégica: o que os EUA têm e a Europa não pode comprar
O contexto geopolítico desta corrida tecnológica é tão relevante quanto os dados técnicos. O revestimento absorvedor de radar utilizado no F-35 é um dos materiais mais controlados das Forças Armadas dos EUA: não pode ser exportado, nem mesmo para aliados da OTAN. Isso cria uma lacuna real nas capacidades europeias de desenvolver e operar aeronaves de baixa assinatura radar com autonomia tecnológica.
"No momento, não existe outra solução na Europa e, em nível mundial, apenas os Estados Unidos têm uma. Mas o material que, por exemplo, reveste o F-35 é um material que não pode ser exportado. Portanto, temos um material 'made in' Portugal com forte potencial de aplicação", afirmou Gonçalves à Euronews.
Além da aplicação direta em aeronaves tripuladas e drones, as tecnologias desenvolvidas pela GTechPlasma e pela Graphenest têm potencial declarado em blindagem eletromagnética para eletrônica embarcada, armazenamento de hidrogênio e separação de terras raras e urânio — materiais estratégicos que figuram no topo das disputas geopolíticas contemporâneas.
Se os projetos cumprirem seus cronogramas e as estimativas técnicas se confirmarem nos ensaios com a FAP, Portugal pode emergir como referência europeia em uma tecnologia que, até agora, estava exclusivamente sob controle americano.


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