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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Team Gen 6: a resposta alemã e espanhola ao fracasso do FCAS e a aposta na Saab como novo eixo da aviação de combate europeia

Após nove anos de impasse industrial entre Airbus e Dassault, Alemanha e França enterram o caça de sexta geração do FCAS na ILA Berlin e abrem caminho para novas alianças — com Espanha, Suécia e, possivelmente, o programa britânico-italiano-japonês GCAP na mesa

O fim do projeto Sistema Aéreo de Combate do Futuro (Future Combat Air System - FCAS) foi oficializado na ultima semana, durante a feira de defesa ILA Berlin, encerrando desta um programa de defesa europeu avaliado em cerca de € 100 bilhões. 

França e Alemanha anunciaram formalmente na abertura da ILA Berlin 2026, que não darão continuidade ao desenvolvimento conjunto de uma aeronave de combate de próxima geração no âmbito do FCAS, encerrando um esforço que havia sido lançado nessa mesma feira, em 2018, e ao qual a Espanha aderiu em 2020. 

O programa nunca chegou a construir um protótipo. Um processo de mediação patrocinado pelos governos concluiu formalmente em 18 de abril que, um caça construído conjuntamente pelas duas nações não era mais viável, e ambos os governos reconheceram não ter mais alavancagem para forçar uma resolução entre os dois parceiros industriais. 

O nó industrial que nunca se resolveu

A raiz do impasse foi essencialmente industrial e nunca política. Diferenças fundamentais de requisitos operacionais agravaram as disputas: a França necessita de uma aeronave capaz de operar a partir de porta-aviões e de entregar armas nucleares, enquanto a Alemanha concentra-se primariamente em superioridade aérea e missões convencionais. 

Desde 2021, a Airbus contestava o modelo de governança proposto pela Dassault para o caça de nova geração, argumentando que o princípio do "melhor atleta" — que reservava à Dassault o papel de prime contractor — restringia o acesso a tecnologias críticas para a base industrial alemã. 

Em março de 2026, o CEO da Dassault, Éric Trappier, acusou a Airbus de não respeitar os acordos anteriores do FCAS. O chanceler, Friedrich Merz, chegou a tentar persuadir Trappier pessoalmente a aceitar uma parceria paritária — sem sucesso. 

"Team Gen 6": a resposta alemã e espanhola

Com o fim do projeto FCAS, a indústria alemã não esperou por uma decisão política para se organizar. Em 11 de junho, oito empresas aeroespaciais e de defesa alemãs assinaram o documento de posicionamento estratégico do "Team Gen 6" na ILA Berlin: Airbus Defence and Space, Autoflug, Diehl Defence, Hensoldt, Liebherr, MBDA Deutschland, MTU Aero Engines e Rohde & Schwarz. 

A Airbus, chamou a assinatura de "um passo empolgante para a soberania europeia" e afirmou que, embora o desenvolvimento do "sistema de sistemas" do FCAS continue como antes, o caça integrado a ele "exige uma nova configuração industrial, ágil".

O documento de posicionamento foi submetido ao gabinete do chanceler Merz e ao ministro da Defesa, Boris Pistorius, com pedido de contratos na segunda metade de 2026. 

A Espanha, seguiu o mesmo caminho de forma coordenada. A indústria espanhola organizou-se em torno do grupo composto por: Indra, Airbus, Grupo Oesía, GMV, ITP Aero e Sener. Madri havia se antecipado ao colapso franco-alemão ao aprovar financiamento para um estudo conjunto Airbus-Indra sobre um futuro sistema nacional de combate aéreo. 

Saab entra no quadro como parceiro preferencial da Airbus

Ao mesmo tempo em que o Team Gen 6 se consolidava, ele ganhou uma aproximação entre a Airbus e a sueca Saab. Segundo fontes consultadas pela Reuters, os dois grupos mantêm conversas exploratórias amplas há pelo menos seis meses, impulsionadas pela melhora das relações de defesa entre Alemanha e Suécia. 

O CEO da Airbus Defence & Space, Michael Schoellhorn, confirmou o interesse: "Há parceiros potenciais, como a Saab. Caberá também à Força Aérea [alemã] definir o que realmente precisa."

Em entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, em dezembro de 2025, o CEO da Saab, Michael Johansson, já havia sinalizado disposição para explorar cooperação com a Airbus caso o FCAS não conseguisse sair do impasse. 

A Suécia havia saído do agrupamento observador do GCAP em 2023, citando divergência entre expectativas e requisitos e custos elevados. Com decisões políticas sobre o sucessor do Gripen previstas para 2030, Estocolmo mantém margem de manobra para se alinhar a um novo consórcio europeu liderado pela Airbus. 

As opções de Berlim e o espectro do GCAP

O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, foi deliberadamente não conclusivo ao apresentar as alternativas de Berlim. Entre as opções sobre a mesa estão a compra de caças F-35 americanos, a adesão ao GCAP britânico-italiano-japonês ou o apoio ao Team Gen 6 como novo caminho europeu. 

O GCAP apresenta limitações práticas para acomodar Berlim: o programa tem um prazo apertado de entrada em serviço em 2035, acordado com o Japão, o que dificulta oferecer à Alemanha mais do que um papel secundário. 

Ainda assim, o CEO da Leonardo, Lorenzo Mariani, disse à Reuters em 9 de junho que, a Alemanha seria um "parceiro particularmente válido" para o programa, e o ministro da Defesa italiano, Guido Crosetto, já havia confirmado anteriormente que a porta permanecia aberta. 

Alemanha e França seguirão desenvolvendo conjuntamente o "sistema de sistemas" — a arquitetura de nuvem de combate e sistemas conectados que forma o segundo pilar principal do FCAS. A divisão de responsabilidades para esse elemento deverá ser discutida no próximo Conselho Ministerial Franco-Alemão, previsto para 17 de julho de 2026. 

O custo estratégico do fracasso

Para analistas do setor, a dissolução do pilar de combate do FCAS não é apenas um revés industrial — é um sinal político de peso. "Demonstra como é difícil alinhar prioridades militares, políticas e industriais", avaliou Douglas Barrie, pesquisador sênior de aviação militar do IISS. 

Com pressão fiscal generalizada na Europa e demanda doméstica insuficiente para diluir custos de desenvolvimento, as potências produtoras de caças continuarão dependentes de alianças — e o surgimento do Team Gen 6 sinaliza que a Airbus pretende liderar a próxima rodada, com ou sem Paris.

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