Exército Brasileiro e Marinha do Brasil unem capacidades técnicas na Restinga da Marambaia para validar protótipo da munição AE-BB destinada ao Batalhão de Artilharia de Fuzileiros Navais
O Centro de Avaliações do Exército (CAEx), instalado no Campo de Provas da Marambaia desde 1948, realizou no dia 8 de junho, uma sessão de testes em colaboração técnica com a Marinha do Brasil (MB) para o desenvolvimento da munição, 105 mm, Alto Explosivo com Alcance Estendido na versão Base Bleed (AE-BB), projetada para o Obuseiro 105 mm L118 Light Gun operado pelo Batalhão de Artilharia de Fuzileiros Navais (BtlArtFuzNav).
As atividades, conduzidas na Linha de Tiro II, reuniram engenheiros militares e técnicos do CAEx, da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM), da Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON) e do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM).
O teste marca mais um ciclo de uma iniciativa que vem sendo estruturada ao longo dos últimos anos.
Em dezembro de 2025, o CAEx já havia realizado atividade semelhante de colaboração técnica com a Marinha para o desenvolvimento do protótipo da munição 105 mm Base Bleed, com alcance estendido, com participação da DSAM, do Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro (CTMRJ), do IPqM, do BtlArtFuzNav e da EMGEPRON.
A rodada de junho consolida o processo iterativo de validação balística que caracteriza o desenvolvimento de munições pesadas.
Tecnologia Base Bleed e o ganho de alcance
A munição AE-BB distingue-se do modelo convencional pelo emprego de um gerador de gás na base do projétil — o base bleed — que queima durante parte da trajetória e reduz a turbulência aerodinâmica na região traseira da granada.
O efeito prático é a diminuição do arrasto de base, o principal fator limitante do alcance em projéteis de artilharia. Essa carga suplementar não tem a finalidade de impulsionar a granada, e sim melhorar o seu coeficiente aerodinâmico, aumentando o alcance do obuseiro L118 Light Gun em 2.900 metros.
O Light Gun, na configuração padrão, atinge alvos a 17,2 km, valor que sobe para 20,6 km com o emprego de munição base bleed.
Para o Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), isso representa uma expansão relevante da profundidade de apoio de fogo durante operações anfíbias — contexto em que o Light Gun é doutrinariamente empregado pelo BtlArtFuzNav.
Radar Doppler e câmeras de alta velocidade
Para validar os parâmetros da nova munição, o CAEx empregou equipamentos de medição que incluíram um Radar Doppler, utilizado para aferir a velocidade do projétil ao longo de sua trajetória. Os números obtidos permitem comparar o desempenho real da munição com os dados teóricos estabelecidos no projeto.
Câmeras de alta velocidade também registraram imagens da trajetória dos projéteis após os disparos, recurso que viabiliza a análise detalhada do comportamento balístico e contribui para garantir que o desenvolvimento alcance padrões internacionais de eficiência, segurança e precisão.
Projeto estruturado em rede acadêmica e financiamento público
Os testes de junho inserem-se num projeto de maior escopo coordenado pelo IPqM. O programa, denominado "Modelagem Aerotermodinâmica, Desenvolvimento de Propelentes, Aviônica e Ferramentas Experimentais para Testes de Projéteis de Alcance Estendido e Foguetes", é desenvolvido em parceria com o Instituto Militar de Engenharia (IME), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Instituto Fraunhofer, com financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) por meio do Programa Pró-Defesa (Edital n.° 36/2023).
A estrutura multidisciplinar reúne instituições militares, universidades públicas e um parceiro alemão de referência em pesquisa aplicada, o que sinaliza a ambição técnica do projeto e seu alinhamento com práticas de desenvolvimento adotadas em programas de munição de alta precisão em outros países.
O Light Gun no contexto dos Fuzileiros Navais
O Obuseiro 105 mm L118 Light Gun, de origem britânica, integra as baterias de obuseiros do BtlArtFuzNav, que presta apoio cerrado e contínuo aos Grupamentos Operativos de Fuzileiros Navais.
O sistema é capaz de bater alvos a 17.2 km, e de atingir posições a 21 km com o emprego de munições especiais. Além disso, o Light Gun pode ser helitransportado ou aerotransportado em razão do seu peso reduzido, além de realizar tiro direto sobre o inimigo — atributos que o tornam particularmente adequado a operações de desembarque.
O desenvolvimento de uma munição AE-BB de produção nacional, representa portanto, um passo estratégico para a autonomia logística do CFN.
A EMGEPRON, é o elo industrial do projeto. A linha 105 mm da EMGEPRON, já prevê a variante AE-BB como munição alto-explosiva com alcance estendido fornecida com carga super, desenvolvida especificamente para o obuseiro L118 Light Gun.
Integração interforças como modelo
A sessão de testes de 8 de junho é também, um exemplo do modelo de cooperação interforças que o Brasil vem aprofundando na área de munições. O CAEx, como organismo central para testes de meios militares, disponibiliza sua infraestrutura — linhas de tiro, instrumentação de rastreamento e equipes de engenharia — para apoiar projetos que extrapolam o escopo do Exército.
Em dezembro de 2023, a EMGEPRON já havia realizado os primeiros testes de tiro da munição 155 mm M107 no CAEx, com resultados satisfatórios, como parte do exame de valor balístico para registro junto à Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército. O padrão se repete agora com o calibre 105 mm, reforçando a Marambaia como polo técnico de referência para a Base Industrial de Defesa brasileira.



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