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terça-feira, 16 de junho de 2026

Eurosatory 2026: maior edição da história transforma Paris no epicentro do rearmamento global

A feira de defesa mais importante do mundo abre suas portas em Paris com recorde histórico de expositores, tecnologias moldadas pela guerra na Ucrânia e um debate político que transbordou para os pavilhões


A Eurosatory 2026 abriu nesta segunda-feira, 15 de junho, as portas do Parc des Expositions Paris-Nord Villepinte com a maior edição em seus 59 anos de história. Com mais de 2.600 expositores de 68 países, onde ocupam uma área superior a 185.000 m² — expansão que exigiu a inauguração de um novo pavilhão para absorver uma demanda sem precedentes. 


Mais de 350 delegações oficiais de 100 nações, estão sendo esperadas ao longo dos cinco dias do evento, que se encerra em 19 de junho. O cenário é o de uma indústria em marcha forçada: o conflito na Ucrânia comprimiu os ciclos de aquisição, redirecionou investimentos e colocou o drone no centro de cada decisão sobre plataformas no salão de exposições. 


O diretor-geral da feira, Charles Beaudouin, falou que a edição de 2026 gira em torno de um imperativo urgente: preparar os exércitos para condições de guerra real, argumentando que muitos sistemas de defesa existentes permanecem mal adaptados ao ritmo e ao caráter dos conflitos de alta intensidade contemporâneos. Essa leitura não é retórica. Ela se materializou nos estandes, nos lançamentos e até nas polêmicas políticas que marcaram a abertura. 


A revolução não tripulada domina o salão


Nenhuma tendência domina a Eurosatory 2026 de forma mais completa do que a maturidade industrial do combate por drones. A guerra na Ucrânia comprimiu os prazos de aquisição, redirecionou os investimentos em defesa e colocou o drone no centro de cada decisão sobre plataformas no salão. 


Fabricantes ocidentais apresentam munições de precisão descartáveis projetadas para emprego em volume. A Rheinmetall irá apresentar sua bomba planador leve, LongClaw, para integração com drones, além de um novo conceito de lançador conteinerizado. 


A KNDS foi além do conceito. A empresa apresentou na abertura da feira um lançador de drones baseado em um contêiner ISO padrão de 20 pés, capaz de lançar tanto drones de ataque quanto interceptores C-UAS. O demonstrador integra os drones de ataque de longa permanência Helsing HX-2 e os interceptores Tytan TI-1 METIS, combinando funções ofensivas e defensivas em uma única rede. 


A França, por sua vez, anunciou uma meta que sinaliza transformação estrutural: o Exército francês planeja equipar cada soldado com capacidade de operação de drones e tem como objetivo colocar 20.000 sistemas não tripulados em campo, um dos programas de modernização militar mais ambiciosos já anunciados por uma força terrestre europeia. 


Dentro da mesma lógica, a França expôs sua viatura blindada de infantaria VBCI 8x8 equipada com camuflagem extensiva e uma estrutura de proteção superior montada na torre, adaptação direta às lições do campo de batalha ucraniano contra ataques de drones de mergulho. 


Leclerc ganha gaiola antidrone — e prazo de validade declarado


Um dos momentos mais simbólicos da abertura foi a exibição do carro de combate Leclerc XLR equipado com uma estrutura metálica sobre a torre. O Exército francês construiu um protótipo da gaiola metálica, que agora está sendo fabricada pela KNDS France e entregue às unidades de blindados, segundo o General Olivier Coquet, chefe da seção técnica do Exército (STAT), em coletiva de imprensa durante a feira. A solução, outrora motivo de escárnio quando adotada por forças russas e ucranianas, agora recebe chancela oficial de Paris. 


A exibição veio acompanhada de uma revelação estratégica: o Leclerc chegará ao fim de sua vida útil por volta de 2035, e o Exército prepara uma plataforma intermediária para cobrir o intervalo até a chegada do Main Ground Combat System (MGCS), previsto para não chegar antes de 2045. O general Philippe de Montenon, comandante das forças terrestres francesas, adiantou que esse blindado intermediário incorporará drones operando de forma orgânica com o veículo.


Artilharia de nova geração: KNDS e MBDA redefinem o alcance


No domínio da artilharia, dois lançamentos concentraram atenções. A KNDS revelou o LORAS (Long Range Artillery System), um demonstrador tecnológico de obuseiro autopropulsado. O LORAS possui um cano de 155 mm, com câmara ampliada para estender o alcance de tiro convencional até 100 km, mantendo a interoperabilidade plena com o arsenal de munições da OTAN. 


Já a MBDA, anunciou na feira que a França selecionou o sistema de artilharia de foguetes MBDA-Safran Thundart para substituir o LRU (Lance Roquettes Unitaires) do Exército francês. O Thundart é um sistema completo, composto por um lançador com torreta integrada e controle de fogo, além de dois pods de munição com quatro foguetes guiados cada, com primeira capacidade operacional prevista para 2029. 


A MBDA também apresentou o NCM-LCM MK2, descrito como um míssil de cruzeiro europeu de muito longo alcance e alto desempenho, além do One Way Effector (OWE), um engenho de voo único com alcance de até 500 km e carga útil de 50 kg, projetado para emprego em salvas coordenadas contra sistemas de defesa aérea adversários. 


Ucrânia chega com 80 empresas e tecnologia de guerra real


A presença ucraniana é um dos fenômenos mais reveladores da edição. A Ucrânia levará 80 empresas de defesa à Eurosatory 2026, contra apenas 10 em 2024, transformando a indústria bélica de Kyev em um dos focos principais do evento. A exposição ucraniana incluirá sistemas da Fire Point ligados a capacidades de ataque de longa distância, entre eles um míssil com alcance de 3.000 km e um veículo aéreo não tripulado com alcance de 1.600 km. 


Para os oficiais europeus de aquisições, o pavilhão ucraniano representa algo que os grandes corredores dos fabricantes tradicionais não conseguem oferecer: um teste de estresse em tempo real de tecnologia contra um adversário capaz de adaptação e emprego em massa. A Fire Point, fabricante ucraniana de armas de longo alcance, também está por trás do programa pan-europeu de escudo antibalístico Freya, o que reforça a dimensão de parceria industrial que Kyiv busca consolidar em Paris. 


Polêmica política: pavilhões israelenses são bloqueados


A edição não escapou de tensões geopolíticas. A direção da Eurosatory bloqueou os pavilhões israelenses com tapumes, mesmo após as empresas israelenses terem atendido às restrições impostas pelos organizadores, que as limitavam a exibir apenas sistemas defensivos, segundo o Ministério da Defesa de Israel. 


O ministério israelense classificou a medida como "cínica, discriminatória e previsível", destinada a excluir a tecnologia israelense — testada operacionalmente diariamente no Oriente Médio — de uma feira internacional. Fontes francesas não responderam a consultas sobre os motivos pelos quais determinadas empresas foram bloqueadas e outras não. 


Robótica terrestre e proteção blindada completam o quadro


Entre os sistemas terrestres não tripulados, as demonstrações dinâmicas da Eurosatory 2026, destacaram plataformas como o Bronco e o Taurus da ST Engineering, o Rider da UNAC, o MRAP M1 da INKAS e os veículos Mission Master SP2 e CXT2 da Rheinmetall, ilustrando como mobilidade protegida, reconhecimento, logística não tripulada e suporte robótico de combate estão remodelando as operações terrestres modernas. 


Na área de proteção blindada, a empresa italiana Leonardo, em parceria com a Rheinmetall, apresentou o NMBT (New Main Battle Tank), o novo carro de combate do Exército Italiano, desenvolvido pela joint venture Leonardo Rheinmetall Military Vehicles (LRMV) a partir da plataforma KF-51 Panther, com profundas alterações para atender às necessidades italianas. 


A Hanwha Aerospace, por sua vez, estreou o Striker-S, um Veículo de Superfície Não Tripulado de médio porte (MUSV), ampliando o portfólio naval da empresa sul-coreana que já apresenta o obuseiro autopropulsado K9A2 e o sistema de foguetes múltiplos Chunmoo. 


O quadro geral da Eurosatory 2026 aponta para uma indústria que não está mais apenas exibindo capacidades — está respondendo, em tempo real, às exigências de uma Europa em processo acelerado de rearmamento, guiada pelas lições do primeiro conflito de alta intensidade do século XXI.

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