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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Força de paz da ONU prepara saída do Líbano enquanto cresce incerteza sobre segurança no sul do país

Encerramento da missão da UNIFIL em 2026 levanta dúvidas sobre estabilidade regional, atuação do Hezbollah e capacidade do Exército libanês

Um veículo blindado da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) circula na entrada da cidade costeira de Tiro, no sul do Líbano, em 30 de abril de 2026. (Mahmoud Zayyat / AFP via Getty Images)

A missão da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) deverá encerrar oficialmente suas operações no fim de 2026, em meio ao aumento da violência no sul do país e a um cenário de crescente instabilidade regional. 

A retirada ocorre após anos de pressão diplomática dos Estados Unidos e apesar de recentes confrontos que já resultaram na morte de seis capacetes azuis da ONU. A decisão foi formalizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em agosto do ano passado, por meio da Resolução 2790. 

O texto também determinou que o secretário-geral da ONU apresente, até 1º de junho deste ano, propostas para a continuidade da implementação das resoluções atualmente supervisionadas pela missão, especialmente a Resolução 1701, adotada após a guerra de 2006 entre Israel e o Hezbollah.

A Resolução 1701 foi responsável por encerrar o conflito daquele ano e ampliou significativamente o mandato da UNIFIL, atribuindo à missão funções como monitoramento do cessar-fogo, garantia de acesso humanitário à população civil e apoio ao deslocamento das Forças Armadas Libanesas para o sul do país.

Missão reúne quase 8.500 militares de 50 países

Atualmente, a UNIFIL mantém cerca de 8.500 militares provenientes de aproximadamente 50 países contribuintes. Criada em 1978, a missão foi inicialmente estabelecida para supervisionar a retirada israelense do território libanês e auxiliar na restauração da paz e da segurança na região.

As operações da força ocorrem exclusivamente em território libanês, ao longo da chamada “Linha Azul”, zona de separação informal entre Israel e Líbano. Além das atividades de monitoramento, a missão também auxilia o governo libanês na tentativa de restabelecer sua autoridade estatal no sul do país.

Segundo a porta-voz da UNIFIL, Kandice Ardiel, os princípios da Resolução 1701 continuarão sendo fundamentais mesmo após a retirada da missão.

“É justamente por isso que o Conselho de Segurança solicitou ao secretário-geral que apresente opções para implementar a Resolução 1701 quando a UNIFIL deixar o Líbano.” Até o momento, o Conselho de Segurança não deu qualquer sinal de revisão da decisão de encerramento da missão, e a própria UNIFIL não participa da elaboração das propostas futuras.

Washington pressiona por maior protagonismo do Exército libanês

A decisão de encerrar a missão foi fortemente impulsionada pelos Estados Unidos, cujos representantes defendem que chegou o momento de as Forças Armadas Libanesas assumirem maior responsabilidade sobre a segurança da região sem dependência da presença internacional da ONU.

No entanto, especialistas consideram a proposta altamente problemática.Com limitações severas de orçamento, efetivo e equipamentos, o Exército libanês enfrenta dificuldades estruturais para impor controle sobre o Hezbollah ou mesmo atuar como força de dissuasão diante das operações militares israelenses.

Analistas alertam ainda que qualquer tentativa de desarmar o Hezbollah pela força poderia provocar novos conflitos sectários internos no Líbano.

Destino das bases preocupa analistas

Com o processo de encerramento em andamento, a UNIFIL já iniciou planos para retirada gradual de pessoal, desativação de instalações e redistribuição de equipamentos militares.

Segundo a professora de ciência política Chiara Ruffa, do Centre for International Studies (CERI), em Paris, algumas instalações podem ser transferidas ao governo libanês. “Com base em experiências anteriores, essas estruturas podem se tornar prédios do Estado libanês, potencialmente utilizados pelas Forças Armadas Libanesas.”

Entretanto, ela alerta que o futuro dessas posições dependerá também das intenções estratégicas de Israel. “Se o objetivo israelense for manter algum tipo de ocupação ou presença prolongada, essas instalações podem acabar sendo utilizadas pelas forças israelenses.”

ONU avalia modelos alternativos de presença internacional

Entre os cenários em análise, especialistas apontam a possibilidade de substituição parcial da UNIFIL por uma estrutura menor vinculada à própria ONU.

Uma das hipóteses seria ampliar o papel do Observer Group Lebanon (OGL), grupo de observadores militares muito mais reduzido que atualmente atua sob supervisão das Nações Unidas.

Ainda assim, as Resoluções 1701 e 1559 deverão continuar servindo como base jurídica para qualquer arranjo futuro no sul do Líbano. Ambas defendem a retirada de forças estrangeiras e o desarmamento de grupos armados não estatais.

Saída da UNIFIL pode ampliar riscos humanitários

Especialistas também avaliam que a retirada da missão terá impactos diretos na proteção de civis e no monitoramento de possíveis violações do direito internacional humanitário.

Além de atuar como elemento de contenção entre Israel e Hezbollah, a UNIFIL frequentemente desempenha papel importante na criação de corredores humanitários e na redução de danos à população civil.

Outro ponto considerado crítico é o possível fim dos mecanismos de coordenação militar estabelecidos pela missão ao longo das últimas décadas.

Entre 2006 e 2023, a UNIFIL promoveu reuniões militares tripartites entre oficiais israelenses e libaneses, ajudando a evitar escaladas em incidentes menores ao longo da Linha Azul.

Impacto econômico também preocupa

A retirada da missão também deverá afetar diretamente a economia do sul do Líbano, região historicamente negligenciada pelo Estado libanês.

Segundo a analista Dina Arakji, da consultoria Control Risks e pesquisadora associada do Middle East Institute, a presença da ONU funcionava como uma importante fonte de renda local.

Além da geração de empregos, a missão mantinha contratos com fornecedores regionais e colaborava com administrações municipais.

Enfraquecimento do sistema multilateral preocupa especialistas

Para pesquisadores internacionais, o encerramento da missão simboliza ainda um enfraquecimento mais amplo do sistema multilateral liderado pelas Nações Unidas.

Chiara Ruffa alerta que o fechamento da UNIFIL transmite uma percepção negativa sobre a eficácia das operações de paz da ONU.

“Encerrar a missão sugere que a ONU não possui relevância na resolução de conflitos, algo que contraria diversas pesquisas que demonstram que, apesar de suas limitações, as missões das Nações Unidas ajudam a reduzir mortes e proteger civis.”

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