Nova combinação com radar AESA pode transformar o tradicional gunship da Força Aérea dos EUA em plataforma de ataque stand-off com alcance superior a 400 milhas náuticas
O Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos (USSOCOM) está se preparando para iniciar testes do AC-130J Ghostrider equipado com o novo míssil de cruzeiro leve AGM-190A Havoc Spear e um radar AESA de varredura eletrônica ativa.
A combinação promete transformar profundamente o perfil operacional do tradicional gunship, ampliando sua capacidade de ataque de precisão para distâncias superiores a 400 milhas náuticas.
As informações foram divulgadas durante a SOF Week 2026, realizada em Tampa, na Flórida, poucos dias após o Air Force Special Operations Command (AFSOC) confirmar oficialmente a designação do novo armamento.
A iniciativa marca uma mudança importante na doutrina de emprego do AC-130J. Historicamente utilizado em missões de apoio aéreo aproximado orbitando áreas de combate em baixa velocidade, o Ghostrider poderá passar a operar em ataques stand-off, permanecendo fora do alcance de grande parte das defesas antiaéreas modernas.
Novo sistema amplia autonomia de detecção e engajamento
O projeto integra um míssil de longo alcance a um radar AESA embarcado, permitindo que a aeronave detecte, acompanhe e ataque alvos sem depender integralmente de plataformas externas para aquisição de dados de alvo.
Além da simples integração de um novo armamento, o programa busca inserir o AC-130J de forma mais profunda nas futuras “kill chains” conjuntas das Forças Armadas dos EUA, conectando sensores, comunicações, sistemas de missão e munições guiadas em uma arquitetura mais resiliente e adaptável para guerras modernas de operações especiais.
AC-130J mantém forte capacidade de apoio aproximado
O AC-130J Ghostrider é atualmente uma das aeronaves de apoio aéreo mais fortemente armadas em operação no mundo.
Baseado na célula do cargueiro C-130J Super Hercules, o modelo recebeu o pacote Precision Strike Package (PSP), que inclui consoles avançados de gerenciamento de missão, sistemas robustos de comunicação, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, além de sofisticados sistemas de controle de tiro.
A aeronave é equipada com quatro motores turboélice Rolls-Royce AE2100D3, cada um produzindo cerca de 4.700 hp, permitindo alcance aproximado de 3.000 milhas antes do reabastecimento em voo. Atualmente, a frota operacional da USAF conta com cerca de 37 unidades do AC-130J.
A tripulação inclui:
- dois pilotos;
- dois oficiais de sistemas de combate;
- quatro aviadores de missão especial.
Essa estrutura permite que o Ghostrider execute processos de aquisição e engajamento de alvos com maior coordenação do que aeronaves de ataque monoposto.
Arsenal atual ainda exige aproximação do alvo
O armamento tradicional do AC-130J é voltado principalmente para:
- apoio aéreo aproximado;
- interdição aérea;
- reconhecimento armado;
- escolta de comboios;
- apoio a tropas em contato;
- defesa pontual.
Entre os sistemas embarcados estão:
- canhão automático de 30 mm;
- obuseiro de 105 mm;
- bombas GBU-39 Small Diameter Bomb;
- GBU-69 Small Glide Munition;
- mísseis AGM-114 Hellfire;
- AGM-176 Griffin.
Embora essas armas permitam ataques de precisão, seus alcances ainda obrigam o AC-130J a operar relativamente próximo da área-alvo, expondo a aeronave a ameaças como:
- sistemas SAM móveis;
- armas antiaéreas de curto alcance;
- MANPADS;
- artilharia pesada.
AGM-190A Havoc Spear amplia alcance para mais de 740 km
O AGM-190A Havoc Spear surge justamente para preencher essa lacuna operacional. Segundo a empresa Leidos, responsável pelo programa, o míssil pertence à classe de 200 libras e demonstrou alcance superior a 400 milhas náuticas — cerca de 740 quilômetros — durante testes realizados a partir de aeronaves C-130.
A arma foi desenvolvida com arquitetura modular e software de sistema aberto, permitindo futuras adaptações de missão. Em março de 2025, um voo de testes realizado a partir de um AC-130J — quando o projeto ainda utilizava a designação “Black Arrow” — validou:
- integração com a aeronave;
- transferência de waypoints;
- precisão de navegação;
- desempenho do sistema;
- integração com o Battle Management System do Naval Surface Warfare Center.
Radar AESA permitirá busca e rastreamento em longas distâncias
Outro elemento central do programa é a instalação de um radar AESA embarcado. Documentos orçamentários do USSOCOM para o ano fiscal de 2027 indicam recursos destinados à aquisição, integração e testes do novo radar no âmbito do Precision Strike Package.
O orçamento prevê:
- US$ 58,8 milhões para atualizações do programa;
- US$ 8,5 milhões para aquisição de um radar AESA;
- US$ 4,6 milhões para instalação;
- US$ 17,3 milhões em atualizações de software e hardware.
A Northrop Grumman deverá fornecer o sistema a partir de sua unidade em Linthicum, Maryland, com primeira entrega prevista para janeiro de 2029. Embora o modelo exato ainda não tenha sido oficialmente confirmado, especialistas apontam o AN/APG-83 SABR como principal candidato.
O radar, derivado de tecnologias empregadas nos F-22 Raptor e F-35 Lightning II, oferece:
- busca aérea e terrestre de longo alcance;
- rastreamento simultâneo de múltiplos alvos;
- mapeamento de alta resolução;
- operação em condições climáticas adversas;
- maior resistência à guerra eletrônica.
Ghostrider poderá atuar fora do alcance de muitas defesas aéreas
Especialistas observam que a nova configuração não transformará o AC-130J em um bombardeiro penetrador stealth. A aeronave ainda dependerá de apoio de inteligência, guerra eletrônica e supressão de defesas inimigas em cenários altamente contestados.
Ainda assim, o novo conceito operacional muda significativamente a forma de emprego do Ghostrider.
Com o AGM-190A, o AC-130J poderá atacar:
- centros de comando;
- radares;
- lançadores de mísseis;
- instalações logísticas;
- embarcações leves;
- alvos sensíveis de oportunidade;
sem precisar permanecer orbitando diretamente sobre a área de combate.
Após os lançamentos, a aeronave ainda poderá continuar fornecendo:
- vigilância;
- retransmissão de comunicações;
- apoio aéreo;
- reconhecimento;
- coordenação tática.
Programa mira cenários do Indo-Pacífico e guerra moderna
Analistas avaliam que a combinação entre o AGM-190A Havoc Spear e o radar AESA responde diretamente às novas exigências operacionais enfrentadas pelos Estados Unidos, especialmente em cenários de alta intensidade no Indo-Pacífico.
Enquanto o míssil amplia drasticamente o alcance ofensivo da aeronave, o radar fortalece sua capacidade orgânica de aquisição de alvos. Já as atualizações do Precision Strike Package integram todo o sistema ao processo de decisão e engajamento da tripulação.
Caso os testes confirmem o desempenho esperado, o AC-130J poderá deixar de ser apenas uma plataforma clássica de apoio aproximado para assumir também funções estratégicas de ataque stand-off em guerras futuras, onde permanecer sobre o alvo já não é mais uma opção viável.



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