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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

NTSB revela conteúdo da caixa-preta do Boeing 767 da Amazon Air que caiu em Miami e matou cinco pessoas

Gravador de voz da cabine mostra alerta de piloto sobre velocidade excessiva minutos antes do pouso fatal em aeroporto internacional

O Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (NTSB) divulgou, na noite desta quarta-feira (9), o conteúdo do gravador de voz da cabine do Boeing 767 de carga da Amazon Air que saiu da pista do Aeroporto Internacional de Miami no domingo (6) e colidiu com dois veículos, deixando cinco mortos. 

Segundo a "atualização da investigação" publicada pelo órgão, um dos pilotos expressou preocupação com a velocidade excessiva da aeronave cerca de dois minutos após receber autorização para pouso, sem que houvesse resposta verbal coerente da tripulação a esse alerta.

A aeronave, um Boeing 767 de 230 mil libras (cerca de 104 toneladas), era operada para a Amazon pela empresa contratada 21 Air e transportava mais de 32 mil libras (acima de 14 mil kg) de carga, composta majoritariamente por lentes de contato, de acordo com o NTSB.

Sequência incomum de pouso e tentativa tardia de arremetida

De acordo com o resumo divulgado pelo NTSB, o piloto fez comentários adicionais sobre a velocidade excessiva ao longo do restante da gravação, mas sem uma resposta verbal coerente por parte da tripulação. 

Após o toque no solo, um dos pilotos chegou a solicitar uma manobra de arremetida — procedimento para abortar o pouso e tentar uma nova aproximação —, mas a aeronave já estava a apenas cinco segundos de ultrapassar o final da pista.

O relatório também apontou o acionamento de diversos alertas automatizados na cabine, parte do sistema de aviso de proximidade com o solo, indicando que a aeronave descia com excesso de velocidade.

Trinta segundos antes do fim da gravação, com o avião a mais de 180 milhas por hora (cerca de 290 km/h), dois dos três trens de pouso — as rodas traseiras direitas e as rodas do trem dianteiro — tocaram a pista. 

O terceiro trem, na parte traseira esquerda, só tocou o solo nove segundos depois — sequência que diverge do procedimento padrão, já que aeronaves são projetadas, e pilotos treinados, para pousar apoiando primeiro as rodas traseiras, segundo Chihoon Shin, investigador principal da NTSB no caso.

Quinze segundos antes do fim da gravação, com a aeronave a quase 225 km/h, os freios das rodas foram liberados e as manetes de potência foram levadas ao máximo, como para decolagem. 

Quatro segundos depois, as manetes retornaram à marcha lenta e os freios foram acionados novamente. A NTSB afirmou que ainda precisa entrevistar a tripulação para entender a manipulação dos comandos de potência nesse intervalo. 

O órgão também informou que não houve indícios de acionamento dos freios aerodinâmicos ou dos reversores de empuxo — sistemas projetados justamente para reduzir a velocidade da aeronave em solo.

Investigação segue com coleta de evidências e entrevistas

Na quarta-feira (9), investigadores da NTSB planejavam entrevistar os pilotos da aeronave acidentada e o piloto-chefe adjunto da 21 Air, segundo informou a presidente do órgão, Jennifer Homendy. 

Um dia antes, equipes já haviam coletado evidências, examinado motores e cabine de comando, recuperado destroços em um estacionamento próximo e visitado tanto a torre de controle de tráfego aéreo quanto o TRACON, centro de aproximação por radar do terminal. 

Investigadores também estiveram no centro de operações da 21 Air em Miami, onde entrevistaram o despachante responsável pelo planejamento do voo entre San Juan e Miami.

Os pilotos foram identificados pelo Gabinete do Xerife de Miami-Dade como Joseph Carol, capitão de 55 anos, com mais de 7 mil horas de voo e certificado para o Boeing 767 desde maio, e Jaime Felipe Silva Molina, primeiro oficial de 37 anos, com mais de 2.500 horas de voo e certificado no modelo desde abril de 2025.

Uma das pistas do aeroporto de Miami segue fechada, embora outra tenha sido reaberta para decolagens na noite de terça-feira. Homendy destacou que a investigação segue focada em evidências perecíveis e que informações preliminares costumam exigir tempo para validação.

Cinco mortos eram funcionários de empresa de limpeza subcontratada

As cinco vítimas fatais trabalhavam para a Professional Ocean Service Corp., empresa de limpeza subcontratada por companhias aéreas, segundo a xerife do condado de Miami-Dade, Rosie Cordero-Stutz. 

Foram identificados como Rolando Alemán León (55), Yoel Rodríguez Naranjo (53), Julio C. Pineda (75), Carlos Acosta Fajardo (53) e Javierkys Reyes Quevedo (47).

A van em que estavam foi atingida em via de serviço do aeroporto, enquanto o avião colidiu ainda com uma cerca, barreiras de concreto e um veículo utilitário esportivo (SUV) do lado de fora do complexo, antes de parar e pegar fogo. 

Três pessoas feridas seguiam hospitalizadas na manhã de terça-feira: Ridoel Averhoff Díaz (32), que estava na van, e Eugenio Corredor (79), que estava no SUV, permanecem em estado crítico; Roosevelt Sebastián Perdomo Torres (36), também na van, está em condição estável.

A viúva de Rodríguez Naranjo, Yaraisi Santiso Morejón, entrou com ação judicial por morte decorrente de negligência contra os pilotos, a Amazon e a 21 Air, segundo o escritório de advocacia Morgan & Morgan. A ação, movida no condado de Miami-Dade, alega que "múltiplas falhas simultâneas contribuíram para a tragédia".

Em nota, a Amazon afirmou cooperar plenamente com o NTSB e demais autoridades, e a Professional Ocean Service Corp. declarou-se "devastada" pela perda de seus funcionários.


Fonte: reportagem original assinada por Aaron Cooper e Pete Muntean, publicada pela CNN em Espanhol e replicada pela CNN Brasil, com base em informações do NTSB (Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos EUA).

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