Programa ACP da Suécia avança com maquete em escala real da aeronave A3 e dois demonstradores tecnológicos já em desenvolvimento, com previsão de entrada em serviço na década de 2030
A Saab apresentou nesta sexta-feira (21), durante evento de celebração dos 100 anos da Força Aérea Sueca na Base Aérea de Malmen, o roteiro completo do programa Autonomous Collaborative Platform (ACP), um drone de combate furtivo e de capacidade supersônica que pode entrar em serviço já na próxima década.
A apresentação, conduzida por Peter Nilsson, chefe da unidade de Programas Avançados da empresa, incluiu uma maquete em escala real da aeronave A3, concebida para operar em conjunto com o caça Gripen E e potencialmente atender outros clientes da Saab no mundo todo.
Uma proposta acima do padrão americano
Segundo a empresa, o novo drone representa uma proposta de padrão superior ao Collaborative Combat Aircraft (CCA), programa em testes nos Estados Unidos. A aeronave A3, maior e mais avançada tecnologicamente, foi projetada para desempenho superior ao dos protótipos que hoje voam em solo americano.
Antes de chegar à sigla ACP, a Saab chegou a utilizar internamente as nomenclaturas CCA e UAS (Unmanned Aerial System). O programa está hoje inserido no projeto sueco KFS — Koncept för Framtida Stridsflygplan, ou Conceito para Aeronave de Combate Futura.
Maquete do A3 mantém arquitetura sem cauda
A maquete apresentada em Malmen, preserva a configuração furtiva sem cauda já mostrada em um conceito divulgado pela Saab em 2024, com capacidade interna significativa para combustível e armamentos.
As entradas de ar do tipo DSI permanecem nas laterais da fuselagem, mas o volume que antes se destacava próximo à posição do bocal do motor foi eliminado do novo desenho. A configuração de fuselagem e asa mescladas, com bordas de ataque em formato de flecha, remete à silhueta do histórico caça Saab Draken, da era da Guerra Fria, conhecido por sua asa em delta duplo.
Dois demonstradores já em voo de teste
Paralelamente à maquete A3, a Saab desenvolve dois demonstradores tecnológicos não tripulados financiados pelo Ministério da Defesa da Suécia: as aeronaves A1 e A2.
Segundo Nilsson, o primeiro voo do A1 está previsto para os próximos 15 meses, dentro de um cronograma que o próprio executivo classificou como "bastante desafiador" — o Ministério da Defesa exigiu que a empresa saísse do conceito ao primeiro voo em até 36 meses.
O A1 utiliza o motor GE Aerospace F414, o mesmo que equipa o Gripen E/F, com cerca de 22.000 libras de empuxo e capacidade de operação supersônica.
Ainda assim, segundo a Saab, o principal objetivo desse demonstrador é comprovar a capacidade da empresa de projetar e voar um drone de baixa observabilidade — a aeronave terá espaço interno para armamentos, mas não será usada em testes de lançamento de munições.
Essa etapa ficará a cargo do A2, que também contará com compartimento interno de armas e servirá para avaliar novos materiais e sensores. A Saab ainda não divulgou imagens do A2, mas Nilsson adiantou que a aparência será "não exatamente" idêntica à do A1.
Semelhança de motor como vantagem operacional
A escolha do F414 para os demonstradores foi justificada pela disponibilidade do motor e pela experiência acumulada pela Saab com o programa Gripen E/F.
A empresa avalia outras opções de motorização para a versão final do A3, mas reconhece que a semelhança com o motor do Gripen representaria vantagem relevante em cenários de manutenção em bases remotas — um dos pilares do conceito operacional sueco, que a Saab pretende preservar no ACP.
Sem contrato de produção garantido
A Saab mantém contrato com o governo sueco até 2030 para o desenvolvimento dos demonstradores A1 e A2. Não há, até o momento, acordo firmado para uma etapa seguinte que leve o programa a um protótipo orientado à produção, como o A3.
"Nós já expressamos a visão de que isso seria um grande ativo para o Gripen E, mas, no momento, não há compromisso firmado", declarou Nilsson.
Na visão da Saab, o Gripen E atuaria como comandante tático de missão para um ou mais ACPs, em conjunto com a aeronave de alerta antecipado GlobalEye, também encomendada pela Suécia. Fora do país escandinavo, o drone poderia operar com outras plataformas tripuladas de clientes internacionais da Saab.
Nilsson afirmou que, na ausência de um cliente confirmado, a empresa pode decidir investir recursos próprios no desenvolvimento inicial do A3, ainda que com limites: "se não surgir um cliente, não sei até quando meu CEO vai me deixar gastar — é preciso um cliente para embarcar nessa ideia".
Missões de alto risco e custo por unidade
De acordo com a Saab, o drone deverá ser capaz de cumprir missões de alto risco em espaço aéreo fortemente defendido, incluindo combate ar-ar, guerra eletrônica, supressão de defesas aéreas inimigas e ataque de precisão em profundidade.
Caso a Suécia decida avançar, um contrato de desenvolvimento poderia ser assinado por volta de 2030, com voo do A3 previsto para o início da década seguinte e capacidade operacional inicial a partir de meados dos anos 2030.
Sobre custos, Nilsson estimou que o ciclo de vida do ACP giraria em torno de um terço do custo do Gripen, embora o valor de aquisição não acompanhe essa proporção. "O problema é que essa maldita aeronave é barata demais", disse o executivo, referindo-se ao próprio Gripen E.
Relatos de fontes abertas apontam um custo de aquisição do Gripen E na faixa de US$ 70 a 80 milhões — um único ACP, segundo a Saab, poderia custar metade desse valor, permitindo a um operador colocar em campo de dois a três drones para cada Gripen, numa proporção que, segundo Nilsson, "não é de um para dez".
Contrato com a Ucrânia reforça o momento da Saab
No mesmo dia da apresentação do ACP, a Saab anunciou contrato para o fornecimento de 16 caças Gripen E à Ucrânia, que devem se tornar a aeronave de combate mais capaz do arsenal ucraniano assim que chegarem ao país. O acordo segue a doação anterior de até 16 unidades do Gripen C/D pela Suécia, com entrega prevista para o início de 2027. Os Gripen E têm entrega programada a partir de 2029.
Futuro do caça tripulado sueco ainda em aberto
A Força Aérea Sueca ainda avalia se buscará um sucessor tripulado para o Gripen, se abandonará esse conceito, ou se aderirá a um programa internacional de caça de sexta geração — decisão esperada entre 2028 e 2030.
Em Malmen, o Brigadeiro-General Niclas Magnusson, comandante-adjunto da força aérea do país, defendeu maior colaboração entre a instituição e a indústria de defesa e afirmou esperar uma força futura composta por plataformas tripuladas e não tripuladas.
A própria Saab enxerga a arquitetura tecnológica desenvolvida para o ACP como base conceitual para um eventual sucessor tripulado do Gripen, demanda que a Força Aérea Sueca deve apresentar após 2055. Havendo interesse, a empresa afirma que o desenvolvimento dessa aeronave poderia começar já em meados da década de 2030.
Uma renderização apresentada durante o evento mostra um conceito com fuselagem e asa mescladas, semelhante ao A3, mas com superfícies de cauda inclinadas para fora montadas em longarinas — um desenho cujo nariz e fuselagem dianteira guardam certa semelhança com o F-35, em porte equivalente ou ligeiramente superior.
Por ora, o programa ACP segue como proposta, sem status de produção confirmada. Ainda assim, a Saab o posiciona como peça central de sua estratégia de longo prazo — tanto como complemento de alto desempenho ao Gripen E quanto como base para o futuro da aviação de combate tripulada sueca.
Matéria original (Saab Unveils Stealthy Supersonic ‘Fighter Drone’ Concept) Fotos: Thomas Newdick
Tradução e Adaptação Textual: DefesaTvNews




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