Inteligência ucraniana confirma que Pyongyang já enviou 40 mísseis e cerca de 90 militares para integrar a 112ª Brigada de Mísseis russa; configuração final será definida em negociações no mês que vem
A Coreia do Norte, iniciou o envio de uma unidade de mísseis balísticos para a Rússia, com previsão de fornecer até 120 mísseis KN-23 e KN-24 e seis lançadores móveis, segundo confirmou a Direção Principal de Inteligência da Ucrânia (GUR) nesta semana.
Cerca de 90 militares norte-coreanos estão sendo deslocados para a região de Voronej, no oeste russo, onde a unidade será incorporada à 112ª Brigada de Mísseis do Exército russo. O porta-voz da GUR, Andrii Cherniak, informou à agência Reuters.
Pyongyang já despachou um primeiro lote de 40 mísseis KN-23 e KN-24, junto com o pessoal responsável por operá-los, mas que a configuração definitiva do destacamento — incluindo o número total de mísseis — só será fechada em negociações de alto nível entre Moscou e Pyongyang previstas para setembro.
Unidade será incorporada à 112ª Brigada russa
Segundo Cherniak, a Rússia planeja basear o contingente norte-coreano na região de Voronej, a cerca de 150 quilômetros da fronteira com a Ucrânia, dentro da estrutura da 112ª Brigada de Mísseis.
A região se consolidou como um polo logístico importante para o esforço de guerra russo, com conexões ferroviárias e rodoviárias que ligam a área a Belgorod, cidade na linha de frente, e a Rostov, base de operações russas no sul e sudeste ucraniano.
Voronej também mantém ligação com Kursk, onde tropas norte-coreanas enfrentaram forças ucranianas entre novembro de 2024 e março de 2025, durante a incursão transfronteiriça lançada por Kiev.
Cherniak não soube precisar qual função exata os militares norte-coreanos exercerão nas operações de mísseis russas — se atuarão diretamente no lançamento dos KN-23 e KN-24 ou apenas em apoio a unidades russas. Essa definição, segundo ele, depende do resultado das conversas bilaterais previstas para o próximo mês.
KN-23 tem semelhança técnica com o Iskander-M
O KN-23 é um míssil balístico de curto alcance, móvel e com capacidade nuclear, testado repetidamente pela Coreia do Norte nos últimos anos. Analistas militares há tempos apontam a proximidade técnica do sistema com o Iskander-M russo, a ponto de autoridades ucranianas classificarem os dois mísseis como funcionalmente intercambiáveis.
A Rússia começou a disparar KN-23 e KN-24 contra alvos ucranianos ainda no fim de 2023, período em que a precisão do sistema era considerada baixa pelas próprias forças ucranianas. Segundo Cherniak, entre o fim de 2023 e agosto de 2025, a Coreia do Norte já havia fornecido cerca de 150 mísseis desse tipo à Rússia.
Esse quadro mudou nos últimos meses. Autoridades ucranianas e ocidentais atribuem o ganho de precisão dos mísseis norte-coreanos à realimentação de dados de combate reais, colhidos no próprio território ucraniano, para os programas armamentistas de Pyongyang.
Ataque em Radushne expõe risco da nova geração de mísseis
O alcance dessa maior precisão ficou evidente no fim de julho, quando um míssil KN-23 atingiu a vila de Radushne, perto de Kryvyi Rih, matando seis pessoas, entre elas três crianças.
O comissário presidencial ucraniano para sanções, Vladyslav Vlasiuk, confirmou posteriormente que investigadores encontraram uma segunda cratera de impacto de KN-23 a cerca de 3,5 quilômetros do local do ataque, em um campo aberto sem qualquer alvo militar aparente — dado que, segundo ele, contradiz a hipótese de desvio acidental da trajetória.
Vlasiuk também afirmou que o KN-23 compartilha componentes com o Iskander-M, incluindo peças de fabricação ocidental, informação compatível com investigações anteriores que rastrearam eletrônicos estrangeiros em mísseis norte-coreanos até redes de evasão de sanções internacionais.
O ataque de julho marcou, segundo Cherniak, o primeiro uso registrado de mísseis balísticos norte-coreanos contra a Ucrânia desde agosto de 2025 — hiato que havia deixado analistas sem clareza sobre o ritmo dos envios de Pyongyang a Moscou.
Produção russa insuficiente pressiona parceria com Pyongyang
A dependência russa de mísseis e munições norte-coreanas reflete dificuldades da própria indústria de defesa da Rússia em acompanhar o ritmo da guerra.
Desde o início do conflito, a Coreia do Norte já forneceu mais de 100 mísseis KN-23 e KN-24 à Rússia, além de milhões de projéteis de artilharia e, segundo estimativas de inteligência ocidental e ucraniana, mais de 10 mil soldados enviados para combater na região russa de Kursk, com cerca de 9.500 permanecendo no local, ainda que não diretamente envolvidos em operações contra a Ucrânia no momento.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou no mês passado que o Kremlin está pressionando a Coreia do Norte para enviar outros 30 mil soldados, além do contingente já presente, com preparativos russos já em curso na região de Voronej para recebê-los.
Caso se confirme, esse número mais que dobraria a contribuição de tropas norte-coreanas confirmada até agora — e reforça a hipótese de que Voronej está se consolidando como um novo polo central da presença militar norte-coreana na Rússia, e não apenas um ponto de trânsito temporário.
Defesa aérea ucraniana sob pressão
A perspectiva de uma presença ampliada de mísseis norte-coreanos ocorre em um momento delicado para a defesa aérea ucraniana, que enfrenta escassez de interceptores frente a ameaças balísticas de alta velocidade como os KN-23 e Iskander-M.
Mísseis balísticos são rápidos demais para a maioria dos sistemas de defesa de curto alcance, o que deixa a Ucrânia dependente de um estoque limitado de interceptores avançados — principalmente do sistema americano Patriot — para abatê-los.
A Rússia tem apostado nesse cenário, ampliando o uso de mísseis balísticos justamente na expectativa de que a escassez de interceptores ucranianos permita que mais projéteis atinjam seus alvos.
Até o momento, não há confirmação oficial de Moscou ou Pyongyang sobre os detalhes do destacamento, e a configuração final da unidade em Voronej permanece sujeita às negociações bilaterais previstas para o próximo mês.

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