Companhia americana passa a deter 8,66% do capital da aérea brasileira em meio à reestruturação financeira sob Chapter 11
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) aprovou, sem restrições, o investimento de até US$ 100 milhões da empresa American Airlines na brasileira Azul Linhas Aéreas.
A decisão, divulgada nesta segunda-feira, autoriza a companhia norte-americana, a adquirir uma participação minoritária de 8,66% no capital social da aérea brasileira, movimento que integra o processo de reestruturação financeira da Azul, atualmente em curso nos Estados Unidos sob o regime de recuperação judicial previsto no Chapter 11.
Segundo o órgão antitruste, a operação não representa riscos à concorrência no mercado de transporte aéreo brasileiro, tampouco compromete consumidores ou reduz a competitividade do setor. A aprovação não impõe qualquer condição à American Airlines.
Cooperação comercial deve incluir codeshare e programas de milhagem
Com o investimento, a American Airlines terá direito a indicar um membro para o conselho de administração da Azul, além de um representante adicional aos comitês estratégicos da companhia brasileira.
Segundo análise do CADE, a cooperação comercial prevista entre as duas empresas deve incluir a expansão de voos em codeshare, acesso recíproco a salas VIP nos aeroportos e benefícios compartilhados entre os programas de fidelidade das duas companhias.
O órgão regulador identificou sobreposição de rotas entre os aeroportos de São Paulo/Guarulhos–Governador André Franco Montoro (GRU) e Rio de Janeiro/Galeão–Antonio Carlos Jobim (GIG) com os aeroportos de Miami (MIA) e Orlando (MCO), nos Estados Unidos.
Ainda assim, o CADE concluiu que a concorrência entre as companhias nessas rotas não é suficientemente direta para configurar risco concorrencial.
A decisão da Superintendência-Geral do CADE ainda pode ser objeto de recurso ou levada a julgamento pelo Tribunal do órgão. Caso não haja manifestação de terceiros interessados dentro do prazo, a aprovação se tornará definitiva, consolidando a entrada da American Airlines, integrante da aliança oneworld, no quadro societário de uma das maiores companhias aéreas da América do Sul.
Abra, controladora da Gol e da Avianca, contesta a operação
O Grupo Abra, controlador da brasileira Gol Linhas Aéreas e da colombiana Avianca, se manifestou como terceira interessada no processo e argumentou que o investimento da American enfraqueceria a concorrência ao influenciar os fluxos de tráfego aéreo no Brasil.
O CADE, no entanto, avaliou que a malha doméstica da Azul é majoritariamente complementar, e não diretamente sobreposta, à operada pela Gol, e não encontrou indícios de que a transação alteraria a relação comercial já existente entre a American e a Gol.
Segundo investimento americano na Azul em 2026
O aporte da American Airlines não é o primeiro movimento de uma grande companhia aérea dos Estados Unidos na Azul neste ano. Em fevereiro, o CADE já havia aprovado investimento de US$ 100 milhões da United Airlines na companhia brasileira, elevando a participação da rival direta da American no mercado doméstico americano de 2% para pouco mais de 8%.
A Azul enfrenta reestruturação financeira desde maio de 2025, quando deu entrada no pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos sob o Chapter 11, em razão de elevado endividamento, alta nos custos de combustível, dificuldades na cadeia de suprimentos que afetaram a disponibilidade de aeronaves e volatilidade cambial.
O plano prevê a redução de mais de US$ 2 bilhões em dívidas, sendo US$ 1,6 bilhão financiado ao longo do próprio processo e outros US$ 950 milhões após a saída da recuperação judicial, prevista para ocorrer em algum momento de 2026.
O investimento da American será realizado por meio de warrants de segurança de longo prazo (long-term security warrants) e deverá aprofundar a colaboração entre as duas companhias nas rotas entre Estados Unidos e América do Sul.
Azul opera frota de mais de 170 aeronaves
Fundada em 2008 por David Neeleman — que também esteve à frente da criação da Morris Air, da WestJet e da JetBlue —, a Azul construiu seu modelo de negócio estimulando a demanda por meio de tarifas acessíveis em mercados pouco atendidos do Brasil. A companhia atende hoje mais de 150 destinos e é a quarta maior aérea da América do Sul em capacidade de assentos, atrás de LATAM, Avianca e Gol.
A frota da Azul reúne mais de 170 aeronaves, entre elas os modelos Airbus A320neo, A321neo, A330-200, A330-900, ATR 72-500, além dos jatos Embraer E195 e E195-E2. A frota cargueira é composta por duas aeronaves A321-200P2F.
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