USS United States (CVA-58): o gigante nuclear cancelado cinco dias após a quilha ser lançada que dividiu as Forças Armadas dos Estados Unidos e mudou para sempre a história do poder naval
O porta-aviões mais ambicioso, já concebido pela Marinha dos Estados Unidos (US Navy) nunca saiu do estaleiro — e nem chegou perto disso. Em 23 de abril de 1949, apenas cinco dias depois da quilha do USS United States (CVA-58) ser assentada em Newport News, Virgínia, o secretário de Defesa, Louis A. Johnson, assinou o cancelamento do programa, encerrando o sonho da Marinha americana de operar sua própria capacidade de bombardeio nuclear estratégico.
O episódio desencadeou a chamada "Revolta dos Almirantes", uma das mais graves crises político-militares internas da história americana do pós-guerra, e redefiniu, de forma permanente, a doutrina de poder aéreo naval dos Estados Unidos durante a Guerra Fria.
Da Segunda Guerra Mundial ao átomo: o contexto que gerou o CVA-58
O fim da Segunda Guerra Mundial deixou a Marinha americana diante de uma contradição estratégica. Ao mesmo tempo em que consolidava sua posição como a força naval mais poderosa do mundo, ela via surgir uma ameaça institucional inédita: a bomba atômica.
O centro de gravidade do poder militar, havia sido transferido para o domínio dos bombardeios estratégicos de longo alcance — um domínio que, com a criação da Força Aérea Americana (USAF) como ramo independente em 1947, passava a ser reclamado exclusivamente pela USAF.
Para a Marinha, a resposta era clara: era necessário um navio capaz de operar bombardeiros pesados com capacidade nuclear. Não uma adaptação dos porta-aviões existentes — as classes Essex e Midway —, mas uma plataforma inteiramente nova, projetada desde a concepção para lidar com aeronaves a jato de grande porte, significativamente mais rápidas, maiores e mais pesadas do que qualquer aeronave embarcada até então.
O principal defensor desse conceito era o almirante Marc Mitscher, veterano da guerra do Pacífico e uma das maiores autoridades em aviação naval de sua geração. Mitscher queria um porta-aviões capaz de operar com as armas mais eficazes disponíveis — e, naquele momento, isso significava armas nucleares.
O projeto: sem ilha, sem precedentes
Em 29 de julho de 1948, o presidente Harry Truman, aprovou a construção de cinco navios da nova classe, com recursos previstos na Lei de Dotações Navais de 1949. O primeiro da série recebeu o nome USS United States, com o número de casco CVA-58.
O projeto era radicalmente diferente de tudo que a Marinha havia operado até então. Com deslocamento padrão previsto em aproximadamente 65.000 toneladas — podendo chegar a cerca de 83.200 toneladas em carga plena —, comprimento total de 331 metros e velocidade máxima de 33 nós, o CVA-58 seria, no momento de sua entrada em serviço, o maior navio de guerra do mundo.
Mas a característica mais marcante do projeto era a ausência completa de uma superestrutura — a chamada "ilha" — acima do convés de voo. A decisão era funcional: os bombardeiros pesados previstos para operar a partir do navio tinham envergaduras tão grandes que qualquer obstáculo fixo no convés se tornaria um problema operacional grave.
A solução foi adotar um convés totalmente raso, com chaminés retráteis e uma cabine de pilotagem que podia ser rebaixada durante as operações de voo.
Quatro elevadores laterais — posicionados nas bordas do convés para não comprometer a integridade estrutural do piso de voo — e quatro catapultas completavam o arranjo. O convés de voo em si seria a principal "viga" estrutural do navio, ao contrário dos porta-aviões anteriores, nos quais essa função cabia ao convés do hangar.
Isso tornava o navio mais suscetível à rolagem em mar agitado, já que uma proporção maior do peso estaria concentrada na parte alta do casco — um trade-off que os projetistas consideravam aceitável, dado o ganho operacional.
O grupo aéreo previsto era composto por até 18 bombardeiros estratégicos pesados e 54 caças a jato de escolta — uma força de ataque sem paralelo em qualquer porta-aviões da época. O custo estimado de construção do navio era de US$ 190 milhões (equivalente a US$ 2 bilhões em valores atuais).
O problema sem solução: quem controla a bomba
Desde as primeiras discussões sobre o projeto, ficou claro que o USS United States não seria apenas um navio — seria uma declaração política. Ao operar bombardeiros com capacidade nuclear, a Marinha estaria quebrando o monopólio que a recém-criada Força Aérea, havia estabelecido sobre as armas estratégicas nucleares.
A USAF enxergou o CVA-58 como uma ameaça direta, tanto doutrinária quanto orçamentária. O general Hoyt Vandenberg, chefe do Estado-Maior da Força Aérea, enviou um memorando ao secretário de Defesa em exercício deixando explícita a posição da corporação: o projeto deveria ser impedido antes que o Congresso se comprometesse definitivamente com ele.
O argumento central da Força Aérea era que os grandes bombardeiros de longo alcance — em especial o Convair B-36 Peacemaker, com alcance intercontinental e capacidade de transportar cargas nucleares pesadas — já eram suficientes para cumprir a missão de dissuasão estratégica. Um porta-aviões nuclear seria, segundo essa visão, uma duplicação dispendiosa e desnecessária de capacidade.
Cinco dias e um cancelamento
A quilha do USS United States foi lançada em 18 de abril de 1949, em uma cerimônia relativamente discreta no estaleiro da Newport News Drydock and Shipbuilding. Cinco dias depois, em 23 de abril, Louis A. Johnson — que havia substituído James Forrestal como secretário de Defesa em março, com a missão explícita de cortar os gastos militares — assinou o cancelamento do programa.
Johnson acatou os argumentos da Força Aérea sem questionamentos significativos. Para ele, a prioridade era reduzir o orçamento de defesa, e o argumento de que grandes bombardeiros terrestres podiam cumprir a missão nuclear sem a necessidade de um gigantesco porta-aviões embarcado parecia convincente o suficiente.
O secretário da Marinha, John Sullivan, soube da decisão pelos jornais — não havia sido consultado. Ele renunciou imediatamente, em protesto público. O Congresso abriu uma investigação sobre a forma e o mérito da decisão de Johnson.
O material que havia sido trabalhado no casco do navio foi desmontado ainda dentro da doca seca, liberando o espaço para o início da construção do transatlântico SS United States — coincidência de nome, sem qualquer relação com o projeto naval cancelado.
A Revolta dos Almirantes
O cancelamento do CVA-58 foi a faísca que acendeu o que ficou conhecido como a "Revolta dos Almirantes" — uma sequência de manifestações públicas e privadas de oficiais seniores da Marinha contra as decisões de Johnson e contra o que enxergavam como o desmonte sistemático do poder naval americano.
Vários almirantes, tanto da ativa quanto da reserva, levaram sua oposição ao Congresso e à imprensa. O chefe de Operações Navais, almirante Louis Denfeld, foi forçado a renunciar em represália. Outros oficiais de menor patente também sofreram punições por expressarem publicamente sua discordância.
A crise expôs, de forma crua, as tensões institucionais que marcavam os primeiros anos da Guerra Fria dentro do próprio governo americano: qual seria o papel da Marinha em um cenário dominado pela dissuasão nuclear? A aviação embarcada ainda tinha lugar em um mundo onde bombardeiros intercontinentais podiam entregar ogivas atômicas sem precisar de um porta-aviões?
A resposta veio menos de um ano depois. A invasão da Coreia do Sul, em junho de 1950, demonstrou de forma inequívoca que o poder naval móvel e flexível era insubstituível em conflitos de natureza limitada — exatamente o tipo de guerra que a doutrina do grande bombardeiro estratégico não era capaz de vencer. Matthews e Johnson, os dois secretários que haviam conduzido o processo de cancelamento e punição dos almirantes, renunciaram pouco depois.
A Marinha, por fim, encontrou um caminho para o poder nuclear embarcado sem o CVA-58: em 1950, as primeiras armas atômicas foram colocadas a bordo do porta-aviões USS Franklin D. Roosevelt. E o legado técnico do projeto — convés robusto para aeronaves pesadas, elevadores laterais, catapultas mais potentes — foi incorporado diretamente no projeto da classe Forrestal, os primeiros superporta-aviões americanos da era do jato, cujo primeiro navio foi lançado durante a Guerra da Coreia.






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