Da dependência estrangeira à autonomia tecnológica: a trajetória de quase duas décadas que redefine o poder naval brasileiro
Lançado oficialmente em 2008, dentro da Estratégia Nacional de Defesa, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), a qual consolidou a parceria entre Brasil e França, para construir quatro submarinos convencionais da classe Scorpène, batizada no Brasil de classe Riachuelo, além do primeiro submarino de propulsão nuclear do hemisfério sul, o Álvaro Alberto.
Mais de 17 anos depois, o programa já entregou três das quatro unidades convencionais e trabalha na fase de detalhamento do projeto do submarino nuclear, num esforço que a Marinha do Brasil (MB) descreve como o mais complexo da história da instituição.
O PROSUB nasceu de uma constatação estratégica simples: a Marinha precisava renovar uma frota de submarinos envelhecida e, ao mesmo tempo, dominar tecnologias que poucos países possuem — a propulsão nuclear naval.
O Início
O projeto do primeiro Submarino com Propulsão Nuclear Brasileiro (SN-BR) teve início em julho de 2012, no Escritório Técnico de Projeto da Coordenadoria-Geral do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear (COGESN), no complexo do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, sendo conduzida por uma equipe de engenheiros chamada, Corpo Técnico de Projeto do SN-BR, hoje formada por cerca de 200 integrantes da Marinha.
Desde 2010, cerca de 80 engenheiros da Força passaram por cursos e treinamentos ministrados pela então DCNS, na França e no Brasil, fruto do contrato de transferência de tecnologia firmado no âmbito do programa. A construção física do programa acontece no Complexo Naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro, onde a Itaguaí Construções Navais (ICN) monta os cascos dos submarinos.
Paralelamente, a MB desenvolve e valida o sistema de propulsão nuclear no Centro Experimental de Aramar (CINA), em Iperó (SP), tendo como núcleo o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), responsável por testar em terra todos os componentes do futuro reator naval antes de sua instalação definitiva no submarino.
A frota convencional já em operação
A classe Riachuelo é a espinha dorsal do PROSUB no curto prazo. O programa já entregou os submarinos Riachuelo (S-40), Humaitá (S-41) e Tonelero (S-42), enquanto o Angostura (S-43) avança para as etapas finais antes da incorporação à Esquadra.
Segundo atualização recente da própria Marinha, o Riachuelo já passa por seu primeiro período de docagem de rotina — manutenção programada esperada para esse tipo de embarcação —, enquanto Humaitá e Tonelero seguem em operação. O quarto submarino convencional, batizado de Almirante Karam, tem incorporação prevista para 2027.
Esses quatro submarinos a propulsão diesel-elétrica cumprem hoje a função de manter a capacidade submarina brasileira ativa enquanto o projeto nuclear avança, e representam, segundo a Marinha, um salto de capacitação tecnológica e industrial para o país — do domínio de aço naval de alta resistência à integração de sistemas de combate.
O Álvaro Alberto: o que muda com a chegada do primeiro submarino nuclear brasileiro
O contra-almirante (RM-1), Luiz Roberto Cavalcanti Valicente, assessor-chefe da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM), já explicou publicamente que o SNCA Álvaro Alberto tem somente a propulsão nuclear — ele não possui armamento nuclear, e seus armamentos seguem sendo convencionais.
É o motor do submarino que é uma planta nuclear embarcada. Batizado em homenagem ao almirante que iniciou o desenvolvimento da ciência nuclear no país e fundou o CNPq, o submarino será movido por um reator de água pressurizada (PWR) desenvolvido integralmente com tecnologia nacional.
A diferença operacional entre um submarino convencional e um de propulsão nuclear é o que justifica todo o investimento e a complexidade do projeto. Um submarino diesel-elétrico precisa subir à superfície ou usar snorkel periodicamente para recarregar suas baterias, o que limita sua autonomia submersa e aumenta o risco de detecção.
Um submarino nuclear, por outro lado, pode permanecer submerso por semanas seguidas, deslocar-se em velocidades mais altas e operar com autonomia praticamente limitada apenas pelos suprimentos e pela resistência da tripulação — sem necessidade de reabastecimento de combustível.
O ganho estratégico para a Marinha do Brasil
Para a Marinha, a entrada em serviço do Álvaro Alberto representa um salto qualitativo, não apenas quantitativo. Hoje, a Força de Submarinos brasileira opera exclusivamente com embarcações convencionais, cuja principal limitação estratégica é justamente a necessidade de vir à tona com frequência — o que reduz o alcance de patrulha sustentada em áreas afastadas do litoral, como boa parte da Amazônia Azul.
Com um submarino de propulsão nuclear, a Marinha passa a contar com uma plataforma capaz de:
- Permanecer em área de patrulha por períodos muito mais longos sem necessidade de retorno à base ou reabastecimento, ampliando a presença contínua sobre áreas de interesse estratégico;
- Deslocar-se com maior velocidade entre regiões distantes da costa, algo relevante numa Zona Econômica Exclusiva que se estende por milhões de quilômetros quadrados;
- Operar de forma mais discreta por mais tempo, reforçando a capacidade de dissuasão e o conceito de negação do uso do mar — ou seja, tornar arriscada ou custosa a presença de forças estranhas em águas de interesse nacional;
- Ingressar em um grupo seleto de marinhas com capacidade nuclear submarina, o que tem peso simbólico e diplomático além do valor puramente militar.
A tecnologia permitirá autonomia de até 70 dias, maior velocidade e operações prolongadas de discrição, sem necessidade de reabastecimento. Como destaca a própria Marinha, o submarino movido a energia nuclear será peça fundamental para garantir a proteção da Amazônia Azul, área rica em recursos como petróleo e biodiversidade marinha, além de ser crucial para o comércio exterior do país — mais de 95% das exportações brasileiras passam por essas águas.
Vale reforçar, com a cautela que o tema exige: trata-se de propulsão nuclear, não de armamento nuclear. O Brasil, signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, submete o uso de material nuclear em propulsão militar a monitoramento e documentação, e a Marinha conduz o programa reafirmando que o país não tem ambições bélicas nucleares — apenas o objetivo de proteger seus recursos e garantir soberania energética e territorial.
Segundo o programa, o reator brasileiro atende aos parâmetros da Agência Internacional de Energia Atômica conforme o INFCIRC/153, que permite o uso de material nuclear para propulsão não bélica.
Cronograma sob pressão: atrasos e o novo horizonte de 2038
A parte mais delicada da história recente do PROSUB é o cronograma. O planejamento original previa que a construção do SN-BR tivesse início em fevereiro de 2020, com conclusão prevista para o final de 2029. Essa meta, no entanto, foi sucessivamente adiada.
Reportagens de 2026 já indicavam a data de conclusão deslizando para 2037, num projeto que, ligado ao Programa Nuclear da Marinha, iniciado em 1979, completa 47 anos em 2026, com cerca de R$ 40 bilhões gastos desde 2008 dentro do pacote do PROSUB como um todo — valor que engloba submarinos convencionais, transferência de tecnologia e toda a infraestrutura de Itaguaí, não apenas o casco do submarino nuclear.
O cenário se agravou nos meses seguintes. Em ofício encaminhado pelo Ministério da Defesa à Câmara dos Deputados em 22 de junho de 2026, a Marinha informou que o lançamento do Álvaro Alberto foi reprogramado de 2034 para 2038 — um adiamento de quatro anos em relação à estimativa anterior.
Segundo a Força, a justificativa está na indisponibilidade de recursos e na ausência de previsibilidade orçamentária, fatores que vêm impactando diretamente o ritmo de execução de um programa estratégico de longo prazo.
A Marinha também esclareceu que o Álvaro Alberto será o primeiro de uma nova classe de submarinos nucleares, e não um protótipo isolado — o que reforça a leitura de que o investimento em curso é o primeiro passo de uma capacidade permanente, e não um projeto de exceção. O cronograma original, definido em 2008, previa a entrega do submarino já em 2025.
A questão orçamentária não é nova. Já em março de 2026, a Marinha alertava para o risco de atrasos adicionais caso o programa não recebesse um aporte extra de cerca de R$ 1 bilhão naquele ano, valor considerado mínimo para manter o ritmo do PROSUB e evitar paralisações em áreas críticas, incluindo as atividades no Complexo Naval de Itaguaí e no LABGENE.
O contexto desse pedido envolveu também um cenário geopolítico mais tenso na região após a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante uma operação militar dos Estados Unidos em janeiro de 2026 — episódio que elevou as preocupações com a estabilidade regional e a pressão interna por acelerar projetos estratégicos de defesa.
Nesse contexto, os comandantes das três Forças Armadas apresentaram um plano de investimento estimado em R$ 800 bilhões ao longo de 15 anos para modernizar o equipamento militar brasileiro, tendo o submarino nuclear da Marinha como um dos projetos prioritários.
Apesar da recomposição orçamentária parcial, a Marinha recebeu a maior fatia de um pacote de R$ 30 bilhões destinado às Forças Armadas, com R$ 1,89 bilhão — 37,8% do total —, mas boa parte desses recursos já havia sido consumida antes do previsto, restando cerca de R$ 890 milhões disponíveis para todo o exercício de 2026 dentro desse mecanismo de financiamento específico.
Do ponto de vista técnico, o projeto segue avançando apesar do atraso financeiro. O programa já entregou os submarinos convencionais Riachuelo e Humaitá e, à época, previa a entrega de mais dois até 2026, enquanto o SNCA Álvaro Alberto permanece na fase de detalhamento do projeto, com a construção de sua seção de qualificação já iniciada.
A retomada da construção de cascos resistentes pela Itaguaí Construções Navais, com o corte de chapa da chamada Seção C — região que abrigará a geração de energia propulsiva —, foi tratada pela própria Marinha como um marco relevante do processo construtivo, dada a complexidade estrutural envolvida.
Benefícios que ultrapassam a esfera militar
Um ponto pouco explorado é o efeito industrial e tecnológico do programa sobre a economia brasileira. Estima-se que cerca de 60 mil empregos diretos e indiretos estejam sendo gerados pelo PROSUB, além do domínio de tecnologias que têm aplicação civil — da irradiação de alimentos à medicina nuclear, hoje fundamental no tratamento do câncer.
O processo de nacionalização do programa envolveu contatos e intercâmbio com cerca de 400 empresas nacionais, e o domínio do enriquecimento de urânio, conquistado already em 1988 com tecnologia 100% brasileira, segue sendo aprimorado e aplicado também na produção de equipamentos pelas Indústrias Nucleares do Brasil.
Análise: quantos submarinos o Brasil realmente precisa para proteger a Amazônia Azul?
Aqui entramos no terreno da análise hipotética, e é importante marcar isso com clareza: os números a seguir não são uma posição oficial da Marinha do Brasil nem um plano de força divulgado pela instituição — são um exercício analítico baseado em parâmetros de dimensão territorial, doutrina de emprego de submarinos e comparações com marinhas de perfil semelhante.
A Amazônia Azul soma cerca de 5,7 milhões de km² de área marítima sob jurisdição brasileira, um território líquido comparável em extensão à própria Amazônia terrestre.
Proteger uma área dessa magnitude com submarinos exige raciocinar em cima de alguns fatores: disponibilidade operacional simultânea, docagens e manutenções programadas, tempo de trânsito até as áreas de patrulha e a necessidade de cobrir ao mesmo tempo o litoral próximo (onde ficam plataformas de petróleo, portos e rotas de exportação) e as bordas mais distantes da ZEE e do que a Marinha chama de "Amazônia Azul estendida".
Como regra geral adotada por marinhas de porte médio a grande, para manter uma unidade permanentemente em área de operação — patrulhando, de fato —, é necessário dispor de três a quatro submarinos da mesma classe, considerando o ciclo de docagem, manutenção, treinamento de tripulação e deslocamento até a área de patrulha.
Esse é o motivo pelo qual frotas pequenas, mesmo tecnologicamente competentes, têm baixa capacidade de presença contínua.
Partindo dessa lógica, um cenário hipotético para a defesa efetiva da Amazônia Azul poderia ser estruturado assim:
- Submarinos convencionais (classe Riachuelo e sucessoras): um número entre oito e dez unidades permitiria à Marinha manter simultaneamente cobertura relevante no litoral Sudeste/Sul (onde se concentra a maior parte da produção de petróleo e gás e o tráfego marítimo mais denso) e no litoral Norte/Nordeste, incluindo o entorno da foz do Amazonas e a chamada margem equatorial, sem descuidar da capacidade de resposta a incidentes pontuais. As quatro unidades atuais e já entregues ou em fase final de incorporação representam, nesse raciocínio, menos da metade do que seria necessário para uma cobertura efetivamente contínua em múltiplas frentes.
- Submarinos de propulsão nuclear (classe Álvaro Alberto e sucessores): para que o conceito de dissuasão e negação do uso do mar em áreas mais distantes da costa funcione de forma permanente — e não apenas simbólica —, seriam necessárias, nesse exercício hipotético, ao menos quatro a seis unidades. Um único submarino nuclear, por mais capaz que seja, não sustenta presença contínua: enquanto uma unidade está em patrulha, outra está em manutenção, uma terceira em treinamento e uma quarta em trânsito. A própria confirmação da Marinha de que o Álvaro Alberto será o primeiro de uma classe, e não um exemplar isolado, sugere que a instituição já reconhece essa lógica internamente.
Some-se a isso a necessidade de sustentar esse parque de submarinos com infraestrutura de apoio compatível — estaleiros com capacidade de manutenção simultânea, bases com docas secas adequadas à propulsão nuclear (já contempladas no planejamento de Itaguaí) e um efetivo de tripulações qualificadas em número suficiente para rotação sem desgaste operacional.
Na prática, o Brasil está construindo hoje a primeira geração dessa capacidade — quatro submarinos convencionais e um nuclear em desenvolvimento.
Um salto para o patamar descrito acima representaria não apenas mais unidades, mas um segundo e um terceiro ciclos de investimento equivalentes ao que já vem sendo feito desde 2008, o que reforça por que a estabilidade orçamentária, apontada pela própria Marinha como o principal obstáculo atual, é tratada como condição estrutural para qualquer ambição de longo prazo nesse domínio.

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