Aliança prepara anúncio histórico na Cúpula de Ancara após abandono do Boeing E-7 Wedgetail; contrato pode superar €5 bilhões e consolida virada estratégica europeia
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) deve anunciar, durante a Cúpula de Ancara, entre os dias 7 e 8 de julho, a seleção do Saab GlobalEye como substituto de sua frota de aviões de alerta aéreo antecipado Boeing E-3 Sentry, em operação desde 1982.
A decisão, antecipada pela Reuters com base em quatro fontes familiarizadas com o processo, encerra um longo ciclo de avaliação iniciado após o colapso do programa do Boeing E-7 Wedgetail e representa a maior aquisição de aeronaves de vigilância da história da Aliança.
O fim de quatro décadas de dependência americana
Com seus característicos radomes de nove metros de diâmetro, os 14 aviões do sistema AWACS da OTAN atuam como os "olhos no céu" da Aliança desde 1982. Baseada na Base Aérea de Geilenkirchen, na Alemanha, a frota é operada por tripulações de 21 dos 32 países-membros e é um dos poucos ativos militares pertencentes diretamente à OTAN.
Ao longo de mais de quatro décadas, os E-3 Sentry acumularam um histórico operacional extenso. Eles forneceram imagens de radar unificadas para caças, navios e centros de controle aliados em missões nos Bálcãs, no Afeganistão e no Iraque, além de operações de segurança durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha e em grandes cúpulas internacionais.
Desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, a frota passou a atuar de forma intensiva no flanco leste da Aliança — a capacidade de reabastecimento em voo do AWACS se revelou particularmente valiosa nessas missões, permitindo maior permanência na área de operações.
A plataforma, porém, é herdeira de um projeto dos anos 1950. Os E-3A Sentry são derivados do Boeing 707, cuja célula voou pela primeira vez em 1957, equipados com motores Pratt & Whitney TF33, e devem permanecer em serviço até cerca de 2035. A substituição passou a ser tratada como urgência estratégica.
A derrocada do Wedgetail e a abertura para Saab
A OTAN já havia tentado resolver a questão antes. Em novembro de 2023, a Aliança selecionou seis Boeing E-7A Wedgetail — sem licitação formal — com previsão de operação inicial até 2031. O plano desmoronou rapidamente.
Em junho de 2025, o Pentágono cancelou o programa E-7 da Força Aérea dos EUA em seu orçamento para o exercício fiscal de 2026, optando por priorizar sensores espaciais e mais aeronaves E-2D Hawkeye.
O cancelamento americano teve efeito cascata imediato sobre os planos da OTAN. O secretário de Estado holandês para Defesa, Gijs Tuinman, afirmou que o recuo dos EUA ressaltou "a importância de investir o máximo possível na indústria europeia".
Foi nesse contexto que o GlobalEye se apresentou a OTAN. O CEO da Saab, Micael Johansson, passou a cortejar abertamente a Aliança após o colapso do programa Wedgetail, chamando a seleção original de 2023 de "precipitada" e afirmando, durante a Conferência de Segurança de Berlim em novembro de 2025, que o SHAPE havia concluído que o GlobalEye "preencheria uma lacuna, se utilizado de forma adequada".
Em abril de 2026, a publicação francesa La Lettre chegou a noticiar que a Agência de Suporte e Aquisições da OTAN tinha concedido o contrato de substituição do AWACS à Saab e à Bombardier. À época, a Saab afirmou à imprensa que havia fornecido informações à OTAN, mas que não havia assinado nenhum contrato nem recebido pedido formal.
O que é o GlobalEye
O Saab GlobalEye é uma aeronave de vigilância multimissão que combina o radar Erieye Extended Range, desenvolvido pela própria Saab, com a célula do jato executivo Bombardier Global 6500. Diferentemente do E-3 Sentry, que opera essencialmente como plataforma de vigilância aérea, o GlobalEye tem capacidade de monitorar simultaneamente ameaças no ar, em terra e no mar.
A plataforma entrou em serviço em 2018 e, além de já estar em produção seriada, proporciona menor número de tripulantes, menor consumo de combustível e condições de cabine projetadas para reduzir a fadiga dos operadores em missões de até 12 horas em altitude. Esses fatores foram determinantes para posicioná-la como alternativa de menor risco em relação ao Wedgetail.
A escolha do GlobalEye também se encaixaria na transição mais ampla da OTAN — de uma substituição direta aeronave por aeronave para uma arquitetura mais abrangente de "sistema de sistemas", dentro do programa Alliance Future Surveillance and Control (AFSC).
Encomenda histórica à vista
Sob estudos anteriores conduzidos pela agência de suporte da OTAN em abril de 2026, a frota seria composta por dez a doze aeronaves a um custo unitário aproximado de €550 milhões, num programa avaliado em mais de €5 bilhões. Esses números, ressalve-se, ainda não foram confirmados oficialmente.
A aquisição planejada pela OTAN foi anunciada semanas após o Canadá — que declarou querer reduzir sua dependência de fornecedores de defesa americanos — fechar um pedido de seis GlobalEye, a maior encomenda do tipo até o momento.
A compra da OTAN deve ser ainda maior, embora o número final de aeronaves permaneça indefinido. Uma fonte indicou que a quantidade final pode depender de a Aliança optar ou não por uma versão mais cara com capacidade de reabastecimento em voo. Se confirmado, Geilenkirchen poderá se tornar o lar da maior frota de GlobalEye do mundo.
Tensão com Washington
A decisão não ocorre no vácuo político. O movimento pode testar as já tensas relações com o presidente americano Donald Trump, que tem pressionado os aliados a comprar equipamentos militares americanos, criticado repetidamente as nações europeias por dependerem dos EUA para sua segurança e chegou a ameaçar retirar Washington da OTAN.
A escolha por um sistema de fabricação sueca — especialmente após o episódio do cancelamento do E-7, um programa americano — é lida por analistas como um sinal concreto do aprofundamento da autonomia estratégica europeia em defesa.
A recente adesão da Suécia à OTAN também agrega valor imediato ao processo, ao facilitar a padronização da frota e os fluxos de suporte logístico entre os membros da Aliança. A Saab, a OTAN e as autoridades de defesa dos países envolvidos não confirmaram oficialmente nenhum dos detalhes do acordo até o fechamento desta edição.



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