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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Marinha Britânica lança drone de ataque Nyan a partir de navio pela primeira vez e avança no conceito de Marinha Híbrida

Munição-guiada autônoma de uso único, produzida pela BAE Systems, foi disparada do navio experimental XV Patrick Blackett durante o exercício Neptune Reach — marco que abre caminho para possíveis testes a bordo do porta-aviões HMS Queen Elizabeth

A Real Marinha Britânica (Royal Navy) realizou em junho de 2026, no litoral sul da Inglaterra, o primeiro lançamento do drone de ataque Callen-Lenz Nyan a partir de um navio em movimento — um passo concreto na transição da força naval rumo ao chamado conceito de Marinha Híbrida, que prevê a integração de sistemas não tripulados a plataformas convencionais. 

O lançamento ocorreu durante o exercício Neptune Reach, com o uso de um trilho catapulta instalado no convés traseiro do navio experimental XV Patrick Blackett, de 42 metros de comprimento. A atividade contou com a participação conjunta da Marinha, do Exército e da Força Aérea, no âmbito do Projeto Vantage. 

O sistema: tecnologia de baixo custo com alcance de precisão

O Nyan é um drone de ataque autônomo com envergadura de 2,9 metros, propulsão por pequeno motor a jato, alcance estimado superior a 150 quilômetros e construção predominante em fibra de carbono. 

O sistema é classificado como one-way effector (OWE), expressão que descreve munições guiadas de uso único: o drone é programado para voar até o alvo e se expendir sobre ele, operando na interseção entre o míssil de cruzeiro e o drone convencional, mas a um custo radicalmente inferior. 

O custo unitário declarado pelo fabricante é inferior a US$ 132.000, e o alcance supera o do míssil antinavio Harpoon. Para referência, um Harpoon Block II custa entre US$ 1,2 milhão e US$ 1,5 milhão por unidade — uma diferença de ordem de grandeza que muda o cálculo logístico e operacional de uma campanha naval.

O projeto inclui ainda um bocal de exaustão de baixa visibilidade, que reduz a assinatura infravermelha do sistema e dificulta sua detecção por defesas aéreas inimigas. O Nyan é desenvolvido e fabricado pela Callen-Lenz, subsidiária da BAE Systems, ligada ao centro de pesquisa e tecnologia avançada da empresa, o FalconWorks. 

O exercício Neptune Reach: dados do lançamento

Durante os testes marítimos, um sistema lançador capaz de acelerar o drone a até 55 metros por segundo foi instalado no convés do XV Patrick Blackett, com o objetivo de avaliar como o Nyan poderia ser operado a partir de uma plataforma naval em movimento. Uma vez lançado, o sistema voou de forma autônoma até o alvo pré-programado. 

Participaram da atividade militares do 26.º Regimento de Artilharia Real do Exército britânico e do 744.º Esquadrão Naval Aéreo da Marinha Real, operando em conjunto com a tripulação do XV Patrick Blackett. A Royal Air Force também esteve representada no exercício tripartite. 

O tenente-comandante, David Burton, responsável pela capacidade de One-Way Effectors marítimos na Royal Navy, afirmou que o teste representa um avanço significativo na entrega de munições de uso único para o ambiente naval. 

"Sob o Projeto Vantage, estamos planejando integrar essas capacidades à Marinha Híbrida, combinando plataformas tripuladas com sistemas não tripulados para expandir o alcance, aumentar o ritmo e ampliar a letalidade", declarou, acrescentando que a atividade demonstra a aceleração dos conceitos Atlantic Strike em capacidades práticas e operacionalmente implantáveis para a frota.

Da Estônia ao mar: histórico operacional do Nyan

O drone chegou aos testes navais com um histórico operacional já consolidado. O Nyan resulta de um requisito do Exército britânico formulado em 2022, e a Callen-Lenz confirmou já ter entregado milhares de unidades — o CEO Matt Foster afirmou, em junho deste ano, que mais de 1.000 veículos foram produzidos. 

Em maio de 2026, durante o exercício Spring Storm na Estônia, o Exército empregou o Nyan em apoio aos aliados da OTAN em manobras reais. Após esses testes, o Royal Artillery incorporou o sistema ao serviço operacional. Antes disso, o Nyan já havia estreado em combate nas mãos das forças ucranianas.

O CEO da Callen-Lenz, Matt Foster, afirmou que o sistema "já está operacionalmente comprovado em terra" e que os testes marítimos demonstraram sua capacidade de "agregar valor real também em ambiente naval". 

Foster destacou que os ensaios refletem "forte colaboração entre os serviços e a indústria, evidenciando o ritmo com que podemos entregar inovação para avançar a capacidade de defesa integrada e multidomínio do Reino Unido".

O horizonte: HMS Queen Elizabeth e a ala aérea híbrida

Os resultados do Neptune Reach estão sendo analisados pela equipe de capacidades da Royal Navy e pelo Centro de Guerra Aérea e Espacial. Há perspectiva de realização de novos testes a bordo do porta-aviões HMS Queen Elizabeth. 

Caso confirmados, os ensaios elevarão o Nyan a uma nova dimensão operacional, integrando um sistema de ataque de baixo custo à plataforma de projeção de poder naval de maior porte da frota britânica. 

Em paralelo, o Plano de Investimento em Defesa do Ministério da Defesa britânico, publicado em 30 de junho, delineou dois projetos complementares: o Projeto Pantheon, dotado de aproximadamente £250 milhões, destinado a explorar o potencial de uma ala aérea híbrida no porta-aviões; e o Projeto Vanquish, que prevê o emprego de drones a jato operando em conjunto com os caças Lockheed Martin F-35B da Royal Air Force. 

Há ainda o Projeto Ark Royal, ambição de mais longo prazo que prevê operações de drones com sistema CATOBAR (catapult-assisted takeoff but arrested recovery) a bordo dos porta-aviões da classe Queen Elizabeth.

O ministro responsável pelo setor, Luke Pollard, foi direto ao ponto: "A Grã-Bretanha está comprometida com a transição para uma Marinha Híbrida, com novos e poderosos drones no coração da Royal Navy. Ao reunir a expertise do Exército e da Marinha para empregar drones de ataque a partir de navios no mar, estamos acelerando as capacidades que nossas forças precisam para permanecer à frente de nossos adversários."

Contexto estratégico: o que o Nyan representa

O lançamento marítimo do Nyan não é apenas um teste técnico — é um índice de como as grandes marinhas ocidentais estão repensando a equação de custo-efetividade no poder de fogo naval. A proliferação de drones de uso único no conflito da Ucrânia, com particular destaque para o emprego em larga escala de sistemas de baixo custo contra alvos de alto valor, redefiniu parâmetros que até poucos anos atrás pareciam consolidados.

Para além da missão de ataque, a Callen-Lenz indicou que o Nyan pode ser adaptado para carregar outras cargas úteis, com possibilidade de escalonamento para variantes de maior porte. A Marinha Real já identificou aplicações que incluem guerra antissubmarino, guerra antissuperfície e alerta aéreo antecipado para versões não tripuladas de rotação.

O desenvolvimento segue em paralelo ao do Leonardo Helicopters Proteus, demonstrador tecnológico de aeronave não tripulada de asa rotativa financiado pelo MoD britânico, que poderia futuramente executar missões que vão da guerra antissubmarino ao alerta antecipado aerotransportado. A Royal Navy, ao que tudo indica, não está apostando em uma única solução — está construindo um ecossistema.

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