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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Obras revelam o passado: Componentes de caças Kawasaki da 2ª guerra mundial são desenterrados em Yokota

Componentes de caças Kawasaki Ki-61, Ki-45 e Ki-102 foram descobertos a mais de dois metros de profundidade durante obra de modernização na antiga área de testes da Força Aérea Imperial Japonesa

A Base Aérea de Yokota, no Japão, devolveu ao governo japonês, em 1º de julho, uma coleção de artefatos históricos da Aviação do Exército Imperial Japonês descobertos por acaso durante obras de construção na instalação, em janeiro deste ano. 

Os itens — enterrados entre 2 e 3 metros de profundidade — incluem radiadores, componentes de motor, trens de pouso, seções de fuselagem e munições desativadas de aeronaves da Segunda Guerra Mundial. 

A avaliação da coleção identificou peças raras associadas a três modelos de caça Kawasaki que, segundo os pesquisadores, podem estar entre os poucos exemplares sobreviventes de sua categoria no mundo.

A Descoberta: Obra Revela Passado Enterrado sob Concreto Americano

As obras em que os artefatos foram encontrados faziam parte do Programa de Melhorias de Instalações do Japão, numa área próxima ao antigo Edifício 800 — região que integrava o Aeródromo Militar de Tama, predecessor da atual Base de Yokota. 

Inicialmente, as equipes de construção trataram os materiais como simples entulho metálico não identificado. A base foi originalmente construída pelo Exército Imperial Japonês em 1940 como o Aeródromo de Tama e se tornou o principal centro de testes de voo das Forças Aéreas do Exército Imperial durante a guerra. 

Foi a atenção de uma especialista ambiental que mudou o rumo do achado. Ao reconhecer o potencial histórico dos materiais, a dra. Callie Oldfield, cientista ambiental do 374º Esquadrão de Engenheiros Civis, acionou os canais apropriados para uma avaliação formal. 

"Quando esses materiais foram descobertos, determinei que deveriam ser avaliados quanto ao seu significado histórico...Só conseguimos reconhecer a verdadeira importância desses artefatos por causa do conhecimento e da expertise dos historiadores e dos curadores de museus, disse Oldfield. "

Avaliação Multidisciplinar: Especialistas Identificam Peças Únicas

Oldfield coordenou a avaliação inicial com o Conselho Municipal de Educação de Fussa antes de montar uma equipe multidisciplinar liderada pelo Museu de Ar e Espaço Gifu-Kakamigahara. O grupo reuniu historiadores de aviação, curadores de museus, especialistas em patrimônio cultural e técnicos em tecnologia aeronáutica, que realizaram uma inspeção detalhada no local em maio deste ano.

Os pesquisadores concluíram que a coleção representa componentes de múltiplas aeronaves do Exército Imperial Japonês, incluindo um resfriador d'água de um caça Kawasaki Ki-61 Hien, resfriadores de óleo de um caça bimotor Kawasaki Ki-45 Toryu e um resfriador de óleo possivelmente pertencente a um Kawasaki Ki-102. 

Segundo os pesquisadores, alguns componentes podem estar entre os poucos exemplares sobreviventes de sua categoria e ainda conservam a pintura original de guerra, considerada valiosa para pesquisas de conservação aeronáutica. 

Os Caças por Trás dos Fragmentos

Os três modelos identificados ocupam lugares distintos na história da aviação militar japonesa. O Ki-61 Hien — "andorinha voadora" em japonês — foi o único caça japonês produzido em série durante a Segunda Guerra Mundial a utilizar um motor a líquido com configuração V invertido. 

Apelidado de "Tony" pelos Aliados, que inicialmente o confundiram com um Messerschmitt Bf 109 alemão, o Hien foi o primeiro caça japonês a entrar em serviço com tanques de combustível autosselantes e blindagem do piloto como equipamento padrão. Mais de 3.000 unidades foram fabricadas. 

O Ki-45 Toryu — "Exterminador de Dragões" — era um caça pesado bimotor e biplace, designado pelo Exército como "Caça Biplaza Tipo 2", e ficou conhecido pelos Aliados pelo codinome "Nick". O Toryu foi o único caça noturno do Exército Imperial Japonês a entrar em combate durante a guerra e se popularizou entre as tripulações principalmente por seu uso no ataque a alvos terrestres e embarcações aliadas. Ao todo, 1.675 unidades foram produzidas. 

O Ki-102, codinome "Randy" pelos Aliados, foi desenvolvido a partir do Ki-96 — um protótipo monolugar baseado no próprio Ki-45 — e foi projetado com foco no ataque a alvos terrestres. O modelo subsequente, o Ki-102B, foi o mais produzido, com 215 unidades concluídas antes do fim da guerra. Com os Aliados já avançando sobre as ilhas principais, a maioria dos Ki-102 ficou reservada para a defesa do território nacional japonês. 

Transferência e Destino do Acervo

Após a avaliação, os artefatos foram temporariamente armazenados na base enquanto as agências japonesas competentes coordenavam seu recebimento. Representantes do Escritório Regional de Finanças de Kanto, do Ministério das Finanças do Japão, visitaram Yokota para receber a coleção, com membros do 374º Esquadrão de Engenheiros Civis auxiliando no carregamento dos materiais para transporte. 

O material deve ser destinado a pesquisa, conservação e eventual exibição pública — um destino que Oldfield considera o melhor desfecho possível para o achado. "Não quero perder um pedaço da história", declarou a pesquisadora. 

Embora preservar e avaliar artefatos leve tempo, o melhor resultado é vê-los usados para educação e pesquisa. Estou animada para ver quais novas informações esses artefatos vão revelar no futuro.

Cooperação e Memória: O Simbolismo da Devolução

A Base de Yokota carrega, literalmente enterrada em seu subsolo, uma camada da história militar japonesa que os processos de modernização pós-guerra trataram de deixar para trás. Com a rendição do Japão em setembro de 1945, um destacamento da 1ª Divisão de Cavalaria do Exército americano chegou à base e encontrou os edifícios praticamente intactos, com cerca de 280 das aeronaves mais modernas do Exército Imperial ainda nos hangares. 

O que estava fora dos hangares — peças, componentes, fragmentos de máquinas que não voariam mais — acabou enterrado, aguardando oito décadas para ser redescoberto. 

A devolução reforça a parceria operacional entre as forças americanas e japonesas que administram conjuntamente a instalação, e sinaliza uma postura institucional de valorização da memória histórica nos processos cotidianos de modernização de uma das bases mais estratégicas dos Estados Unidos no Pacífico.

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