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terça-feira, 14 de julho de 2026

Frota de porta-aviões dos EUA cai a dez unidades enquanto custos da classe Ford disparam

Programa de construção da classe Ford, estouro tetos de custo fixados por lei, 11 anos sem estimativa independente de gastos e falhas recorrentes em catapultas, sistema de pouso e elevadores de armamento

Vista do porta-aviões USS Gerald R. Ford (CVN 78) a partir do cruzador de mísseis guiados da classe Ticonderoga, USS Normandy (CG 60) enquanto participavam de um Exercício de Força Tática como parte do Grupo de Ataque, em 13 de outubro de 2022. (Foto da Marinha dos EUA pelo Especialista em Comunicação de Massa 2ª Classe Malachi Lakey)

A Marinha dos Estados Unidos (US Navy) concluiu, após quase duas décadas e a um custo estimado na casa dos US$ 120 bilhões, o desenvolvimento da classe Ford de porta-aviões nucleares, liderada pelo USS Gerald R. Ford (CVN-78). 

O programa, iniciado no começo dos anos 2000 e batizado em homenagem ao 38º presidente americano, teve o primeiro navio da classe comissionado em 2017, sendo que a primeira implementação operacional só ocorreu em outubro de 2022, mais de cinco anos depois. 

Segundo reportagem publicada pelo site 19FortyFive, assinada pelo analista Harry J. Kazianis, o resultado final é um navio tecnologicamente avançado, mas construído a partir de um processo marcado por estouros orçamentários, falta de fiscalização e sistemas críticos que, por anos, não funcionaram dentro dos parâmetros exigidos.

Tetos de custo ignorados

Quando o Congresso americano autorizou a construção da classe Ford, tentou-se conter os gastos por meio de uma lei de 2007 que, limitava o a construção primeiro navio ao valor de US$ 10,5 bilhões e cada unidade subsequente a US$ 8,1 bilhões. Nenhum dos dois tetos foi respeitado. 

O USS Gerald R. Ford, custou cerca de US$ 13,3 bilhões, tornando-se o navio de guerra mais caro já construído. As embarcações seguintes não reduziram o custo unitário: o USS John F. Kennedy (CVN-79) orçado em aproximadamente US$ 13,2 bilhões, o USS Enterprise (CVN-80) em US$ 14,2 bilhões, e o USS Doris Miller (CVN-81) em US$ 15,2 bilhões, com tendência de alta.

O Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização do Congresso americano, apontou que o USS Gerald R. Ford superou sua própria estimativa de custo em mais de US$ 2 bilhões, e classificou como pouco confiável a estimativa de gastos referente ao Kennedy.

A entidade identificou ainda, um período de 11 anos em que o programa recebeu mais de US$ 15 bilhões sem qualquer estimativa de custo independente. O GAO chegou a definir a classe Ford como "um dos programas mais caros do portfólio de defesa" dos Estados Unidos.

Sistemas que não atingiram as metas de confiabilidade

Parte significativa do orçamento do programa, foi destinada a tecnologias inéditas que, segundo o levantamento, não corresponderam às expectativas operacionais durante anos de testes. O Electromagnetic Aircraft Launch System (EMALS), catapulta eletromagnética que substituiu o sistema a vapor usado desde a classe Nimitz, tinha como meta operar 4.166 lançamentos entre falhas críticas; nos testes, alcançou 181. 

O Advanced Arresting Gear (AAG), responsável por reter as aeronaves no pouso, deveria suportar 16.500 ciclos sem falhas, mas apresentou problemas após cerca de 450 operações. A Marinha também retirou, como medida de contenção de custos, um quarto motor de frenagem originalmente projetado para dar redundância ao sistema — decisão que avaliadores de testes posteriormente recomendaram reverter.

Os elevadores avançados de armamento, responsáveis por transportar munições dos paióis até o convés de voo, foram entregues sem funcionar no navio-líder. Mesmo após correções, o sistema registrou 109 falhas em cerca de 20 mil movimentações. 

Durante um período de qualificação de aeronaves a bordo, os quatro defletores de jato do convés falharam simultaneamente devido a fixadores corroídos, obrigando o navio a retornar ao porto. O radar experimental de banda dupla, exclusivo do USS Gerald R. Ford, apresentou dificuldades em exercício e será retirado do projeto das unidades seguintes.

De acordo com o relatório mais recente de testes operacionais do Pentágono, avaliadores da própria Marinha registraram que a confiabilidade das catapultas e do sistema de pouso continua a "afetar negativamente a geração de surtidas", e que a tripulação ainda depende de suporte de contratados externos ao navio para manter os sistemas em operação.

Um problema de concepção, não de execução isolada

Segundo a análise, as falhas não decorrem de um único componente defeituoso, mas de uma decisão de projeto: em vez de evoluir gradualmente a partir da classe Nimitz, testando uma tecnologia de cada vez, a Marinha optou por integrar mais de vinte sistemas inéditos em um único casco — novas catapultas, novo sistema de pouso, novos elevadores, novo reator, novo radar, automação ampliada e convés de voo redesenhado. 

A construção do navio teve início antes da maturação dessas tecnologias, o que levou a um ciclo de projetar, construir e corrigir simultaneamente. O presidente Donald Trump, crítico recorrente das catapultas eletromagnéticas e defensor do retorno ao sistema a vapor, é apenas uma das vozes que questionaram publicamente essas escolhas.

Contexto estratégico

O momento em que o programa amadurece adiciona pressão ao debate. Com a aposentadoria do USS Nimitz e o atraso de dois anos na entrega do USS John F. Kennedy, a frota de porta-aviões americana caiu para dez unidades, abaixo do mínimo de onze exigido por lei. 

O próprio USS Gerald R. Ford retornou recentemente para reparos, incluindo danos decorrentes de um incêndio a bordo. Cada uma dessas embarcações concentra mais de US$ 13 bilhões em um único alvo, em um cenário de proliferação de mísseis e drones de baixo custo capazes de ameaçar grandes unidades navais.

A capacidade operacional é real

A reportagem pondera que, apesar do histórico problemático, a capacidade operacional do USS Gerald R. Ford é genuína. Na implementação de 2023, o navio realizou milhares de surtidas consideradas suficientes para missões de combate por seus próprios avaliadores. 

O projeto da classe Ford prevê uma taxa de surtidas um terço superior à da classe Nimitz, com 1.100 tripulantes a menos e capacidade elétrica triplicada, voltada para sustentar futuros sistemas a laser e sensores de nova geração. As unidades seguintes tendem a incorporar as lições aprendidas com o USS Gerald R. Ford, com expectativa de redução no custo unitário à medida que a produção se estabiliza.

Ainda assim, o texto conclui que a diferença entre as dificuldades esperadas de um projeto pioneiro e o que ocorreu na prática é de grau: o programa não superou levemente um teto de custo — ultrapassou tetos definidos em lei; não atrasou por meses — o navio levou mais de cinco anos entre o comissionamento e o primeiro deployment; seus sistemas não tiveram desempenho abaixo do esperado — erraram as metas de confiabilidade por uma margem superior a dez vezes.

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